Chanel Métiers d’Art 2021: Tudo sobre a coleção e os ateliers por trás do último desfile da grife francesa

Marca evidenciou o trabalho dos seus oito ateliês: Lesage, Lognon, Montex, Massaro, Lemarié, Maison Michel, Desrues e Goossens
Marina Caruso, de Paris

Modelos apresentam criações durante o Chanel “Metiers d’art 2021-2022”, em Paris Foto: CHRISTOPHE ARCHAMBAULT / AFP

Paris, 7 de dezembro, 16h30. Falta meia hora para o desfile de Métiers d’Art da Chanel, ready-to-wear com foco no artesanato e requintes de alta-costura. Desde que foi criada, em 2002, para valorizar o virtuosismo de seus artesãos, a coleção é um dos maiores acontecimentos no mundo da moda. Cerca de 300 convidados da grife, vindos de diferentes cantos do planeta, são misteriosamente divididos em grupos. Cada um deles recebe uma pulseira diferente, com o nome de um dos oito ateliês que compõem os métiers (área de atuação) da casa fundada por Gabrielle Chanel em 1910. Há a turma do Lesage, especialista em tweed, do Lognon, que faz os meticulosos plissados da grife, dos bordados Montex, do Massaro, especialista em sapatos, do Lemarié, que faz plumas e flores como a camélia, ícone da maison, do chapeleiro Maison Michel e dos ourivesDesrues e Goossens, designers de botões e bijoux.

O encontro acontece no Le19M, novo espaço da Chanel, ao norte de Paris, com 25.500 m² e projeto do badalado arquiteto Rudy Ricciotti. Embora a inauguração oficial esteja planejada para o fim de janeiro, o prédio serviu de locação para o desfile e já abriga a maioria das maisons d’art da grife e seus 600 artesãos, gênios do handmade que também trabalham para outras marcas de luxo, como Dior, Hermès e Balenciaga. O nome “19M” faz alusão ao 19º arrondissement, bairro perto de Aubervilliers, e ao dia do aniversário de Gabrielle Chanel (19 de agosto de 1883). Já o “M” se desdobra em cinco frentes da fábrica de sonhos: métiersmains (mãos), mode (moda), maisons (casas de moda) e manufactures (manufatura).

Para se ter ideia da importância da grife no legado desses saberes, a Barrie Knitwear, tradicional fábrica de cashmere da Escócia, referência na produção de fibra de lã, estava prestes a ser fechada, sete anos atrás, quando a Chanel decidiu comprá-la. Embora não faça parte do 19M, a casa é propriedade da marca e dá continuidade ao ofício de mais de um século. Essa narrativa começou em 1985, quando a grife adquiriu o primeiro ateliê ameaçado de extinção.

 “Se não fossem eles, já teríamos fechado”, diz Patrick Goossens, diretor do ateliê de bijoux e botões que leva seu sobrenome. Visitado pelo rapper Pharrel Williams, um dos amigos célebres da marca, no dia do desfile, Patrick contou que a casa foi fundada por seu pai, Robert, amigo pessoal de Gabrielle. “Ela se encantou com o trabalho dele. Em especial, com os adornos de leão, seu signo no zodíaco.”

De volta ao desfile, diferentemente do que houve em outras temporadas (quando o universo náutico de Hamburgo, as camponesas chiques de Salsburgo e outras culturas europeias serviram de inspiração), a grife, agora, olhou para sua própria história. Com o foco no virtuosismo de seus artesãos, Virginie Viard, diretora criativa da Chanel desde a morte de Karl Lagerfeld, criou uma de suas mais belas coleções. Investiu em shapes amplos, alfaiataria desestruturada (e, ao mesmo tempo, elegante), na logomania e em muita barriga de fora e belly chain, os cintinhos de umbigo que já viraram febre nas praias cariocas

Desrues

Criado em 1929. Especialidade: Botões e bijoux. Adquirido pela Chanel em 1985.

