Chanel e Miu Miu apostam na liberdade feminina e em colegiais fogosas em Paris

Brilho, silhueta solta e signos de internatos para milionários marcam desfiles ao fim da Semana que teve gosto amargo
Pedro Diniz

Modelos desfilam coleção de Virginie Viard para a Chanel durante a Semana de Moda de Paris – Piroscka van de Wouw/REUTERS

PARIS – No Dia da Mulher, duas marcas das mais femininas do calendário de moda parisiense subiram à passarela para defender o expurgo dos códigos tradicionais de estilo. Tanto a Chanel da estilista Virginie Viard quanto a Miu Miu, sob a tutela da italiana Miuccia Prada, avançaram o relógio das tendências para oferecer uma nova imagem de liberdade às mulheres da nova geração fashionista.

Desde que assumiu a grife após a morte do estilista Karl Lagerfeld, em 2019, Viard afia sua tesoura de olho na revisão do espírito tradicionalista que ronda a grife centenária fundada por Coco Chanel.

Nesse sentido, o tweed, tramado nas montanhas escocesas e que virou emblema da feminilidade quando a designer o transportou, ainda nos 1920, da moda masculina para a feminina, foi o objeto de estudo da nova diretora criativa. O puído que poderia saltar do tecido, porém, ficou longe da coleção apresentada pela Chanel.

Os casacos foram tingidos com cores amenas retiradas do crepúsculo das colinas, numa cartela concisa que transita entre os rosáceos, branco e azuis para, depois, se fechar no preto que pincela as sombras da névoa local.

Brilhos entremeados ao tecido conferiam a modernidade pretendida pela coleção, cuja silhueta mais solta poderia vestir corpos fora dos padrões magros demais da moda clássica francesa.

Minissaias bem cortadas combinadas a blusas e jaquetas mostram como a Chanel quer atingir cada vez mais um grupo de mulheres com pouco apego a seu passado um tanto classudo demais.

A veia pop de Lagerfeld cede lugar a uma costura que tenta libertar o corpo feminino.

Faz sentido porque, afinal, esse foi o principal propósito de Chanel quando ela decidiu ampliar sua marca de chapéus e passar a vestir mulheres cansadas de tantos panos e cinturas marcadas. Por isso, no desfile também houve vestidinhos folgados de alças finas, adornados com paetês geométricos, e pele aparente coberta por uma fina camada de tule bordado no bloco final da passarela.

O corpo para essa estilista não é algo a ser escondido ou maquiado, mas valorizado com umbigos à mostra, pedaços de coxas que respiram acima dos meiões combinados a botas e colos enfeitados com as famosas correntes que definem a imagem de moda perpetuada pela Chanel.

Curiosamente, o corpo, a revisão de tendências já antiquadas e um verniz repaginado para o “girlie” —a estética algo adolescente preenchida pelo armário do tipo colegial— norteou a coleção deste outono-inverno da Miu Miu.

Miuccia Prada não costuma se explicar muito quando cria peças para sua segunda marca, menos intelectualizada que a etiqueta de seu sobrenome, mas avisa que procura em sua criação “um antídoto para uma novidade sem sentido”.

Ela trata, obviamente, do estado das coisas e de como a busca por novas ideias muitas vezes acaba fazendo com que a moda gire em círculos. Em vez de explorar uma nova abordagem para o passado, usa o que já há à disposição para desalinhar as proporções.

Uma camiseta polo pode ter as golas esgarçadas para trás, o tronco cortado e as costuras cobertas por fitas fininhas para virar uma outra peça. O pendor esportivo é inerente às propostas dessa nova garota sem saco para procurar a última tendência. Ela prefere jogar o jogo sem pisar nas linhas da quadra, aqui, muitas vezes inspirada na do tênis.

Minishorts abertos nas laterais, blusas confortáveis nas quais os decotes passeiam pelo torso e microssaias quase indecentes para os padrões europeus produzem a imagem de colegial atrevida que é a cara dessa fase de tesoura menos burocrática de Prada.

Ela rememora os tempos em que a Miu Miu fazia roupas para garotos, com jaquetas fáceis, destacáveis da imagem final, que agregam um perfume sem gênero cujo guarda-roupa já faz parte da geração Z abraçada pela marca.

Vestidos de renda com aplicações de brilho, um deles usado por um modelo, se conectam aos xadrezes clássicos e às malhas de estampa argyle num desenho ambíguo de passado e presente que remete à classe de jovens afeitos ao estilo milionário de colégio interno.

Nesse baile cabem botas, casacões com ombros ampliados e uma série de itens de couro detonado —aqui, eles foram reciclados pela marca— que parecem saídos dos velhos armários para ganhar vida nova no corpo dessa juventude mais consciente.

Para este final de temporada com gosto amargo traduzido pelo noticiário internacional, Paris celebra uma de suas características mais sólidas na cultura, que é conseguir servir de oráculo dos novos pontos de vista sobre os costumes do Ocidente.

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