Moda e ícones da década de 1990 viram objetos de fascínio para Geração Z

Jovens adotam calças de cintura baixa e reverenciam Paris Hilton
LOU STOPPARD

A socialite americana Paris Hilton e a cantora Britney Spears em foto de 2006 Reprodução/Twitter

THE NEW YORK TIMES

Quando Tora Northman, 23, vasculha o Instagram, o que acontece diversas vezes por dia, ela muitas vezes vê uma foto de Gwyneth Paltrow em uma cerimônia do MTV Video Music Awards de 1996; a atriz está usando um terno Gucci de veludo cor de vinho.

Às vezes a foto aparece porque algum de seus amigos a postou; em outros casos, ela surge em uma das páginas que têm por tema as décadas de 1990 e 2000 que proliferam online, entre as quais @early2000sbabes, @90sanxiety, @90smilk e @literally.iconic, a proprietária da qual declara, na descrição da conta, que “fui criada por Paris e Britney”.

“Sempre que a vejo com aquela roupa de veludo, eu imediatamente dou um ‘like’, e quase sempre compartilho a imagem”, disse Northman. A obsessão da Geração Z pela moda das décadas de 1990 e 2000 está bem documentada.

Basta recordar a visita de Olivia Rodrigo à Casa Branca usando um conjunto Chanel inspirado em “As Patricinhas de Beverly Hills”, de 1995, ou Bella Hadid celebrando seu aniversário usando o look que abriu o desfile da coleção de primavera da Gucci em 1998.

Olhe para um grupo de adolescentes qualquer e é provável que você encontre calças de camuflagem “vintage”, sapatos plataforma, tops de alcinha, correntes na cintura, camisetas com slogans (“garotos mentem!”), vestidos com estampas de hibiscos e joias em forma de borboleta.

Na plataforma de revendas Depop aconteceram 290 mil buscas pelo termo Y2K em setembro, outubro e novembro de 2021, de acordo com a companhia. (É um dos termos de busca mais populares na plataforma, de acordo com um porta-voz da Depop.) No mesmo período, aconteceram 92.561 buscas por “jeans de cintura baixa” e 150.133 buscas por “Ed Hardy”.

Imagens e vídeos gravados por paparazzi na época circulam online como curiosidades vindas de uma era aparentemente mais simples mas ao mesmo tempo decadente: Sarah Jessica Parker como Carrie Bradshaw, a princesa Diana, Britney Spears.

Há fotos da jovem Nami Campbell nas passarelas, desfilando para as grifes Chanel, Gaultier e Versace; de Victoria Beckham, reluzente em seu passado como estrela pop; de Paris Hilton usando uma camiseta que diz “não tenha inveja”.

Para aqueles que têm idade suficiente para se lembrar de ter dançado ao som de “1999”, de Prince, à meia-noite da virada do milênio, usando óculos de sol reluzentes decorados com o número 2000, a ideia de encarar como aspiração as estrelas culturais (e de moda) de uma era caracterizada pela incerteza financeira e tecnológica pode parecer incompreensível.

Mas muitas das pessoas que chegaram ao mundo mais tarde indicam que a atração da ideia envolve muito mais do que a simples diversão de experimentar as roupas de outra era, e pode representar mais do que uma indicação sobre o início de um novo ciclo de 20 anos na indústria da moda.

“VIVER MAIS O MOMENTO”

Uma das vendedoras de maior sucesso no Depop, de acordo com a plataforma, é Isabella Vrana, 24, cuja loja promete “pérolas dos anos 90 e 00 para vocês, anjos”. Ela vive em Londres, tem três empregados e já vendeu mais de 16 mil peças para as pessoas ansiosas por fazer “cosplay” com os trajes de uma existência anterior.

Em um podcast recente, Vrana fala sobre ter descoberto quanto ao medo de um “bug do milênio” que existia no final da década de 1990. O desastre poderia causar o colapso da infraestrutura mundial por conta de erros de formatação de dados. A ideia de que a tecnologia pudesse falhar foi um choque para ela.

Ela se lembra de a mãe de um namorado lhe contar sobre a era anterior aos celulares, na qual, se você se visse separado de um amigo durante uma noitada, seria preciso voltar para casa e esperar ao lado do telefone fixo. “Isso me pareceu muito cool”, disse Vrana. “Gosto da ideia de que as pessoas vivam mais o momento”.

Um crush quanto ao passado é uma forma de escapar, diz ela, “de coisas que fazemos muito mas detestamos, como estar no telefone o tempo todo, ou tirar 50 fotos quase idênticas e depois estudá-las obsessivamente até encontrar a favorita”.

(Existe, é claro, uma ironia vívida em uma geração que usa smartphones e a internet como portal para uma era em que a vida online era menos importante, e para fantasiar sobre depender menos da tecnologia.)

Vrana sabe que as coisas não eram assim tão ótimas no passado; que a homofobia, racismo e sexismo eram mais tolerados, e que muitas mulheres eram assediadas e controladas, no mundo das celebridades. Mas ainda assim, ela disse, “as pessoas, em alguma medida, pareciam mais relaxadas”.

James Abraham, 35, que desde 2016 opera a conta @90sanxiety, muito popular no Instagram, vê o fascínio como relacionado a um senso de que havia alguma coisa de indomável naquele período –”o lado cru, o lado real”, disse Abraham. “Acho que a palavra-chave é pureza”.

“GOSTOSO E DESPREOCUPADO”

Nas décadas de 1990 e 2000, disse Northman, “as pessoas pareciam mais autênticas”. Claro, as celebridades atuais tentam demonstrar que são pessoas abertas, via mídia social, mas é frequente, ela aponta, que sejam na verdade o oposto disso: estratégicas e controladas.

