Ana Hikari: ‘O Brasil não enxerga pessoas amarelas como parte de sua identidade’

Atriz está no elenco de “Quanto mais vida melhor”, nova novela das 19h da TV Globo

Ana Hikari interpreta Vanda na nova novela das sete Foto: Divulgação/Victor Pollack

No elenco de “Quanto mais vida melhor”, nova novela das 19h da TV Globo, Ana Hikari está empolgada com o trabalho. Ela dá vida a Vanda, uma garota que toca numa banda e vai se ver envolvida em um triângulo amoroso. “Ela é mais fechada, gosta muito de música e cuida muito da sua amizade com o (Murilo Jaffar Bambirra)“, adianta.

A atriz comemora a sua volta ao ar ao mesmo tempo em que pede mais visibilidade para asiáticos no país. “O Brasil não enxerga pessoas amarelas como parte da sua identidade. Falta uma compreensão de que somos tão cidadãos e humanos quanto qualquer outra pessoa branca.”

O GLOBO – O que pode nos contar sobre a sua personagem na novela que acaba de estrear?

ANA HIKARI – A Vanda é uma garota com uma banda que toca na night da Tijuca. Ela tem poucos amigos, é mais fechada, gosta muito de música e cuida muito da sua amizade com o Murilo (Jaffar Bambirra). Ele é seu melhor, e talvez único, amigo. Eles moram juntos num loft na Tijuca e, quando a Flávia (Valentina Herszage) entra na vida dos dois e na banda também, ela acaba sofrendo as consequências desse triângulo amoroso que vai surgir.

Em “Malhação”, você estabeleceu um contato direto com o público jovem. Acha que essa geração tem potencial para trazer mudanças significativas para o mundo?

Acredito muito na mudança e nos jovens pensantes e mobilizados que estão surgindo. Acho que as discussões que crescem através da internet podem ser muito potentes para a nossa sociedade avançar e evoluir. E muitos jovens que estão conectados são excelentes ferramentas para essas mudanças.

Atriz ficou mais próxima do público jovem em 'Malhação' Foto: Divulgação/Victor Pollack
Atriz ficou mais próxima do público jovem em ‘Malhação’ Foto: Divulgação/Victor Pollack

Você se sente parte disso?

Sinto que tenho um papel específico nesse contexto. Com a visibilidade que meu trabalho ganhou, acabei adquirindo um alcance muito grande através das minhas redes sociais. Muitas pessoas que me seguem confiam no que eu tenho a dizer. E eu sempre olho pra esse espaço das minhas redes como um lugar propício pra levar informação para as pessoas. Fico feliz quando consigo apresentar dados, trazer reflexões e informar o público que me segue, não só postar fotos de mim mesma.

Como você sente a pauta da representatividade asiática na produção brasileira?

Vejo avanços, mas acho que a desigualdade é tão grande e foi assim por tanto tempo, que ainda estamos muito distantes de um cenário ideal de representatividade. Ainda vemos que a grande maioria dos artistas com destaque nas mídias é branca. Papéis protagonistas são majoritariamente entregues a atrizes e atores brancos. Faltam muitas oportunidades para artistas não brancos. Isso inclui negros, indígenas e asiáticos. E, quando há uma certa “diversidade” na tela, os personagens acabam sendo estereotipados ou estigmatizados. A representatividade precisa mudar em toda a cadeia de produção audiovisual: desde a sala de roteiro, até a produção de elenco  e direção. Só quando houver essa diversidade produzindo os conteúdos que a representatividade na tela vai, de fato, ocorrer.

Ana quer mais representatividade para asiáticos na cadeia audiovisual Foto: Divulgação/Victor Pollack
Ana quer mais representatividade para asiáticos na cadeia audiovisual Foto: Divulgação/Victor Pollack

Acha que o brasileiro ignora o tamanho, a influência e a importância da comunidade asiática no país?

Acredito que o Brasil não enxerga pessoas amarelas como parte da identidade brasileira. A comunidade asiática não é algo separada ou segregada. Ela faz parte do que é a sociedade brasileira. Falta para o Brasil a consciência de quais são as etnias que compõem a nossa sociedade e uma compreensão de que nós, amarelos, somos tão cidadãos e humanos quanto qualquer outra pessoa branca brasileira.

Como o preconceito contra essa população se apresenta por aqui, particularmente?

Primeiramente, com essa noção de que pessoas amarelas não são parte do Brasil, são estrangeiros, são uma comunidade segregada. Esse é o primeiro equívoco, porque muitos de nós possuem famílias que estão no Brasil há mais de 100 anos. Depois, através dos estereótipos que impõem um lugar estigmatizante e pejorativo na sociedade em relação às pessoas amarelas. Esses estigmas geralmente se apresentam em forma de atitudes e piadas, o que chamamos de micro agressões. Elas acontecem de maneira constante e diária, construindo uma noção hierárquica entre raças, na qual pessoas amarelas ficam abaixo da branquitude. No universo audiovisual, recorrentemente essas micro agressões servem como racismo recreativo pras pessoas rirem ao invés de enxergar pessoas amarelas como dignas. Acontecem também esses estigmas serem falsamente positivos, como o mito da minoria modelo que diz que pessoas amarelas são excelentes, impecáveis etc. Mas esses estigmas servem para cobrar de pessoas amarelas a perfeição, julgá-las quando estão fora dessas expectativas irreais e utilizar esse argumento racial para oprimir outros grupos raciais. Basicamente, o preconceito se apresenta de várias maneiras, mas o resultado é sempre o mesmo: o enaltecimento de uma única raça, a branca.

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