Joalheiro e produtor de acessórios de luxo desde 1936, Georges Desrues esculpiu, dourou e esmaltou botões por décadas em sua oficina em Plailly, no norte da França. Em 1965, criou seus primeiros botões para Gabrielle Chanel e, nos anos seguintes, fez releituras das joias preciosas que lhe foram dadas pelo duque de Westminster. Em 1985, Desrues foi o primeiro dos ateliês adquiridos pela Chanel. De lá para cá, Karl Lagerfeld, Virginie Viard e seus mais de cem funcionários continuaram a trabalhar para manter o alto nível do artesanato da casa. Resultado: uma produção diária de 4 mil botões e oito coleções anuais de joias e bijoux.

Botão Chanel Foto: Alix Marnat / Divulgação
Botão Chanel Foto: Alix Marnat / Divulgação

Ateliê Montex

Criado em 1939. Especialidade: Bordados. Adquirido pela Chanek em 2011.

Especializado em bordados Lunéville, aqueles em que agulhas de crochê são usadas para inserir miçangas, paetês e outros brocados em pontos de corrente simples, a Montex foi fundada em 1939. Na gestão de Karl Lagerfeld, a casa passou a costurar piquês e bordados para outras grandes maisons de alta-costura. Atualmente, sob o comando da bordadeira emérita Annie Trussart, cria desenhos sofisticados e inovadores, feitos com máquinas centenárias de bordado Cornely, mecânicas e guiadas à mão. Caroline de Magret (na foto menor) foi uma das convidadas do desfile que se arriscou a operá-la. Nesta temporada, algumas criações pareciam inspiradas na arquitetura do Le19M, como bordados que mimetizam as estruturas de concreto branco da fachada, aplicados em bolsos e acessórios.

Bordado Chanel Metiers D'Art Foto: BOBY / Divulgação
Bordado Chanel Metiers D’Art Foto: BOBY / Divulgação

Lemarié

Criado em 1880. Especialidade: Plumas e flores. Adquirido pela Chanel em 1996.

Ateliê especializado em plumas e flores fundado durante a Belle Époque, quando a moda pedia chapéus ornamentados, a Lemarié permanece até hoje uma instituição da moda parisiense. Durante a década de 1950, a casa começou a trabalhar com designers de alta-costura, trazendo penas de pavão, cisne e avestruz a criações de grifes como Balenciaga, Nina Ricci, Christian Dior e, claro, Chanel. Anos depois, o ateliê acrescentou flores ao portfólio, transformando organza, tule, veludo e musseline em rosas e orquídeas de todos os tamanhos. Não demorou muito para que Gabrielle Chanel pedisse à empresa para confeccionar camélias de tecido com 16 pétalas, para uma coleção. O resto, como dizem, é história (da moda).

Flores Chanel Metiers D'Art Foto: Alix Marnat / Divulgação
Flores Chanel Metiers D’Art Foto: Alix Marnat / Divulgação

Lesage

Criado em 1924. Especialidade: Tweeds e bordados. Adquirido pela Chanel em 2002.

Foi em 1924 que a família Lesage assumiu o ateliê da bordadeira Michonet, fornecedora de Madeleine Vionnet, Charles Frederick Worth, Jeanne Paquin e outros grandes nomes da moda. Pouco tempo depois, a casa adquiriu imensa notoriedade ao produzir para Elsa Schiaparelli, bordados inspirados no universo do circo, de signos do zodíaco e nas conchas do mar. Nos anos 1950, quando François Lesage, filho do fundador, dirigia a casa, a oficina criou bordados para Pierre Balmain, Cristobal Balenciaga, Christian Dior, Hubert de Givenchy, Yves Saint Laurent e Christian Lacroix. Com mais de sessenta mil amostras de bordados, strass e pérolas, o ateliê tinha então uma das maiores coleções do mundo. Em 1992, fundou sua própria escola de bordado e em 2002 juntou-se à Chanel.

Chanel Metiers D'Art Foto: Alix Marnat / Divulgação
Chanel Metiers D’Art Foto: Alix Marnat / Divulgação

Massaro

Criado em 1894. Especialidade: Sapatos. Adquirido pela Chanel em 2012.

