Sandra Oh e Jodie Comer dão adeus a ‘Killing Eve’: ‘Emoções contraditórias’

Episódio final da série vai ao ar no segundo trimestre de 2022
ASHLEY SPENCER

Jodie Comer e Sandra Oh em Los Angeles Bethany Mollenkof/The New York Times

THE NEW YORK TIMESSandra Oh, 50, e Jodie Comer, 28, se olharam nos olhos, uma de cada lado de um aquário. Iluminadas pelo brilho azulado da água borbulhante e da luz artificial, as duas mulheres perceberam aos poucos a presença uma da outra, com expressões de incompreensão, hostilidade e abjeto desejo.

Ao longo das três temporadas de “Killing Eve”, as duas atrizes e a equipe de criação trabalharam para deslindar os complexos elos entre as duas personagens, e lá estava o resultado, destilado em um único momento inspirado por “Romeu + Julieta”. E aí um peixe entrou no campo da câmera e estragou a tomada.

“Cara!”, exclamou Oh ainda exasperada, meses mais tarde. O peixe, que aparece no primeiro episódio da quarta e última temporada da série, era um sujeitinho extremamente “difícil”, explicou Comer à repórter, rindo. “Um deles nadou pela tela e simplesmente bloqueou a linha de visão entre nossos olhos”, ela disse. “E eu reclamei: pessoal, não dá para trabalhar com esse peixe”.

As audiências não vão descobrir se a ex-agente do MI6 Eve (Oh) e a assassina internacional Villanelle (Comer) estão destinadas a terminar como Romeu e Julieta antes do episódio final de “Killing Eve”, que vai ao ar no segundo trimestre.

A série foi sucesso de crítica instantâneo ao estrear em 2018. Oh, que também é produtora executiva, foi indicada para três Emmys por sua atuação (e ganhou um Globo de Ouro em 2019.) A nova temporada, como tantos outros projetos, foi postergada por causa das complicações de filmar na era da pandemia.

Fora da tela, a obsessão mútua que as atrizes personificam em “Killing Eve” dá lugar a afeto e respeito. Em uma manhã fria de fevereiro, elas se acomodaram diante de mim a uma mesa no pátio do Peninsula Hotel, interagindo com a facilidade de velhas amigas e a reverência de colegas que testemunharam o melhor desempenho uma da outra.

Comer, que fala com um suave sotaque de Liverpool, rapidamente abandonou a saia que tinha usado para uma sessão de fotos antes de nossa conversa e colocou um par de confortáveis calças de abrigo. Ela continuava usando brincos em forma de punhais.

Oh, criada em Ottawa, no Canadá, estava recostada na cadeira, com uma jaqueta cinza e calças largas, e bebia goles de sua garrafa de água personalizada, marcada para que ela possa acompanhar sua hidratação ao longo do dia. No set, Oh ganhou a reputação de ser uma verdadeira “estação de hidratação”, disse Comer, com múltiplas garrafas e copos por perto a cada instante. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Qual foi a sua reação ao saber de que maneira “Killing Eve” terminaria?
Comer: Foi um momento de emoções contraditórias. Fiquei meio chocada. A coisa bonita de filmar o final foi que estávamos juntos no set, e isso foi maravilhoso. Mas, para falar a verdade, não sei como me sinto com relação ao final.
Oh: Acho que foi bastante vitorioso. E acho que continuamos sendo fiéis às personagens e uns aos outros.

Quando vocês descobriram o destino de suas personagens?
Oh: Foi uma obra em progresso. Havia certas discussões que tinham acontecido no começo, e aí veio a pandemia, e mudamos algumas coisas. A descoberta aconteceu enquanto estávamos construindo a história. Não posso ser mais específica do que isso.
Sinto completamente que esta temporada, a última da série, é aquela na qual passamos mais tempo juntas. Porque é correto e adequado que as personagens possam…
Comer: Estar naquele espaço uma com a outra.

Vocês acham que foi a hora certa de terminar?
Oh: Foi, porque era isso que estava acontecendo. Muita gente descreve a história como “um jogo de gato e rato”, e eu compreendo essa descrição com relação à primeira temporada. Mas preciso dizer que, se alguém continua a descrever a história assim, não está assistindo à série. É uma descrição simples demais. Para mim, a série explora a psique feminina e a maneira pela qual essas duas personagens precisam uma da outra. Ao escavarmos em busca disso, no contexto de um determinado tipo de thriller, percebemos que era hora de terminar.
Comer: Era uma coisa muito difícil de executar, sabe? Tentar levar as personagens adiante de uma maneira que parecesse verdadeira mas ao mesmo tempo manter todas aquelas peças da série que as pessoas tanto amam. O relacionamento entre elas significa algo muito pessoal para cada pessoa que assiste à série.

