AirTag da Apple é usado para roubar carros e rastrear pessoas, diz jornal The New York Times 

Empresa diz que oferece ferramentas para que usuário saiba se está sendo monitorado
Ryan Mac
Kashmir Hill

Ashley Estrada encontrou um AirTag que a estava rastreando por quatro horas enquanto cuidava de um monte de tarefas. Credit…Carlos Jaramillo for The New York Times

NOVA YORK | THE NEW YORK TIMES – Era uma noite de domingo, em setembro de 2021, e Ashley Estrada estava na casa de um amigo em Los Angeles quando recebeu uma estranha notificação em seu iPhone: “AirTag detectado perto de você”.

O AirTag é um disco de 3,2 centímetros com capacidade de rastrear localizações, que a Apple começou a vender no ano passado como “uma forma de [um usuário] controlar a localização de suas coisas”.

Estrada, 24, não tinha um AirTag, e o mesmo se aplicava aos amigos que estavam com ela. A notificação em seu celular informava que o AirTag tinha sido detectado em posse dela pela primeira vez quatro horas antes. Um mapa com o histórico do AirTag mostrava o percurso irregular que Estrada tinha seguido pela cidade enquanto cuidava de um monte de tarefas.

“Senti-me muito violada”, ela disse. “Queria saber quem estava me rastreando, qual era a intenção dessas pessoas. Fiquei assustada”.

Estrada não é a única pessoa a ter passado por essa experiência. Nos últimos meses, pessoas postaram mensagens no TikTok, Reddit e Twitter sobre terem encontrado AirTags em seus carros e objetos.

Existe crescente preocupação de que o aparelho possa estar sendo usado para permitir uma nova forma de perseguição, o que organizações de defesa de privacidade previram que ia acontecer quando a Apple colocou os dispositivos à venda em abril.

O The New York Times conversou com sete mulheres que acreditam terem sido rastreadas por meio de AirTags, entre as quais uma menina de 17 anos cuja mãe instalou o dispositivo clandestinamente em seu carro para ficar ciente de seu paradeiro.

Algumas autoridades começaram a observar com mais atenção a ameaça que os AirTags representam. A polícia da cidade de West Seneca, no estado de Nova York, recentemente alertou a comunidade sobre o potencial de rastreamento dos dispositivos, depois que um AirTag foi encontrado no para-choque de um carro.

A Apple cumpriu uma intimação para que prestasse informações sobre o AirTag envolvido nesse caso, o que pode levar a acusações, de acordo com a polícia de West Seneca.

E no Canadá, um departamento local de polícia anunciou que tinha investigado cinco incidentes que envolviam o uso de AirTags por ladrões, que colocavam os dispositivos “em veículos de alto preço, para que possam localizá-los e roubá-los mais tarde”.

Pesquisadores acreditam que os AirTags, equipados com tecnologia Bluetooth, possam estar revelando um problema mais amplo relacionado ao rastreamento facilitado pela tecnologia. Os dispositivos emitem um sinal digital que pode ser detectado por aparelhos que empreguem o sistema operacional móvel da Apple. Esses aparelhos em seguida reportam à rede o local em que um AirTag foi identificado pela última vez.

Diferentemente de produtos semelhantes de rastreamento oferecidos por concorrentes como a Tile, a Apple acrescentou recursos para impedir abuso, o que inclui notificações como a recebida por Estrada, e um sistema que leva o aparelho a emitir apitos. (A Tile planeja lançar um recurso que impedirá o rastreamento de pessoas no ano que vem, disse um porta-voz da empresa.)

Mas os AirTags apresentam uma ameaça “unicamente perigosa”, por conta da onipresença dos produtos da Apple, que permite monitoramento mais exato dos movimentos das pessoas, disse Eva Galperin, diretora de segurança cibernética na Electronic Frontier Foundation e pesquisadora do chamado “stalkerware”, ou software de perseguição.

“A Apple transforma automaticamente cada aparelho equipado com iOS em uma parte da rede que os AirTags usam para reportar a localização de um AirTag”, disse Galperin.

“A rede a que a Apple tem acesso é maior e mais poderosa do que a usada por outros rastreadores. É mais poderosa para rastreamento e mais perigosa quando usada por perseguidores.”

