Crítica: ‘Sempre em frente’, com Joaquin Phoenix, é uma ciranda de sentimentos em que todo mundo dança

Longa de Mike Mills tem no elenco um grande trunfo, incluindo o ‘extraordinário’ ator mirim Woody Norman
Gustavo Leitão

Emocionante. Joaquin Phoenix e Woody Norman: personagens se alternam entre o professor e o aprendiz Foto: Divulgação

Eis que de repente o maduro Jesse, de 9 anos, ensina: “Crianças pensam livremente, enquanto adultos pensam num espaço limitado”. Vivido pelo extraordinário Woody Norman, o personagem é o centro afetivo no qual orbitam os personagens de “Sempre em frente” (“C’mon c’mon”, no original), de Mike Mills.

Diretor de dramas concisos de relações como “Mulheres do século XX”, Mills embarca aqui numa viagem ainda mais minimalista. A história traz um núcleo de três personagens — Viv (Gaby Hoffman), seu filho Jesse, e seu irmão Johnny (Joaquin Phoenix) — numa Los Angeles em preto e branco despida de excessos.

Viv é uma mãe que tenta construir um abrigo emocional para o filho depois de se separar do marido, que sofre de problemas mentais. Em uma das recaídas dele, ela precisa viajar para Oakland para dar uma força na recuperação do ex. Sem ter com quem deixar Jesse, apela para Johnny, que aceita cuidar do moleque na casa da irmã.

Nenhum dos personagens tem um terreno firme para pisar. Viv encara as cicatrizes da separação e de uma morte na família. Johnny vive meio perdido, numa eterna adolescência. No meio de tudo isso, Jesse vira o porto seguro da bagunça à sua volta, enquanto trilha seu próprio amadurecimento, aos trancos e barrancos.

Personagens infantis volta e meia são um atalho narrativo fácil para gerar empatia ou apontar, por oposição, os vícios da vida adulta. Aqui, a dinâmica é bem mais interessante. Há uma ciranda de sentimentos de rancor, fragilidade, deslumbramento e esperança em que todo mundo dança.

Elenco afinado

Norman faz a gente se perguntar todo o tempo de onde vêm esses atores mirins que parecem nascer prontos. É capaz de expressar curiosidade e ternura com naturalidade, mesmo tendo que sustentar um texto que às vezes exagera na precocidade do minifilósofo Jesse.

O elenco, aliás, é o grande trunfo do longa de Mills. Hoffman (gigante na série “Transparent”), Phoenix e Norman não só têm grandes atuações solo como parecem estar totalmente à vontade no jogo coletivo.

Depois da intensidade do Coringa, Joaquin Phoenix tem a chance de atuar num registro mais contido, próximo de “Ela”. Seu personagem trabalha gravando o áudio de depoimentos de crianças sobre a vida e o futuro. Desconfortável na pele de um adulto responsável pelo seu próprio destino, ele pena na tarefa de ser tutor de uma pessoa igualmente em formação. O roteiro extrai seus melhores momentos dessa relação, em que os dois se alternam nos papéis de aprendiz e professor.

O filme caminha numa atmosfera lúdica, reforçada pelo desenho de som que sempre perscruta os arredores, como alguém descobrindo o mundo. Há também interessantes intromissões de textos, que reforçam a narrativa quase fabular. Em uma das cenas mais belas, Johnny lê um livro infantil para o sobrinho, e chora ao reviver a vastidão de possibilidades da infância. Choramos todos.

‘Sempre em frente’.
Diretor: Mike Mills. Onde: Redes Kinoplex, Cinemark, Espaço Itaú, Estação Net, Reserva Cultural.

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