‘Batman’: versão mais realista, herói encara vilões e também corrupção, desesperança e discursos totalitários

Novo longa, com Robert Pattinson no papel do Homem-Morcego, estreia amanhã e tem personagens com visual mais sóbrio
Eduardo Graça

Batman e Mulher-Gato (respectivamente Robert Pattinson e Zoë Kravitz) na nova versão do diretor Matt Reeves Foto: Divulgação

RIO – Santa mudança, Batman! O Homem-Morcego retorna amanhã aos cinemas (após pré-estreias pontuais na terça-feira gorda e hoje) com Robert Pattinson no papel-título em um filme de super-herói propositadamente fora da curva.

O diretor e roteirista Matt Reeves (com dois “Planeta dos macacos” e “Cloverfield: monstro” no currículo) conta, em quase três horas, uma boa história de detetive inspirada em clássicos do cinema noir, passada em uma metrópole cinzenta, estéril de lideranças e contaminada por corrupção, desesperança e discursos totalitários.

Há um abismo na porta principal de Gotham City e ele é traduzido tanto pelas imagens apocalípticas de Reeves quanto pelas reflexões do angustiado mocinho sobre o mundo sombrio que o (nos?) cerca.

— Quando li o roteiro, confesso que quebrei a cabeça para entender por que aquele Batman me parecia tão diferente dos demais. Matt [Reeves] então me disse: é por que agora o playboy ricaço quase desaparece de cena — diz o ator londrino de 35 anos, que conclui: —É que meu Bruce Wayne precisa desesperadamente encontrar um sentido de vida na figura mascarada que criou. Ele quer, e precisa, ser Batman o tempo todo. Queremos mostrar o herói descobrindo Bruce e não o oposto, como nos acostumamos a ver no cinema.

Pattinson, célebre por encarnar um sofrido vampiro na saga adolescente “Crepúsculo”, à qual deu sequência com uma série de filmes independentes, foi a primeira escolha de Reeves, que escreveu o papel pensando no ator e nas particularidades da nova produção.

Seu filme não partiria da origem do personagem, como em tantas reinvenções de franquias de super-heróis. E retrataria o asfixiamento democrático de Gotham City, ilustrado de forma nada maniqueísta pela corrupção na política e na polícia, e questionando a reputação de personagens aparentemente probos, inclusive com o sobrenome Wayne.

O passado de Bruce— o assassinato de seus pais, a proteção do mordomo Alfred (Andy Serkis) e o investimento da fortuna herdada na construção do morcego forte e vingador — é reapresentado em flashbacks e novas cenas que remetem o herói a feridas vivas. Uma delas é exposta quando Batman observa o abandono do filho do atual prefeito, ao descobrir o pai assassinado, ponto de partida da trama.

‘Só um morcego’

O caos se instala e um Charada (Paul Dano, excelente) com tiques populistas traça um rebuscado plano para deixar a metrópole em cinzas. A chuva incessante embaralha por um bom tempo a noção de quem é afinal herói e bandido em Gotham City.

O filme persegue, no melhor dos sentidos, a trilha da trilogia de Christopher Nolan, em que Christian Bale encarnou o herói (“Batman begins”, de 2005, “Batman: O cavaleiro das trevas”, 2008, e “Batman: O cavaleiro das trevas ressurge”, 2012). Mas o realismo psicológico agora é ainda mais apurado— inclusive na construção dos vilões (além de Charada, há o Pinguim de Colin Farrell, irreconhecível, em trabalho exaustivo de maquiagem) e da sensual Mulher-Gato (Zoe Kravitz, destaque do longa).

— Quando meu Batman surge, tem-se a sensação de que estava recluso há tempos e contingências muito graves o fizeram retornar. É como em alguns dos gibis que li: ele é só, mas não apenas, um morcego — diz Pattinson. — E precisa abafar todas as emoções para fortalecer seus sentidos imediatos e a inteligência, fundamentais para decifrar os enigmas do Charada e o terrível quebra-cabeças que se tornou este mundo nosso de Gotham.

Velhos vilões em novos figurinos

Robert Pattinson jura que, quando fez, a pedido do diretor Matt Reves, o primeiro teste de câmera de seu Batman com Oswald Cobblepot, o Pinguim, em uma cena eletrizante de perseguição de carro, não tinha a menor ideia de quem era o ator à sua frente. Pudera, como se vê na foto ao lado.

— Era ainda segredo, pouca gente no set sabia. E ninguém me mostrou fotos de figurino, que ainda não estava totalmente definido. O Colin [Farrell] apareceu então com o rosto do Pinguim, mas com as roupas dele mesmo. Rapaz, foi das coisas mais bizarras que vi na minha vida! — diz.

Um dos personagens mais icônicos do submundo de Gotham City, o Pinguim de Reeves surge sem cartola, monóculo ou risada irritante. Manco e com a face coberta por cicatrizes, ele comanda o clube noturno onde ocorrem as reuniões por baixo do pano da máfia com figurões da política e da Justiça da cidade. Ele também parece ser o braço-direito de Carmine Falcone (John Turturro). Um sujeito aparentemente ordinário, cujo disfarce é justamente a pecha de cidadão comum, Falcone é figura estratégica tanto para a eventual resolução do assassinato dos pais de Bruce Wayne quanto para entender a ligação de Batman com a Mulher-Gato.

A pitada de realismo não se restringiu aos dois personagens. Embora seja fã assumido do estilo camp da série televisiva de 1966 protagonizada por Adam West (1928-2017), o “Batman” de Reeves não tem medo de diálogos longos e apostou em um visual mais sóbrio na caracterização dos personagens.

Esqueça, por exemplo, o surrado terno verde com pontos de interrogação do mentalmente instável Edward Nashton, o Charada. O principal antípoda do Batman ainda jovem de Pattinson surge com um figurino assustador, digno de um serial killer e terrorista que mata e tortura suas vítimas enquanto tenta manipular a opinião pública de Gotham City.

A gata dos sonhos

A busca de um jogo falso/verdadeiro mais sutil também se percebe em peças que apontam, sem forçação de barra, para um segundo tomo da trama. Com destaque para o Gordon ainda pré-comissário (vivido por Jeffrey Wright), parceiro cada vez menos acrítico do herói, e a Selina Kyle em processo de se tornar a Mulher-Gato (Zoe Kravitz).

Esta última aumenta a temperatura na tela grande sem cair na caricatura fácil. Quando aparece no filme, Selina é uma garçonete da boate do Pinguim, preocupada com uma amiga, Anika, a quem chama de “babe”. O repórter de um site australiano perguntou a Kravitz se isso significava que a Mulher-Gato do novo “Batman” era bissexual.

— Foi exatamente como eu a interpretei, que as duas têm algum tipo de relacionamento amoroso — respondeu a atriz de 33 anos.

Em 2015, a Mulher-Gato apareceu beijando uma mulher nos quadrinhos e a autora Genevieve Valentine explicou à época que a fluidez sexual da personagem não era “uma revelação, e sim uma confirmação”. No filme, o tratamento é mais sutil, e o único beijo da gata quem recebe é o protagonista.

— Treinamos as cenas de luta por horas e horas e mais horas e a Zoe parecia um reflexo do meu personagem. Ela me fez querer ir além. Aliás, antes mesmo de ela ser escalada eu já a imaginava como a Mulher-Gato. Ela nasceu para fazer este papel — elogia Pattinson. (Eduardo Graça)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.