‘Matrix’: Carrie-Anne Moss fala sobre fazer heroína de ação após os 50 anos

Atriz enfrentou peso das expectativas ao encarar 4º filme da franquia
GINA MCINTYRE

A atriz Carrie-Anne Moss em Los Angeles Ryan Pfluger 13.dez.21/The New York Times

THE NEW YORK TIMES – Carrie-Anne Moss tinha 32 anos quando interpretou Trinity em “Matrix” (1999), desafiando a gravidade com um balé de artes marciais e entrando para o panteão de lendas da ficção científica ao lado de Sigourney Weaver, como Ellen Ripley, e Linda Hamilton, no papel de Sarah Connor.

Ágil, pálida, vestindo roupas colantes de couro e PVC, Trinity e o Neo de Keanu Reeves formavam as duas metades andróginas de um todo heróico, em uma história de conflito entre homem e máquina que se tornou uma obsessão cultural mundial.

O imenso sucesso do filme gerou duas continuações imediatas, “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions” (os dois lançados em 2003). Agora, quase duas décadas mais tarde, Moss está retomando o papel que definiu sua carreira em “The Matrix Resurrections”, escrito e dirigido por Lana Wachowski.

O filme chegou aos cinemas pouco antes do Natal, e exigiu que Moss, 54, passasse por semanas de treinamento intensivo antes de iniciar uma filmagem cansativa que levou o elenco a São Francisco, na Califórnia (EUA), e à Alemanha, entre outras locações.

Adicionalmente, ela teve de arcar com o peso imenso das expectativas. É extremamente raro que uma mulher de mais de 50 anos seja tanto uma estrela de ação quanto a protagonista romântica de um filme de grande orçamento.

“Tenho um senso de responsabilidade para com as mulheres que amam Trinity e se sentiram inspiradas por ela, e preciso ser autêntica com relação à minha idade, e não servir como uma ideia inatingível e que perpetue o mito do que significa ser uma mulher”, disse Moss, em tom amistoso e realista, em uma entrevista por vídeo recente, de sua casa na costa leste dos Estados Unidos. “Foi algo que carreguei comigo por todo o processo”. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Você escreveu um artigo para o jornal The Guardian, em 2016, em que mencionava que teve um “momento de claridade” ao perceber que interpreta mulheres combativas mas vulneráveis. Quando é que você chegou a essa conclusão pela primeira vez?
Aconteceu em uma aula de teatro, com uma professora, Sandy Marshall –ela ensina o método Meisner. Foi ela que fez essa observação de que tenho um lado forte e um lado vulnerável. E isso se tornou um ponto de equilíbrio importante na minha aceitação de mim mesma. Eu sempre quis interpretar personagens muito diferentes de mim, mas quando ela me mostrou aquilo, me senti autorizada a fazer com gosto aquilo que eu faço bem. E Trinity aconteceu logo depois.

É uma maneira ideal de descrever Trinity. Ela é claramente forte, mas seu amor por Neo carrega com ele algo de vulnerável. Eles são uma parceria de iguais.
Sempre entendi os filmes [“Matrix”] como uma história de amor. Minha porta de entrada para a personagem e o filme foi sempre o amor que eu sentia que era o tema do filme, que eu sentia que era a motivação central de Trinity. Encontrei um diário daquela época –há um momento, no final do primeiro filme, em que Trinity diz a Neo que “o Oráculo me disse que eu saberia quem era o Escolhido, porque eu o amaria”. Eu tinha escrito aquela história entre Trinity e o Oráculo [como parte de sua preparação para o papel]. Foi um tesouro escondido que terminei encontrando. Eu tinha esquecido que aquele diário existia. Estava mexendo em minhas recordações daquela época. Foi um momento tão profundo, o de filmar os três primeiros filmes.

O que você recorda sobre aquele período em sua vida? Como foi estar por dentro daquela experiência, no momento em que “Matrix” explodiu na cultura popular?
Foi um pouco pesado, no começo. Lembro-me de quando vi “Matrix” pela primeira vez na companhia de desconhecidos —de pessoas de fora de Hollywood. A maneira pela qual as pessoas reagiam a certos diálogos de Trinity… foi comovente para mim ver os espectadores torcendo por ela desde o começo. Depois que aqueles filmes estavam prontos, foi a hora de criar uma família. Às vezes acontecem momentos dramáticos que servem para ancorar você. Eu estava lendo um projeto de filme que alguém me mandou, com meu bebê no colo. E pensei que, no final da minha vida, vai valer mais a pena ter outro filme em meu currículo ou ter passado mais tempo com meus filhos no colo? A decisão foi fácil. Eu passaria a vida toda com um bebê dormindo em meu colo.