Northman ama a maneira pela qual as celebridades pareciam se vestir sem esforço na década de 1990, usando ternos grandalhões e camisas desabotoadas, jeans revelando tangas, camisetas irônicas e tops reluzentes.

E a maneira pela qual elas apareciam nos braços de novos parceiros, fumando no tapete vermelho ou se embriagando e dizendo coisas sarcásticas e imprudentes em público. A impressão, ela diz, era de que todo mundo era “gostoso e despreocupado”.

Para Northman, imagens, digamos, como a de uma Kate Moss adolescente dando uma tragada em um cigarro despertam um estranho anseio por sensações e cenas que ela não é capaz de exatamente recordar, mas que imagina a agradariam: noitadas de diversão sem selfies; o cheiro da fumaça de cigarro em uma casa noturna; o som de um amigo batendo à porta para uma visita inesperada, ou para convidar a pessoa para sair e curtir a noite.

Charlotte Mitchell, 21, estudante de direito em Manchester, Inglaterra, disse que imagina que as décadas de 1990 e 2000 eram “como agora, mas sem a mídia social no controle, e por isso todo mundo podia se vestir como quisesse”.

No ano passado, a Urban Outfitters, cadeia de varejo na qual ela trabalha em tempo parcial, apostou pesado em uma retomada da marca Von Dutch, colocando à venda uma linha de camisetas sem manga e bonés. Ela comprou um top bonitinho com o logotipo da marca, achando que fosse uma grife nova e cool. Sua chefe, que tem 30 anos, desaprovou: “Você não era nem nascida”, ela disse, com desdém.

Nascida na década de 2000, Mitchell compreensivelmente sabe pouco sobre os detalhes dos estilos que gosta de imitar, e prefere, como a maioria das pessoas de sua idade, visualizar a era por meio das imagens aleatórias mas bonitas que fazem sucesso online.

Como no caso de quase todas as pessoas com quem conversei para este artigo, ela nunca tinha ouvido falar de “Seinfeld” ou “Will & Grace”. Tampouco assistiu a qualquer episódio de “Friends”. Mitchell disse que “essas coisas nunca me interessaram”.

(Vrana discorda. Um de seus ícones de estilo é a jovem Jennifer Aniston, em seu papel como Rachel Green, “Adoro as roupas de escritório da década de 1990”, ela disse.)

“Minha infância era a época de Hannah Montana”, disse Mitchell. Perguntada se já tinha ouvido falar de “The O.C.”, uma série que estreou em 2003, ela respondeu” “Não sei o que é isso. Desculpe”. E sobre o julgamento de O.J. Simpson? “Acho que eu nunca teria ouvido falar dele se não fosse pelas Kardashian”, ela disse.

O PODER DE PARIS

Harriet Russell, 21, usa três bijuterias reluzentes nos dentes, alisa os cabelos e compra seus produtos da década de 1990 no eBay. “Usualmente é alguma mãe que decide limpar o sótão e não sabe o que aquelas coisas realmente valem”, disse Russell, que mora na região leste de Londres. A lista de buscas salva em seu computador inclui D&G, Walé Adeyemi, peças “vintage” da Burberry, Air Max 95 e Miss Sixty.

Por algum tempo, os amigos dela tentaram curtir a imagem, se não a realidade, de uma vida em que a tecnologia era escassa, ela disse. Alguns compraram “flip phones” para usar como adereço nos selfies que tiravam com seus smartphones. Muitos, no verão passado, se apaixonaram por um filtro do Instagram que fazia com que as imagens parecessem ter sido registradas pela câmera de um celular primitivo.

“Por um breve período, todo mundo parecia estar vivendo na era da foto com filme”, disse Russell. Agora, alguns de seus amigos, ansiosos por se manter à frente da curva, voltaram ao digital, e carregam pequenas câmeras para registrar fotos de suas expedições noturnas.

“Acho que era uma coisa da década de 2000, quando ainda não existia o iPhone e você usava uma câmera para tirar fotos e depois as exportava para um computador ou algo assim”, ela disse. “Nem sei de que maneira isso poderia funcionar”.

Russell disse que gosta de invocar a persona de garota rica de Paris Hilton. Ela gosta do look “óculos escuros à noite”, das “bolsas de grife com logotipos grandes”, do corpo exposto. Para ela, esse tipo de moda parece “libertador”, disse. “Nós precisamos, e queremos, viver sem preocupação”.

De fato, a Paris Hilton do passado (ela agora tem 40 anos), um dia baluarte de um niilismo brincalhão, se tornou uma heroína improvável para algumas pessoas de metade da sua idade. Nicole Stark, 19, cuja loja na Depop, GlowNic, promete “roupas dos anos 90 e 2000, proprietária negra”, concorda que Hilton, filha de um bilionário e com uma persona construída com base em ignorar escancaradamente os próprios privilégios, provavelmente teria sido cancelada, se conquistasse fama hoje em dia. Mesmo assim, Stark a ama, e a vê como uma “mulher poderosa” que recusou se enquadrar.

Para Stark e muitas das pessoas entrevistadas, as histórias de mulheres que se tornaram celebridades, como Hilton, que ganhou fama em um período no qual o mundo do entretenimento era dominado por homens, oferecem exemplos não só de comportamento extravagante como forma de rebelião, mas também de mulheres mais antenadas do que muita gente acreditava na época.

Para muitos dos observadores da Geração Z, Hilton, com suas roupas reluzentes, recusa petulante em aceitar um emprego convencional ou capitular diante do comportamento visto como apropriado, algo que foi imortalizado no reality show “The Simple Life” resume a liberdade de uma época —o humor, o relaxamento e a irreverência. “Ela simplesmente fazia o que queria”, disse Mitchell, em tom de admiração. “Não se deixava influenciar por ninguém”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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