A Apple não revela números de vendas, mas os minúsculos AirTags, vendidos por US$ 29, se provaram populares, e vêm encontrando demanda firme desde seu lançamento.

Alex Kirschner, um porta-voz da Apple, afirmou em comunicado que a empresa leva a segurança dos clientes “muito a sério” e que “tem o compromisso de preservar a privacidade e segurança dos AirTags”.

Ele disse que os pequenos dispositivos têm recursos que informam os usuários se um AirTag pode estar sendo carregado por eles sem que o saibam, e que impedem que agentes mal-intencionados usem um AirTag para fins prejudiciais.

“Se os usuários por acaso sentirem que sua segurança está em risco, são encorajados a contatar a polícia local, que pode trabalhar com a Apple a fim de oferecer qualquer informação disponível sobre o AirTag desconhecido”, afirmou Kirschner.

A polícia pode solicitar que a Apple a informe sobre o proprietário do AirTag, o que permitiria identificar o culpado. Mas algumas das pessoas que falaram ao The New York Times não conseguiram encontrar os AirTags dos quais foram notificadas, e disseram que a polícia nem sempre responde com seriedade a denúncias quanto a notificações recebidas em celulares.

Estrada, que recebeu a notificação quando estava em Los Angeles, por fim encontrou o aparelho, do tamanho de uma moeda, em um espaço por trás da placa de licenciamento de seu Dodge Charger 2020. Ela postou um vídeo no TikTok sobre o ocorrido, e o vídeo se tornou viral.

“A Apple provavelmente lançou esse produto com a intenção de fazer o bem, mas isso mostra que a tecnologia pode ser usada para bons e para maus propósitos”, disse Estrada.

Ela informou ter sido informada por um atendente dos serviços de emergência da polícia de Los Angeles que sua situação não constituía uma emergência e que, se ela quisesse fazer uma queixa, deveria levar o dispositivo a uma delegacia pela manhã. Ela não quis esperar, e jogou o aparelho fora depois de tirar diversas fotos.

Um porta-voz da polícia de Los Angeles disse ao The New York Times que não estava ciente de casos em que um AirTag tivesse sido usado para rastrear uma pessoa ou veículo.

Mas Estrada disse que, depois de postar seu vídeo no TikTok, uma funcionária da Apple, agindo por iniciativa própria, entrou em contato com ela. Essa profissional conseguiu rastrear o AirTag a uma mulher com endereço no centro de Los Angeles.

Os AirTags e outros produtos conectados à rede “Find My”, o serviço de localização da Apple, disparam alertas em iPhones desconhecidos com os quais estejam viajando.

A página de produto do AirTag no site da Apple aponta que os aparelhos “foram projetados para desencorajar rastreamento indesejado”, e que eles emitem um som quando um determinado período passa sem que detectem o aparelho ao qual estão vinculados.

Em junho, depois que precauções sobre perseguidores foram apresentadas, a Apple promoveu uma atualização dos AirTags para fazer com que começassem a apitar um dia depois de perderem o contato com os aparelhos vinculados, ante o prazo original de três dias.

Ainda assim, “eles não apitam muito alto”, disse Galperin.

Uma pessoa que não tenha um iPhone pode ter mais dificuldade para detectar um AirTag indesejado. Os AirTags não são compatíveis com smartphones Android.

No ano passado, a Apple lançou um app para o sistema Android que permite procurar AirTags —mas o usuário precisa estar prevenido o bastante para baixá-lo e empregá-lo ativamente.

A Apple não informou se estava trabalhando com o Google para desenvolver tecnologia que permita que celulares Android detectem automaticamente seus rastreadores.

Pessoas que disseram ter sido rastreadas consideram as salvaguardas da Apple insuficientes.

Estrada disse só ter sido notificada quatro horas depois que seu celular primeiro detectou o dispositivo desconhecido. Outras pessoas disseram que foram necessários dias para que fossem notificadas da presença de um AirTag desconhecido.

De acordo com a Apple, o momento de um alerta pode depender da versão do sistema operacional instalado no iPhone e das configurações de localização de cada celular.

Tradução de Paulo Migliacci

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