Unicórnio dos games, Wildlife tem ambiente de trabalho tóxico, denunciam funcionários e RH

Startup brasileira enfrenta casos de assédio moral, de desigualdade salarial e de promoção de estereótipos de gênero

Unicórnio em 2019, o estúdio de games brasileiro Wildlife foi fundado por Arthur e Victor Lazarte (foto) em 2011 em São Paulo

O estúdio de games brasileiro Wildlife, mais conhecido como criador do jogo Tennis Clash, está sendo acusado de ter um ambiente de trabalho tóxico: funcionários e um documento interno elaborado pelo departamento de Recursos Humanos relatam casos de assédio moral, desigualdade salarial entre homens e mulheres e promoção de estereótipos de gênero entre as equipes. As denúncias foram publicadas na terça-feira, dia 14, em reportagem no site Rest of World.

Fundada e comandada pelos irmãos Arthur e Victor Lazarte em 2011 em São Paulo, a Wildlife faz parte do seleto grupo de unicórnios brasileiros, tendo rompido a marca do US$ 1 bilhão como avaliação de mercado em dezembro de 2019 — à época, ao Estadão, a companhia afirmou que queria ser “a Nintendo dos games para celular”. A empresa é uma das startups brasileiras mais bem posicionadas no mercado internacional, com escritórios em cinco países, incluindo os Estados Unidos, e soma 800 funcionários pelo mundo.

O relatório do RH de 22 páginas, segundo a reportagem, aponta que uma gerente foi promovida com salário 30% inferior ao de um colega homem em cargo similar. Em outro momento, é descrito que um diretor “silenciou as opiniões femininas do time” sobre a sexualização de personagens femininas em games, um dos problemas mais antigos da indústria de jogos eletrônicos. “Nós não estamos neste negócio para quebrar estereótipos, mas para os reforçar”, declarou o executivo, ainda contratado pela Wildlife.

Ainda, há denúncias de que foi pedido a uma funcionária que ela “fosse mais humilde” ao pedir alterações em produtos, de que uma colaboradora foi ignorada em reuniões e de que outra mulher foi desencorajada pelo próprio chefe a sugerir ideias em grupo. O relatório aponta que os funcionários homens do departamento gráfico de marketing criaram um grupo onde pudessem “falar abertamente”, o que, na visão do departamento de RH, seria “um eufemismo para (criar um espaço paracomportamento machista”.

O relatório conclui apontando que esforços para melhorar as condições de trabalho têm sido insuficientes, mas acredita que detalhar os casos pode tornar o ambiente “mais seguro, frutífero e motivador” para os funcionários. Criado como demanda do time de diversidade da Wildlife para entender as denúncias que surgiam, o documento foi publicado em maio de 2020.

No entanto, a reportagem ainda diz que funcionários e ex-colaboradores contam que o ambiente segue igual e que a área de compliance da Wildlife, criada um mês após o relatório do RH, tem dado pouca atenção às denúncias. “Eu registrei minha reclamação e nada foi feito. Sei de alguns casos que foram resolvidos, mas outros continuam sem solução ou desconhecidos da companhia”, conta um ex-funcionário.

Procurada pelo Estadão, a Wildlife não respondeu aos pedidos de esclarecimentos até a publicação do texto.

As denúncias surgem ao mesmo tempo em que o estúdio americano Activision Blizzard virou alvo processos de ex-funcionários, que relatam más condições de trabalho, como assédio sexual e moral com funcionárias mulheres.

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