Mais recentemente, você tem trabalhado em televisão –como uma agente do FBI no policial escandinavo “Wisting” e como Jeri Hogarth em “Jessica Jones”, a primeira personagem assumidamente lésbica em uma série de TV da Marvel.
“Jessica Jones” apareceu em um momento em que eu estava pensando em trabalhar mais regularmente. Meus filhos estavam mais velhos, e eu adorei a premissa e a personagem. E também me ajudou a ver que era possível, que eu podia sair de casa e trabalhar e tudo podia coexistir. “Wisting” foi intrigante para mim de muitas maneiras diferentes, uma série poliglota. Eu sempre tive vontade de visitar a Noruega e a Irlanda. Amei as pessoas nos dois lugares. Às vezes você não sabe o que o leva a fazer um papel. Há muitas coisas diferentes em jogo.

“Eu não via Keanu há muito tempo”, disse Moss. “Lá está ele sentado ao meu lado. Era como se o tempo não tivesse passado.”Credit…Ryan Pfluger for The New York Times

Nos primeiros filmes da franquia “Matrix”, você machucou o tornozelo, quebrou a perna, aprendeu a andar de moto. Você sentiu alguma hesitação diante do desafio de filmar “The Matrix Resurrections”, sabendo que as exigências físicas seriam pesadas?
Não. Fazer aqueles filmes foi maravilhoso. Não é algo que aconteça sempre, e por isso fiquei empolgada com a perspectiva de fazer tudo de novo, estar naquele espaço criativo com aqueles artistas maravilhosos. Viajei a São Francisco para uma leitura com Keanu, Lana e algumas outras pessoas. Não sabia de nada. Nós aproveitamos para colocar a conversa em dia; eu não via Keanu há muito tempo. E lá estava ele, sentado ao meu lado. Era como se o tempo não tivesse passado.

Como você se preparou para as cenas de ação?
Nada faz com que você tenha vontade de entrar em forma mais rápido do que se ver em uma tela enorme. Tive de treinar durante meses para ganhar força e aprender os movimentos de luta –precisei de muito tempo. Era importante para mim abrir mão de qualquer apego em minha cabeça à ideia de que tinha de parecer exatamente como eu era aos 30 anos. Em minha opinião, pensar assim leva uma mulher ao desespero, e eu não queria desespero. Eu sabia que queria estar bem, mas não queria fazer uma dieta radical de desintoxicação, não queria fazer coisas extremas. Eu rio porque, às vezes, minha sensação era de que tudo estava ótimo, e eu estava com tudo sob controle. Mas bastava alguém gravar um vídeo qualquer e, quando eu assistia, minha impressão era a de que “meu Deus, eu não pareço nada bem”. Eu tinha de batalhar para relaxar aquela parte do meu cérebro, e escolher constantemente acreditar que eu tinha o necessário para o papel. Eu poderia ter escolhido viver sob pressão, mas escolhi o oposto.

Foi bom voltar à motocicleta?
Gosto de forçar os limites, gosto de fazer tudo que posso, nesse tipo de filme. Quando assisti ao primeiro, segundo e terceiro filmes, e vi os momentos em que não estou na tela [cenas feitas por uma dublê], isso me incomodou. Mas a moto que uso [em “The Matrix Resurections”] é poderosa demais para alguém inexperiente como eu. Eu montei na moto, e por sorte tinha alguma experiência, porque ela é muito rápida. Mas o instinto funcionou, e eu consegui brecar. De outro modo, teria voado longe.

Quando você chegou ao set, a sensação era a de estar interpretando alguém inteiramente novo ou foi como se reunir com uma velha amiga?
Foi como interpretar alguém completamente diferente, mas com [Trinity enterrada] ali, de alguma maneira –o que acho que é uma experiência que todo mundo consegue entender. A coisa mais maravilhosa de fazer esses filmes é que todo aquele treinamento ajuda a criar o personagem. Todo aquele treinamento, o tempo passado com Keanu, tudo isso faz efeito. Era como se uma energia simplesmente surgisse –mas nada que pudesse ser tocado. Eu adoro o momento em que, depois de tanta preparação, alguém grita “ação” e você simplesmente tenta pegar aquela onda. Para mim, também, trabalhar com Keanu não requer esforço e tem alguma profundidade. Parece uma conexão entre nossas almas que vai além do intelecto. Como artista, sei o quanto isso é raro. Era quase como poder sentir uma outra entidade viva, formada pela união daqueles dois personagens.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci. 

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