Elenco de ‘Pânico’ fala em hesitação e na importância de voltar à franquia

Neve Campbell, Courtney Cox e David Arquette revivem papéis após 25 anos
DAVE ITZKOFF

Courteney Cox, David Arquette e Neve Campbell Elizabeth Weinberg/The New York Times

THE NEW YORK TIMES – Vinte e cinco anos depois do lançamento de “Pânico”, Neve Campbell continua a ver Ghostface onde quer que ela vá.

No mais recente feriado de Halloween, Campbell levou os filhos a uma plantação de abóboras em Hollywood e lá eles viram outros visitantes usando as máscaras lamurientas de Ghostface, ostentadas pelos assassinos que atormentavam a atriz em uma série de filmes de terror que se recusa a morrer.

Os visitantes fantasiados não pareciam ter reconhecido Campbell e ela resistiu à insistência de seu filho mais velho de que revelasse que estavam na presença de Sidney Prescott, a intrépida heroína de “Pânico”, um papel que ela interpretou pela primeira vez em 1996.

“Meu filho tem nove anos e ainda não viu os filmes, mas obviamente ouviu falar sobre eles”, disse Campbell. “E insistiu em que, ‘mãe, você precisa dizer quem você é!’. Mas eu não iria me aproximar daquelas pessoas e perguntar se elas sabiam quem sou eu”, ela disse, rindo, e acrescentou que “embora isso talvez terminasse sendo divertido para elas”.

Quando ouviram a história de Campbell, seus dois colegas de elenco desde o primeiro filme da série brincaram sobre como a conexão deles com os filmes os afetava a cada Halloween. Courteney Cox, que interpreta a estridente apresentadora de televisão Gale Weathers, disse que tinha um estoque pessoal de máscaras de Ghostface. “Comprei cinco delas na Amazon”.

David Arquette disse que era ainda mais fácil lembrar as pessoas de sua identidade nos filmes, como o desastrado policial Dewey Riley. “Por que você acha que uso esse bigode?”, ele perguntou.

Quando foi lançado, “Pânico” reinventou os filmes de terror sobre maníacos homicidas, povoando-os com elencos fotogênicos conhecedores das regras desse gênero de cinema, mas cansados de seus clichês. O filme transformou seu roteirista, Kevin Williamson, em astro, revigorou a carreira do diretor Wes Craven e criou toda uma microindústria de paródias e imitações.

O sucesso duradouro do primeiro filme ajudou a carreira de seus protagonistas. Campbell, estrela do drama televisivo “Party of Five”; Cox, que começava a desfrutar do sucesso de “Friends”; e Arquette, membro de uma dinastia de atores de cinema e TV. O original e as três continuações criaram uma união duradoura entre eles, e Cox e Arquette se apaixonaram e terminaram casados.

Mas depois de “Pânico 4”, em 2011, a série parecia esgotada. Àquela altura, Cox e Arquette estavam separados e viriam a se divorciar mais tarde; Craven morreu em 2015. Uma versão de “Scream” produzida para a TV e apenas vagamente conectada aos filmes ficou em cartaz por três anos na MTV e VH1, mas não ganhou muito prestígio na cultura pop.

Agora, depois de uma ausência dos cinemas que durou uma década, um novo “Pânico” –sem número ou subtítulo e realizado por uma nova equipe de diretores e roteiristas– foi lançado nesta quinta-feira (13). O filme é tanto uma versão repaginada quanto uma continuação do quarteto original, apresentando novos personagens (interpretados por Melissa Barrera, Jenna Ortega, Jack Quaid e outros) a uma audiência que já está acostumada a franquias que retomam histórias, como “Star Wars: O Despertar da Força”, e a filmes de terror destinados às salas de cinema de arte como “The Babadook” e “O Mal Não Espera a Noite – Midsommar”.

O novo “Pânico” também traz de volta Campbell, Cox e Arquette como personagens fundadores, agora adultos há muito tempo e mudados de diferentes maneiras pelos seus encontros com os diversos assassinos que assumiram a identidade de Ghostface. Para os atores, a proposta de retornar a “Pânico” poderia ser descrita como, bem, uma faca de dois gumes: uma oportunidade de redescobrir velhas conexões e de recordar aquilo que tornou grandes os filmes anteriores, mas temperada pelo medo de que eles venham a colocar em risco o legado da série se não forem capazes de reproduzir as glórias do passado.

Quando foi convidada para fazer o novo filme, disse Cox, “minha reação inicial foi a de não acreditar muito que eles quisessem produzir um novo ‘Pânico’”. Mas ao considerar melhor a ideia, ela pensou: “Por que não voltar a alguma coisa que foi parte tão grande de minha vida e interpretar uma personagem tão divertida? Eles devem ter alguma ideia interessante para o filme, se estão dispostos a trazer a franquia de volta e a correr o risco”.