Embora tenha se tornado uma casa de moda só em 1894, a história da família Massaro no setor começa muito antes. Em 1957, Raymond Massaro criou o sapato bicolor que se tornaria um ícone da Chanel, bege com a pontinha preta. Tempos depois, assinou os calçados de alguns dos maiores ícones do cinema, como Marlene Dietrich, Elizabeth Taylor e Romy Schneider. Enquanto a moda da época obrigava as mulheres a andarem com saltos agulha vertiginosos, Massaro e Chanel ofereciam um sapato de couro bege, macio, com salto de 6 cm, capaz de projetar elegância, sem abrir mão do conforto. Em 2002, o ateliê foi comprado pela grife francesa e hoje faz de tudo um pouco: botas estruturadas, saltos clássico, espadrilhas, sapatos de PVC e até tênis, como pôde ver de perto o rapper Abd Al Malik.

Confecção de sapatos da Chanel Foto: Alix Marnat / Divulgação
Confecção de sapatos da Chanel Foto: Alix Marnat / Divulgação

Goossens

Criado em 1950. Especialidade: Botões e bijoux. Adquirido pela Chanel em 2005.

Robert Goossens, um dos ourives mais famosos da França, conheceu Gabrielle Chanel em 1953. Impressionado com o artesanato do joalheiro inspirado no Egito, a estilista lhe confiou o papel de fornecedor oficial de bijoux e botões da casa. Além de ornamentos com leões, signo de Coco, Goossens criou especialmente para ela peças em prata, bronze e folheadas a ouro e lhe apresentou pedras semipreciosas, quartzo e até as pérolas que (assim como as camélias, o tweed e os sapatos bicolores) se tornariam ícones da grife. Atualmente dirigido por Patrick Goossens, filho do fundador, o ateliê faz parte do Métiers d’Art da Chanel desde 2005 e, no último desfile da maison, recebeu a visita de Pharrel Williams (foto), amigo e entusiasta da grife que costuma quebrar as barreiras de gênero da moda mostrando que tailleurs originalmente femininos, caem bem também nos homens.

Chanel Metiers D'Art Foto: Alix Marnat / Divulgação
Chanel Metiers D’Art Foto: Alix Marnat / Divulgação

Lognon

Criado em 1853. Especialidade: Plissados. Adquirido pela Chanel em 2012.

Doze horas. Esse é o tempo que se leva para saber se um tecido foi bem plissado, depois de uma hora de fervura. Quem explica o processo é Sofie Dion, diretora do ateliê Lognon, especializado em plissagem de sedas, algodões e lãs desde 1853. “Os artesãos fazem as dobras do molde, como em um origami. Depois, colocam o tecido entre as duas folhas pregueadas, fecham feito um leque e colocam para ferver”, conta Sophie, em um charmoso inglês de sotaque francês. Graças a ela, a casa criada por Gerard Lognon continua produzindo pregas e plissados perfeitos e resistentes aos ferros de passar. Embora o ateliê só tenha sido adquirido pela Chanel em 2012, a técnica já era admirada (e utilizada) há muitos anos por Gabrielle.

Chanel Metiers D'Art Foto: Alix Marnat / Divulgação
Chanel Metiers D’Art Foto: Alix Marnat / Divulgação

Maison Michel

Criado em 1936. Especialidade: Chapéus. Adquirido pela Chanel em 1996.

Fundada por Auguste Michel em 1936, a Maison Michel alcançou grande sucesso na década de 1970, quando Pierre e Claudine Debard assumiram seu comando. Designers de chapéus e outros acessórios de cabelo, eles formaram toda uma geração de modistas que trabalhou para a Dior, Givenchy, Yves Saint Laurent e, mais tarde, Karl Lagerfeld. Comprada pela Chanel em 1996, a Maison Michel cria, até hoje, todos os chapéus e acessórios de cabelo da grife — dos panamás da coleção Cruise de Cuba, aos caps náuticos do pre-fall desfilado em Hamburgo, passando por seus laços pretos atemporais. O cantor Sébastien Tellier esteve na maison antes do último desfile, usando uma das criações do ateliê que, desde 2006, está sob o comando de Laetitia Crahay.

Maison Michel Foto: BOBY / Divulgação
Maison Michel Foto: BOBY / Divulgação

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