Virgil Abloh foi um gênio da moda e um revolucionário da indústria do luxo

‘Virgil Was Here’: Com essa frase, repetida muitas vezes durante o que viria a ser seu último desfile em Miami, que a moda se despediu de um de seus maiores nomes. À frente da linha masculina da Louis Vuitton, o criador partiu cedo, aos 41 anos. Marie Claire esteve em sua despedida e relembra seu legado
KAREN KA

Virgil Abloh usa gravata em que está escrito “UMA formalidade” durante a Semana de alta costura em Paris, em julho de 2021 (Foto: Getty Images)

Domingo, novembro de 2021. Depois de um ano conturbado, fechar a mala para uma viagem internacional parecia um projeto distante, quase irreal. Ainda mais para acompanhar um desfile presencial da coleção masculina da Louis Vuitton, dirigida por Virgil Abloh, de quem acompanho o trabalho (e sou fã) há muitos anos.

Estava terminando de fechar a mala – o evento iria acontecer em Miami, nos Estados Unidos, na ocasião da Art Basel, maior feira de arte contemporânea do mundo – quando recebi uma mensagem inesperada no celular: a dois dias do evento, aos 41 anos, Virgil havia acabado de morrer, em decorrência de um câncer contra o qual lutava em segredo fazia alguns anos. Não podia acreditar.

Filho de dois ganenses que escolheram os Estados Unidos para construir suas vidas – a mãe costureira e o pai funcionário de uma fábrica de tintas –, Virgil cresceu no subúrbio de Rockford, no estado de Illinois, entre as turmas do skate e da música. Para atender ao desejo da família, fez duas faculdades: de engenharia na Universidade de Wisconsin e de arquitetura no Instituto de Tecnologia de Illinois. Mas sua praia eram mesmo a criatividade e a arte.

Aos 29 anos, conseguiu um estágio na Fendi, marca de luxo italiana, onde conheceu o rapper Ye (mais conhecido como Kanye West) e sua vida começou a mudar. A partir daí, passaram a colaborar juntos em vários projetos e Virgil estourou: tornou-se diretor criativo da agência de publicidade de Kanye, fez a direção artística de Watch the Throne, álbum colaborativo de Kanye com Jay-Z que lhe rendeu uma indicação para o Grammy de melhor capa.

Virgil Abloh (Foto: DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Frase formada por drones em homenagem a Virgil (Foto: Divulgação)

Até lançar, em 2012, a Pyrex Vision, pequena butique que vendia um streetwear de alta-costura. O segredo do negócio consistia basicamente em Virgil comprar roupas vintage e baratas da Ralph Lauren, tradicional marca norte-americana, submetê-las ao upcycling – técnica muito comum hoje em dia de dar um “upgrade” em itens antigos, adicionando novos materiais, estampas etc., mas pouco utilizada na época – e revendê-las por não menos do que US$ 500. Detalhe: não pagava pelas peças nem um décimo desse valor na hora de adquiri-las.

Foi um estouro. O movimento da Pyrex Vision foi o “embrião” da Off-White, criada em 2013 e estabelecida propositalmente em Milão, o berço da moda masculina de luxo, que transformou na última década o streetwear e o streetstyle.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Primeiro desfile de Virgil para a Louis Vuitton (Foto: Getty Images)

Esperto, Virgil tratou de incluir também a moda feminina em suas coleções – ou, ainda melhor, a unissex, em um momento em que o mercado procurava artigos genderless –, ampliando seu escopo de atuação e tornando-se um dos jovens designers mais relevantes da indústria.

Além da Off-White, que rapidamente caiu no gosto de músicos, supermodelos e influenciadores da geração Z, Virgil passou a assinar coleções especiais para marcas como Nike e IKEA. Em julho do ano passado, 60% da operação da Off-White foi adquirida pelo próprio grupo LVMH, e Virgil seguiu à frente da direção criativa da empresa.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Parte da cenografia do evento em Miami em homenagem a Virgil (Foto: Getty Images)

Carreira na Louis Vuitton

Da Off-White para a Louis Vuitton não foi exatamente um pulo: quando assumiu a linha masculina da marca mais tradicional do mercado de luxo, em 2018, substituindo Kim Jones, o mercado ficou em polvorosa.

Por sua trajetória fora do usual, por ter vindo do street, por sua ligação com a música e em especial por ser um homem negro – algo ainda raro, infelizmente, na indústria –, a contratação de Virgil foi um verdadeiro acontecimento. Acontecimento, aliás, em boa parte celebrado pelo público e pelos clientes, que viam em Virgil um respiro do que era realmente novo. Suas coleções passaram a ser muito esperadas e antecipadas.

Ao assumir a LV, disse: “A herança e a integridade criativa da casa são minhas principais inspirações e vou reverenciá-las enquanto traço paralelos com os tempos modernos”. E assim fez.

Debruçou-se sobre os arquivos da grife e, sem deixá-la perder a essência, trouxe uma nova cara à marca, mais contemporânea, fresca e conectada às gerações jovens e trendsetters. Em uma tacada só, conseguiu renovar toda a base de clientes da linha masculina da Louis Vuitton.