Falando em uma entrevista via vídeo no final de novembro –Campbell e Cox juntas em uma das janelas e Arquette sozinho em outra—​, os atores pareciam compartilhar de uma intimidade provisória como colegas de escola que se reencontrem em uma reunião anos depois da formatura. Eles riram bastante ao admitir que tinham esquecido detalhes importantes sobre os primeiros filmes da série “Pânico” e não hesitaram em zombar do próprio sucesso.

Perguntada como tinha sido contratada para o primeiro filme, Cox disse que seu empresário tinha sugerido o nome dela aos produtores. Ou “talvez meu empresário tenha dito que eu não era grande coisa como atriz e eles não deveriam me contratar. Quem sabe a verdade?”

Duas coisas sobre a qual todos concordaram com relação ao primeiro filme foi sobre o brilhantismo do roteiro de Williamson, que desafiava convenções, e sobre a admiração que os três sentem por Craven, que já tinha realizado filmes de terror seminais como “Aniversário Macabro” e “A Hora do Pesadelo”. O elenco não ficou muito exposto aos conflitos que surgiram nos bastidores entre o diretor e a Dimension Films, produtora do primeiro “Pânico”, que tinha dúvidas quanto ao trabalho de Craven. Campbell disse, sobre o diretor, que “ele era muito gentil, amável e discreto”.

“Pânico” conseguiu superar um final de semana de estreia morno, no qual ficou apenas com a quarta melhor bilheteria, em dezembro de 1996, suplantado pelo longa de animação “Beavis and Butt-Head Detonam a América”. Alguns dias mais tarde, Campbell recebeu um telefonema de seus agentes. “Pensei comigo mesma que alguma coisa de errado devia ter acontecido”. Mas eles disseram que o filme já tinha faturado US$ 30 milhões (R$ 165 mi). Eu perguntei, sussurrando: e isso é ruim?” O filme ficaria em cartaz até o terceiro trimestre de 1997 e faturaria mais de US$ 100 milhões (R$ 551 mi) só nas bilheterias dos Estados Unidos.

Uma continuação já estava sendo produzida e sairia em dezembro de 1997. (“O seguinte foi o da universidade, não é?”, perguntou Campbell. “Sim, você foi para a universidade”, respondeu Arquette.) “Pânico 3” saiu em 2000, acrescentando novas camadas de metacomentários, quando as experiências dos personagens com situações quase fatais inspiram uma franquia cinematográfica mercenária chamada “Stab”, mostrada como filme dentro do filme.

A cada novo título, disseram as estrelas de “Pânico”, eles jamais sentiram qualquer pressão quanto a sustentar a qualidade da série. “Na televisão, quando aceito um trabalho em uma série nova, é apavorante”, disse Cox. “Você sente que nada ficará à altura daquilo que fez no passado. Mas no cinema, nós simplesmente recebemos o roteiro e aparecemos para interpretar aquele personagem”.

No entanto, Williamson disse que “Pânico 4” fez com que ele e Craven se sentissem esgotados. “O estúdio estava interferindo demais, oferecendo sugestões e críticas praticamente a cada cena”, disse o roteirista. “E eu cheguei a um ponto em que disse que, cara, nem sei mais o que estou escrevendo. Estou só digitando, aqui”.

Depois da morte de Craven, “para mim, em meu coração, foi o fim. Sem Wes, eu não achava que seria possível fazer um novo ‘Pânico’”.

Anos se passaram e a Weinstein Co., proprietária da Dimension Films, entrou em colapso depois que um de seus fundadores, Harvey Weinstein, foi acusado de agressão e assédio sexual por numerosas mulheres. (Ele terminou condenado e sentenciado por crimes sexuais e está enfrentando novas acusações.)

Os direitos sobre “Pânico” terminaram adquiridos pelo Spyglass Media Group, que formou uma parceria com o estúdio Paramount para produzir um novo filme com roteiro de James Vanderbilt (“Zodíaco”) e Guy Busick (“Ready or Not”), e dirigido por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, do grupo de produção de cinema Radio Silence (“Ready or Not”, “V/H/S”).

Williamson, que é produtor executivo do novo “Pânico”, disse que o filme tem sua bênção. “Minha primeira reação foi, calma lá, eles não me chamaram para escrever o filme? Como ousam?”, ele disse, rindo. Mas depois de ouvir sobre os planos da equipe de criação para a história, ele disse que “tudo estava muito bem resolvido e minha avaliação foi a de que a ideia funcionava”.

Naturalmente, o novo “Pânico” traz um novo Ghostface, uma vez mais aterrorizando a cidade fictícia de Woodsboro, Califórnia, o que requer o retorno de Sidney, Gale e Dewey. Mas não havia garantia de que seria possível trazer de volta os atores que interpretaram esses papéis nos quatro filmes originais.

