A rixa de Hedi Slimane com a Vogue é um sinal dos (novos) tempos

Como os atritos entre o designer e a Condé Nast evidenciam o enfraquecimento de uma narrativa que o alçou à fama
POR LUXAS ASSUNÇÃO

HEDI SLIMANE

Na última temporada, a ausência da coleção da Celine na Vogue Runway, maior plataforma de visualização de coleções do mundo, causou estranhamento aos fashionistas mais atentos. Por sua vez, fontes da Vogue afirmaram ao site WWD que a publicação não havia sido convidada para cobrir a mais recente apresentação da Celine, que tem como diretor criativo Hedi Slimane. 

Somam-se a isso novos rumores de uma insatisfação de Hedi Slimane com Anna Wintour, editora chefe da Vogue norteamericana e diretora global de conteúdo da Vogue, o que representantes oficiais da Celine negam. Os rumores afirmam, no entanto, que a insatisfação de Slimane em relação à publicação seja resultado da saída da editora-chefe Emmanuelle Alt, da Vogue Paris. 

No início deste ano, a Condé Nast (detentora da Vogue) vem reestruturando todas as publicações, na busca de um posicionamento mais coeso entre todos os títulos e maior supervisão de Anna Wintour. Essa reestruturação culminou na demissão de uma série de profissionais de alto-escalão nas diversas Vogues ao redor do mundo e Emmanuelle Alt foi uma delas. Edward Enninful, editor-chefe da Vogue inglesa, se tornou editor-geral das publicações para toda Europa, enquanto Eugenie Trochu substituiu Emmanuelle Alt como líder de conteúdo editorial na versão francesa da revista.

Hedi Slimane e Emmanuelle Alt | Reprodução
HEDI SLIMANE E EMMANUELLE ALT | REPRODUÇÃO

Mais tarde, em Outubro, foi anunciado uma reformulação na Vogue Paris, que passou a se chamar Vogue França com o objetivo de se tornar uma publicação mais ampla, inclusiva que falasse e refletisse toda a França, não apenas o berço da moda. A mudança foi bem significativa, já que a Vogue Paris parecia, em alguns sentidos, presa no tempo, destacando sempre os mesmos ídolos e o clássico estilo garota-parisiense sob o comando de Emmanuelle Alt.

Foi essa mesma estética que tornou Hedi Slimane um dos mais renomados diretores-criativos do mundo nas primeiras décadas dos anos 2000. As suas silhuetas justas, realçando corpos extremamente magros, juvenis e sem grandes emoções, quase como um novo Heroin Chic, tornaram a Saint Laurent (ainda YSL) uma das mais valiosas e desejadas marcas em apenas quatro anos. Isto, em uma época quando ainda pouco se falava sobre gordofobia ou diversidade de corpos. A chegada de Slimane à Celine em 2016 foi cercada de polêmicas. O designer propôs uma mudança radical no estilo, nas lojas e até mesmo no logo, apagando totalmente parte de seu clássico appeal com o público, trazido à tona pela visão essencialmente de-mulher-para-mulher construído por Phoebe Philo. 

Houveram tentativas de Slimane em conquistar a Geração Z e os novos consumidores de moda, com coleções tão óbvias quanto “The Dancing Kid” – quando o TikTok estourou e ainda era basicamente um aplicativo de dancinhas – grande parte delas foram frustradas. A falta de diversidade de corpos e a perpetuação da estética dos corpos super-magros, quase anoréxicos têm gerado críticas ao trabalho de Hedi Slimane na Celine, principalmente pelas novas gerações, que abraçam mais veemente a inclusão e diversidade – principalmente de corpos. 

Fashion Film The Dancing Kid, da Celine | Reprodução
FASHION FILM THE DANCING KID, DA CELINE | REPRODUÇÃO

Por outro lado, depois de um começo de 2020 tortuoso, com diminuição de vendas que variaram de 7 a 40%, segundo o BoF – também em decorrência da pandemia – a marca parece voltar a se estabilizar. Ancorada em celebridades asiáticas e do Kpop, como Lisa Manoban, do Blackpink, a Celine tem encontrado um novo mercado consumidor na China, que anteriormente, tinha uma fatia pouco representativa no faturamento da label francesa.

Apesar disso, a marca era uma das grandes anunciantes da Vogue Paris e ainda encontrava solo fértil nas páginas da publicação, sob comando de Emmanuelle Alt, amiga e parceira de longa data de Slimane. Rumores apontam que a Celine teria cortado parte de sua compra de publicidade na revista também por esse motivo.

Esta não seria a primeira vez que Hedi Slimane tem comportamentos similares com a imprensa. Resistente à entrevistas, Slimane é conhecido por banir ou boicotar jornalistas e veículos cuja opinião ou forma de retratar seu trabalho não o agradam, em uma atitude quase infantil. Como numa queda-de-braço, Hedi Slimane testa os limites de seu poder de influência, principalmente em tempos difíceis para a revista em que anunciantes – como a Celine – são fundamentais. 

No entanto, já no primeiro mês da Vogue França, sob o comando de Enninful e Trochu, viu-se uma clara mudança na publicação. As capas, tipicamente estampadas por modelos ou personalidades da moda com roupas à-la garota parisiense, foi substituída por Aya Nakamura, cantora francófona de Mali, na África, vestida de Balenciaga Couture. São novos ares muito bem vindos à publicação francesa e um sinal dos tempos. 

Aya Nakamura na capa da Vogue França
AYA NAKAMURA NA CAPA DA VOGUE FRANÇA

Um sinal dos tempos que Hedi Slimane insiste em ignorar, sendo diretor criativo de uma das únicas grandes marcas que não trouxe modelos fora do padrão para as passarelas e campanhas até hoje. É inegável que a Vogue também foi muito responsável por esse mesmo padrão que Slimane e tantos outros perpetuam até os dias de hoje, apesar da publicação se excluir dessa narrativa. A questão aqui, é que a revista parece querer andar com o Zeitgeist, o espírito dos (novos) tempos, enquanto Hedi Slimane, que sempre esteve em contato com os desejos das novas gerações, parece preso à uma mesma narrativa que o alçou à fama há quase três décadas. De lá pra cá, o mundo é outro, mas o dele parece permanecer quase o mesmo.

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