‘O feminismo se tornou uma marca para vender camisetas e canecas’, diz Rafia Zakaria, autora de ‘Não ao feminismo branco’ que critica privilégio racial de mulheres brancas

Advogada paquistanesa Rafia Zakaria, autora de ‘Não ao feminismo branco’, defende que privilégio racial alienou e despolitizou a organização política das mulheres
Renata Izaal

Rafia Zakaria (@rafiazakaria) / Twitter

Em “Contra o feminismo branco” (Ed. Intrínseca), a advogada paquistanesa radicada nos EUA Rafia Zakaria aponta como o privilégio racial ajudou mulheres brancas a impor sua agenda dentro do movimento feminista, pautando suas demandas como universais e, assim, deixando para trás mulheres não-brancas, especialmente as mais pobres.

Zakaria desenha um amplo panorama histórico, da luta das sufragistas à atualidade, mostrando como a centralidade da agenda feminista branca alienou outras mulheres, colaborando para a despolitização do feminismo — uma história que pode mudar:

— A geração Z entende essa opressão e está encaminhando transformações importantes — diz ela.

O GLOBO: Por que esse livro agora?
RAFIA ZAKARIA: A questão não é nova, mas ninguém o teria publicado antes. A morte de George Floyd abriu uma janela para a discussão racial, incluindo o debate sobre o privilégio branco dentro do feminismo. É uma discussão difícil porque as mulheres brancas têm respostas emocionais a esse questionamento. Sim, elas são oprimidas pelo patriarcado e quebraram padrões. Mas eu chego e digo: OK, só que o fato de ser mulher não significa que você não tenha privilégio racial.

O que o privilégio racial das mulheres brancas significa para o movimento feminista?
Depois dos homens brancos, as mulheres brancas são quem tem mais poder, e elas tentam se igualar a eles, vencer a opressão masculina. Mas, nesse processo, deixam outras mulheres para trás. Temas como interseccionalidade e multiculturalismo estão em pauta há décadas, mas o debate feminista não muda e nós não saimos do lugar. O feminismo branco luta pela igualdade com os homens, mas se esquece da igualdade entre as mulheres. É preciso dizer que, para a maioria das mulheres do mundo, e essa maioria não é branca, se o feminismo não for inclusivo, ele não tem relevância.

Mulheres brancas são opressoras?
Elas podem ser quando se portam como as rainhas feministas do mundo, impondo suas demandas e soluções a outras mulheres, quando não se conectam a outras mulheres. O feminismo branco é individualista, está focado em temas como liderança, em conquistar espaços dominados pelos homens. Mas o fato é que a maioria das mulheres no mundo está preocupada com saúde reprodutiva, segurança física, educação.

Falta sororidade, apesar de essa ser a palavra da moda?
É preciso um modelo de sucesso que não tire as outras do caminho, que seja coletivo, que deixe frutos para as próximas gerações de mulheres. É preciso ouvir quem sobrevive às questões mais penosas em outras partes do mundo, e não chegar com uma solução pronta, por exemplo, para as afegãs. A beleza da sororidade é não estar sozinha.

As mulheres estão sozinhas?
E as mulheres brancas também estão perdendo! O contexto nos EUA, onde eu vivo, prova isso. Onde estava o feminismo enquanto o direito das mulheres escolherem fazer um aborto estava sendo derrubado no Texas? Temos um movimento político organizado que apresente uma alternativa lá? O feminismo branco se tornou uma marca que vende camisetas e canecas.

Você se refere a slogans como “lugar de mulher é onde ela quiser” ou “girl power”, que têm sido excessivamente comercializados?
Eu chamo isso de feminismo de escolha, e acho que é extremamente alienante. Dizer que todas as suas escolhas são OK e que tudo o que fizer está certo é um ataque ao feminismo, e é também um privilégio. Não é toda mulher que pode dizer isso. O “girl power” não vai salvaguardar as nossas escolhas e sucessos, só um movimento político organizado pode fazer isso.

As mulheres negras estão organizadas, e as novas gerações são mais atentas, não acha?
As mulheres negras foram importantes para a derrota de Trump na eleição presidencial. Pense no trabalho de Stacey Abrams. A geração Z entende essa opressão e está encaminhando transformações importantes. Aliás, meu livro faz sucesso entre os jovens.

Serviço:

“Contra o feminismo branco”. Autora: Rafia Zakaria. Tradução: Solaine Chioro e Thaís Britto. Editora: Intrínseca. Preço: R$ 49,90.

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