CRÍTICA | ‘Não Olhe para Cima’: filme da Netflix é sátira ácida ao mundo atual

Com Leonardo DiCaprio, Meryl Streep e Jennifer Lawrence encabeçando elenco; longa de Adam McKay usa de cometa ameaçando a Terra para detonar negacionistas, cultura de likes, ‘isentões’ e mídia
RAQUEL PINHEIRO (@RAQUELPINHEIROLOUREIRO)

Cena de Não Olhe para Cima (Foto: Divulgação / Netflix)

Não Olhe para Cima (Don’t Look Up), com Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep, estreou na Netflix entrando na lista das produções mais vistas da plataforma e com apenas três dias de lançamento já está no top 10 Brasil. O sucesso não é à toa: o longa de Adam Mckay (de Vice) é uma crítica ácida a tudo que tira muita gente do sério esses dias, dos negacionistas das mais variadas vertentes aos políticos sem qualquer compromisso com nada que não seja o próprio interesse, da cultura de celebridades ao consumo midiático frenético. Ou seja, um prato cheio para quem quer desopilar a raiva acumulada nos últimos tempos, em uma diversão catártica onde a direita americana é ridicularizada sem dó.

A trama é simples: o professor Randall Mindy (DiCaprio) e sua estudante de doutorado Kate Dibiasky (Jennifer)  são astrônomos na mesma universidade e  descobrem um cometa está a caminho da Terra. Depois de verificarem sua trajetória de todas formas possíveis, eles comprovam que o impacto com o planeta é inevitável, provocando, a extinção da humanidade. A partir daí a dupla tenta levar a verdade ao mundo: primeiro via Nasa, depois procurando diretamente a presidente americana, Janie Orlean, personagem de Meryl. Uma caricatura de Donald Trump, com direito a um filho que é seu chefe de gabinete e tão pilantra qaunto a mãe, Jason, vivido por Jonah Hill.

DON'T LOOK UP, Meryl Streep as President Janie Orlean. Cr. Niko Tavernise / Netflix © 2021 (Foto: NIKO TAVERNISE/NETFLIX)
Meryl Streep em Não Olhe para Cima (Foto: Divulgação / Netflix)

Ela, claro, prefere ignorar a ameaça porque está preocupada com sua reeleição, e Randall e Kate têm apenas o apoio de um cientista do governo, Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan, de Demolidor e Stranger Things), que tenta fazer com que o  The New York Times publique a história. Mas na última hora os dois acabam indo parar em um programa de televisão, onde Kate surta ao perceber que ninguém leva a sério a ameaça do cometa. Ela vira meme e é desacreditada; Randall quase vai pelo mesmo caminho, mas engrena um affair com uma apresentadora, Brie Evantee (Cate Blanchett) e se torna um queridinho do público – do público que acredita que o cometa realmente vem aí.

É nesse ponto que Não Olhe para Cima fica cada vez mais surreal, mas nem um pouco longe da realidade. Orlean tem duas forças motoras por trás de cada decisão: a busca pela reeleição e a necessidade de agradar Peter Isherwell (Mark Rylance), uma figura meio Steve Jobs, meio Elon Musk que financiou sua campanha e manda no governo, tendo seus próprios interesses no cometa. Kate vira atendente de lanchonete porque, desacreditada, não tem o benefício da dúvida – ou de ter nascido homem como Randall, que apesar de também ter seus momentos de perder a linha, vira até símbolo sexual e topa trabalhar para o governo, fazendo cada vez mais concessões às suas crenças.

Cena de Não Olhe para Cima (Foto: Divulgação / Netflix)
Cena de Não Olhe para Cima (Foto: Divulgação / Netflix)

A cultura de likes e o culto às celebridades também não escapam da crítica de McKay, que já tinha mostrado no ótimo Vice que não perdoa nem a chamada imprensa tradicional. O cometa é uma alegoria para a questão do meio ambiente e os alertas dos cientistas, que na vida real são vítimas de negacionistas, fake news e da falta de interesse de parte da população, que não acredita que o problema é da sua conta – em uma cena brilhante, um grupo de manifestantes, que nega a existência do comenta, finalmente olha para cima e vê que ele está logo ali em cima e não há mais nada a se fazer.

Com um elenco brilhante, onde DiCaprio reina absoluto, e Jennfier Lawrence mostra mais uma vez porque já tem um Oscar e três Globos de Ouro no currículo aos 31 anos, as várias participações especiais, de Ariana Grande a Tyler Perry dão um charme extra ao filme, que tem suas derrapadas – e não são poucas.

DON'T LOOK UP (L to R) SCOTT MESCUDI (KID CUDI) as DJ CHELLO, ARIANA GRANDE as RILEY BINA. Cr. NIKO TAVERNISE/NETFLIX © 2021 (Foto: NIKO TAVERNISE/NETFLIX)
Scott Mescudi e Ariana Grande (Foto: Divulgação / Netflix)

Em uma trama onde até Yule, o papel de Timothée Chalamet, que fica menos de 10 minutos em cena, ganha uma história, Oglethorpe parece mais um token para corroborar a teoria de Kate e Randy sobre o cometa do que um personagem completamente desenvolvido.  A presidente de Meryl é vítima de umas piadinhas sexistas que poderiam ter ficado de fora, e McKay, ao optar por mostrar Kate tendo um ataquel ao vivo na televisão, “passando recibo” de “louca histérica”, perdeu a chance de ir por um outro caminho, explorando como as mulheres na ciência são muitas vezes consideradas menos capazes e confiáveis que seus colegas homens.

Outro erro do filme, com “e” maiúsculo, é relegar a talentosíssima Melanie Lynskey, a Rose de Two and a Half Men, ao papel de mulher traída, resignada e compreensiva de Randall. Além do desperdício de Melanie, pouco se vê dos filhos do casal, em um arco que poderia ter sido mais esperado. Nada disso compromete a diversão e a reflexão proporcionadas por Não Olhe para Cima, que está entre as melhores produções da Netflix este ano.

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