Foi isso o que mostrou no desfile da semana de moda masculina de primavera-verão 2019, o primeiro sob sua gestão, considerado por jornalistas e especialistas um abalo no mundo da moda. Numa passarela pintada com as cores do arco-íris, que revelava uma paleta caleidoscópica inspirada no filme O Mágico de Oz, grandes nomes do rap, como Playboi CartiSteve Lacy e A$AP Nast, desfilaram o estilo hip-hop para uma plateia que ia de Rihanna, que já usava suas roupas, a Kim Kardashian, que não era vista em público em Paris havia três anos.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
O criativo e Ye, uma parceria de sucesso (Foto: Getty Images)

Noite de despedida

Terça-feira, 30 de novembro de 2021. O dia estava ensolarado e quente. A bordo de uma lancha, vi ao longe um balão da Louis Vuitton. Um arrepio percorreu meu corpo quando uma imagem gigante de Virgil surgiu no horizonte. O céu já estava alaranjado, o sol começava a se pôr. As cores daquele fim de tarde se complementavam, como se a natureza orquestrasse a cerimônia de despedida. Desembarquei, junto a outros jornalistas e ao time brasileiro da Louis Vuitton, na Miami Marine Stadium, onde o desfile aconteceria.

Aos poucos, os convidados foram chegando. Em silêncio, vi passar Rihanna, PharrellKanye, Kim Kardashian, DJ KhaledMalumaBella Hadid. Todos muito emocionados, trocavam abraços, embalados pela voz embriagante de Milton Nascimento, cujo som tocava ao fundo.

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Looks da coleção Primavera-Verão 2022 spin-off masculina (Foto: Divulgação)

De repente, a música parou. Michael Burke, presidente e CEO da Louis Vuitton, tomou a palavra. “Virgil espalhou luz em suas paixões – arte, design, música e, claro, moda – para que todos pudessem ver por dentro. Não só para sonhar fazer parte daquele mundo, mas também para poder fazer desse sonho realidade”, disse. A plateia aplaudiu de pé, a trilha sonora voltou com tudo. O balão começou a piscar e a noite caiu.

O primeiro modelo que apareceu na passarela usava um look azul royal, chapéu e uma maleta laranja, combinação cromática perfeita para o tom retinto da pele do rapaz. Para Virgil, modelos não eram cabides, mas pessoas reais com histórias reais e, assim, era possível criar espaços para que essas narrativas fossem contadas.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Detalhe da coleção Primavera-Verão 2022 spin-off masculina (Foto: Divulgação)

“Procuro influenciar positivamente as mentes dos jovens negros com imagens de oportunidade, antes que a sociedade os programe para pensar de forma diferente”, disse em uma entrevista anos antes. O desfile seguiu com homens de etnias diversas. Negros, asiáticos e alguns (poucos) brancos traziam vida às cores, formas, texturas e sobreposições da coleção.

Ao fim, seguimos para outro ambiente, onde pudemos ver mais de perto o balão e a imagem do designer. Nesse momento, pontos vermelhos surgiram no céu como num balé de drones. O avião de papel (marca registrada de Virgil desde seu primeiro desfile na grife) se formou, seguido do 7.2, número da coleção. Entre outras figuras desenhadas no ar, a frase “Virgil was here” (“Virgil estava aqui”, em português) rasgou o céu num momento catártico. As pessoas que ali estavam, convidados e amigos, repetiam a frase centenas de vezes.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Detalhe da coleção Primavera-Verão 2022 spin-off masculina (Foto: Divulgação)

Façam suas apostas

Antes de morrer, em decorrência de um câncer agressivo (e raro) no coração contra o qual lutou discretamente e longe do público por mais de dois anos, Virgil escreveu sobre a última coleção de sua vida: “Acredito no upcycling de ideias para o futuro. Seja prático ou figurativo, não gosto de trabalhar em coisas arcaicas. Nesse meu novo capítulo na Louis Vuitton, vou apresentar uma série de iniciativas de renovação para mostrar que nenhuma estação deve olhar para o passado. Isso faz parte de meus valores fundamentais”. Parecia um presságio do que estava por vir.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
Detalhe da coleção Primavera-Verão 2022 spin-off masculina (Foto: Divulgação)

Comprometido com a inclusão, a diversidade e a individualidade, Virgil apoiou, empregou e financiou causas LGBTQIAP+ e ligadas aos movimentos negro e indígena, de dentro para fora. Foi um revolucionário ao colocar em pauta na indústria do luxo temas sensíveis, além de dar transparência a questões de sustentabilidade e meio ambiente.

Tudo isso sem deixar de vender aos borbotões e seguir criando desejo, algo essencial para o mercado em que trabalhou. Rumores dão conta de que o próprio Kanye West poderia vir a substituí-lo na linha masculina da Louis Vuitton, que ainda não anunciou novo designer. Tarefa fácil não será. Façam suas apostas.

Virgil Abloh (Foto: GETTY IMAGES / DIVULGAÇÃO / REPRODUÇÃO)
O estilista homenageia o público na passarela durante o desfile Louis Vuitton Men’s Spring-Summer 2019, em Paris, na França (Foto: Getty Images)

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