Compositoras clássicas começam a conquistar o reconhecimento merecido

De Germaine Tailleferre e Amy Beach à brasileira Chiquinha Gonzaga, chegou finalmente a hora do abre-alas
Marcelo Coelho

Ilustração das cabeças de três pessoas de perfil. A pessoa da esquerda tem cabelo ondulado preto e pele branca, a pessoa central tem cabelo cacheado laranja e pele preta e a pessoa do lado direito tem cabelo ondulado branco e pele laranja. No fundo, há uma partitura em branco sob fundo verde.
Publicada nesta terça-feira, 18 de janeiro de 2022 – André Stefanini

Você vai ficando velho, e suas crenças e opiniões acabam se transformando em alguma coisa parecida com sapatos, pulôveres (palavra antiga, essa) ou guarda-chuvas (cóf, cóf). Ficam largadas num canto, guardadas no armário, ou penduradas num mancebo (hein?).

Aí, quando te perguntam, você tira do armário e usa, sem se tocar que está tudo fora de moda, desbotado, com roído de traças aqui e ali.

Sempre fui de ouvir música clássica, e nisso não vou mudar. E, como todo mundo na minha geração, de até 1990 mais ou menos, achava que quase não havia mulheres entre os compositores eruditos.

Conhecia algumas peçazinhas de Clara Schumann (1819-1896), que afinal era a viúva de Robert, e de Fanny Mendelssohn (1805-1847), que afinal era irmã de Felix.

Na França do século 20, misteriosamente, uma mulher era citada entre os membros do chamado Grupo dos Seis, que rompeu com a tradição das brumas e meias-tintas de Debussy. Mas, embora se soubesse que Germaine Tailleferre (1892-1982) existia, era raríssimo ouvir alguma composição dela.

Enquanto isso, as obras de seus colegas de grupo, como Darius Milhaud e Francis Poulenc, estavam por toda parte desde a década de 1930.

Aos poucos, vejo que a situação mudou; a obra de muitas e muitas compositoras clássicas do passado vai sendo redescoberta. Uma dessas rádios no streaming, a Planet Radio, inaugurou um canal só com músicas escritas por mulheres. No Spotify, há uma playlist dedicada ao tema.

Nos dois casos, o ouvinte precisa de um pouco de paciência. Esses programadores confundem música clássica com tudo o que é sonoridade “new age“, maçarocas meditativas ou pasmaceira de lago encantado na floresta mágica.

Pulando o que deve ser pulado, é possível conhecer compositoras sérias, autoras de obra extensa —e ignorada ao longo de décadas e séculos.

Começando pela própria Germaine Tailleferre. Além das obras para harpa (instrumento “feminino”, se quisermos), há sonatas para violino e piano, um trio, um quarteto de cordas, dois concertos para piano, um punhado de óperas, balés, cantatas: montanhas de música. Nem tudo gravado ainda, infelizmente.

Para quem gosta do que de melhor foi feito pelo Grupo dos Seis, ou seja, composições neoclássicas, frescas e cítricas, de uma aspereza matinal e esportiva, não há do que reclamar. Não se trata de alguém que escreveu meia dúzia de páginas de salão e se calou para cuidar da casa e dos filhos: Germaine Tailleferre teve uma longa vida como compositora profissional, e sempre foi conhecida… só que ninguém a ouvia.

Nos Estados Unidos, o caso de Amy Beach (1867-1944) é parecido. Se eu já tinha ouvido falar dela, certamente esqueci. Mas um programa recente na BBC fez um rápido panorama de suas composições, e há muito a conhecer.

Um quinteto para piano, especialmente, impressiona pela profundidade desolada, pelo jogo de sombras que nasce de cada melodia, pelo equilíbrio entre a austeridade e o encantamento. O segundo movimento é inesquecível.

Trata-se do opus 67 de uma produção que inclui uma sinfonia, um concerto para piano, um quarteto de cordas, e uma grande variedade de obras vocais. Tenho pilhas de coisas para ouvir ainda, mas recomendo uma curta peça para coro, em que as palavras de Ariel em “A Tempestade” de Shakespeare são milagrosamente jogadas de um lado para outro no tempo e no espaço.

Às vezes, parece Elgar, outras vezes Rachmaninov, outras vezes César Franck. Amy Beach certamente não mudou a história da música, mas não há nenhuma razão para que tenha sido ignorada.

É estranho. Sendo a discriminação contra as mulheres uma regra geral ao longo dos séculos, o absurdo disso parece ter variado conforme a arte a que se dedicavam. Escritoras (ainda que usando, às vezes, nomes masculinos) marcaram a poesia e o romance do século 19. Mas, na composição, é como se o sistema tivesse se obstinado a permanecer em estado de surdez.

Louise Farrenc, Florence Price, Grazyna Bacewicz, Rebecca Clarke e muitas outras reaparecem agora. Para lembrar uma das nossas, Chiquinha Gonzaga, chegou finalmente a hora do abre-alas.

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