O maior obstáculo, disseram os três, foi a ausência de Craven. “Eu não via como aquilo poderia funcionar –em termos emocionais, mas também em termos práticos”, disse Campbell. “Quem é que vai dirigir o filme tão bem quanto Wes dirigiria?”

Mas, um a um, os atores foram aplacados pelos diretores do filme, que escreveram cartas a eles elogiando-os por seus trabalhos passados e pedindo que participassem do novo projeto.

“O estranho é que isso foi ao mesmo tempo a coisa mais difícil e a coisa mais fácil de fazer”, disse Gillett. “É muito fácil expressar nossa admiração por eles como atores e também nossa admiração pelo trabalho de Wes”. O desafio, ele disse, era “que havia muita coisa em jogo, e a pressão era muito forte”.

Bettinelli-Olpin disse, por exemplo, na carta que eles escreveram a Campbell, que “é como se o filme não existisse sem você, ponto final. De outro modo, não vamos fazê-lo”. (Perguntado o que teria acontecido se algum dos atores recusasse o convite, Gillett afirmou que “nós dissemos que haveria um plano, mas depois disso nunca chegamos a discutir qual seria esse plano”.)

Williamson disse que também teve uma conversa com Campbell quando ela estava avaliando se aceitaria ou não o convite para fazer o filme. “Não acho que filmes de terror sejam o gênero de cinema favorito dela para assistir”, ele disse. “Mas ela queria minha opinião e eu disse a verdade –que no começo eu não queria fazer parte do projeto, mas depois minha sensação passou a ser a de que não podia deixar que acontecesse sem mim”.

O convite foi especialmente delicado para Arquette e Cox, cuja história no novo “Pânico” envolve um casal que se separou, espelhando sua vida pessoal.

Cox e Arquette têm uma filha juntos, Coco, 17, e também parecem se comunicar por um código pessoal. Em determinado momento da entrevista em vídeo, quando o áudio de Arquette foi cortado por um problema de rede, Cox brincou que “faz tanto tempo que nem consigo mais entender o que ele diz”. Arquette riu e respondeu: “Desculpe. Estou resmungando”.

Perguntada se tinha hesitado em fazer o filme por causa dos paralelos com sua vida pessoal, Cox respondeu que “não senti apreensão alguma. Fiquei muito feliz por voltar a trabalhar com eles dois”.

Mas Arquette reconheceu que voltar a fazer um filme com Cox era inerentemente complicado. “Foram 25 anos de nossas vidas”, ele disse. “Amadurecemos juntos. Temos uma filha juntos”. Mas ele explicou que ainda assim não havia como recusar o convite: “Poder atuar com Courteney foi uma experiência catártica”.

Quando as câmeras foram acionadas para gravar a primeira cena entre os dois, foi um momento de lágrimas e não só porque o roteiro pedia. Cox disse que Arquette ficou muito comovido ao filmar a cena. “No dia seguinte, ele comentou que a equipe evitava olhar diretamente para ele”, ela afirmou.

Arquette tentou explicar com um gesto que simulava arrancar o coração do peito e segurá-lo nas mãos. “Eu percebi que havia gente ali que não estava se sentindo confortável diante daquele nível de emoção”, ele disse.

Arquette, que forneceu aos diretores algumas fotos pessoais que o mostram em companhia de Cox para uso no filme, disse que filmar o novo “Pânico” foi em diversos momentos uma experiência comovente para ele.

“Houve momentos em que senti muito a presença do espírito de Wes. Sentia um vento passar por ali e via os cabelos de Courteney se mexer. E aí vinha” –e ele fez um som exagerado de choro. “E isso facilitava muito o acesso a esse tipo de sentimento”, disse o ator.

Evidentemente haverá conversações sobre novas sequências, se o novo “Pânico” atingir suas metas, mas por enquanto os veteranos protagonistas estão contentes por terem levado seus personagens à marca do quarto de século.

Campbell disse que estava satisfeita por ter interpretado uma protagonista de filme de terror que jamais é retratada como uma vítima impotente. “Tenho muita sorte, como mulher, por ter interpretado um papel que já levou muita gente a me dizer que Sidney Prescott foi uma inspiração, Sidney Prescott lhes deu coragem e os ensinou a se defenderem”, ela disse.

Cox preferiu extrair lições mais pragmáticas de suas experiências em “Pânico”, e quanto à mudança na identidade das pessoas que vestiam a máscara do assassino a cada episódio.

“O significado mais profundo para mim é o de que qualquer um pode ser o Ghostface”, ela disse. “E o que aprendi com os filmes foi a não andar sozinha por um estacionamento à noite, nunca. E a não ir ao banheiro em uma sala de cinema. E que qualquer pessoa pode surtar de repente e perder o controle”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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