E a série não rotula o relacionamento entre Eve e Villanelle.
Comer: Para mim é difícil quando as pessoas perguntam o que é aquele relacionamento. É difícil dar nome a ele.
Oh: Mais e mais, considero esse tipo de pergunta excessivamente restritivo, porque o espaço precisa ser o mais aberto possível. Não vou responder sobre isso. Porque não importa.
Comer: Sandra e eu não conversamos muito [uma com a outra] sobre o que estávamos fazendo antes de chegarmos ao set. Assim, quando chega a hora de contracenar e a sensação é boa, ela é boa. E nós mesmas estávamos constantemente fazendo essas descobertas.
Oh: E essa é uma das melhores coisas que acontecem, quando você faz um filme. Você pode estabelecer determinadas circunstâncias, mas aí surge alguma coisa que não estava no roteiro, e é isso que precisamos acompanhar.

Como foi ter diferentes mulheres servindo como showrunner a cada temporada? [Phoebe Waller-Bridge, seguida por Emerald Fennell, Suzanne Heathcote e Laura Neal.] De que maneira isso influenciou a série como um todo?
Comer: Sem dúvida cada uma traz seus sentimentos e intuições sobe o que acreditam que as personagens deveriam estar fazendo. O que gostei nisso foi a oportunidade de me sentar a uma mesa com todo mundo e realmente discutir e deslindar o que parecia mais real. Estar incluída nessas conversas foi maravilhoso. Antes de “Killing Eve”, minha experiência era a de chegar ao set, dizer meus diálogos, fazer meu trabalho e ir embora.
Oh: Foi um grande caminho de crescimento. Porque é muito desafiador. Se você faz salsichas, sabe que essa é uma maneira desafiadora de fazer salsichas. Mas o que isso estimula é um lugar natural para a fricção, e creio que esse possa ser um lugar realmente criativo.

Havia alguma coisa especial em sua lista do que queriam fazer na última temporada?
Oh: Pude usar uma peruca!
Comer: Pois é! Lembro de ver a foto e dizer, “caramba, Sandra”.
Oh: Pude usar duas perucas! Usar vestido! Fiquei empolgada com a expansão do meu guarda-roupa.
Comer: Havia um fogo que eu achava ter perdido, e que queria trazer de volta porque sabia que estávamos chegando ao fim. Eu queria um pedacinho da velha Villanelle que um dia conhecemos. Ela embarcou em uma jornada para encontrar um compasso moral e sua humanidade, mas o que eu queria era a versão má dela, maior do que nunca.
Oh: Porque é da natureza do escorpião jamais mudar.
Comer: Exatamente.

Isso foi algo que você expressou logo no começo do processo?
Comer
: Eram conversas sempre abertas, do tipo “há alguma coisa que não caiu bem para você ou algo que você desejaria expandir?” Nunca senti que houvesse alguma coisa que eu não devesse dizer.
O que essa série sempre encorajou, especialmente quanto a encontrar Villanelle, foi “tente qualquer coisa. Se parecer tolo, se for exagerado demais se não funcionar, não há problema”. E eu definitivamente aceitei bem essa liberdade.

Tantas das suas falas tinham ênfases inesperadas. Eu sempre fico imaginando se é algo que vocês improvisaram no momento,
Oh
: Sim!
Comer: Muitas vezes eu achava que estava fazendo um voo cego.
Oh: [Risos.]
Comer: É assim que se diz? Será voo cego mesmo?
Oh: É, sim, sim, sim. Voo cego é o correto.

Quando “Killing Eve” estreou, em abril de 2018 o mundo era um lugar diferente. Estávamos na metade da presidência de Trump e a pandemia ainda não tinha chegado. Como vocês acham que a série se adaptou à mudança de panoramas, e o que ela pôde oferecer aos espectadores?
Oh: É uma pergunta complicada, porque não quero dizer o que acho. A série foi lançada logo depois do #MeToo e no comecinho do Time’s Up. Foi um momento extremamente mágico, fortuito. A narrativa estava centrada em mulheres. A maioria do comando de criação era formado por mulheres. Pudemos dar um presente ao mundo, certo? Também era estilisticamente inovadora. Conceitualmente, era um gênero novo. Quanto às outras mudanças, trazidas pela pandemia e pela virada política, a audiência é que deve decidir
Comer: Minha sensação é de que às vezes a série era puro escapismo.

Por exemplo ao permitir que os espetadores vissem a Europa enquanto estavam trancados em casa por causa da pandemia?
Comer: Bem, trapaceamos muito nesta temporada, por causa da Covid.
Oh: Foi péssimo revelar isso, mas é verdade.
Comer: O departamento de arte e os designers de sets tiveram de recriar lugares que visitamos. Todo mundo precisou elevar seu jogo, de maneiras diferentes.

Vocês conseguiram filmar alguma coisa fora do Reino Unido?
Comer: Não.
Oh: O que é triste. Mas é o que é. Gravamos durante a pandemia, blá blá blá.

Como foi o último dia no set?
Oh: 
Só o que podemos dizer é que estávamos todos juntos.
Comer: Muito juntos.
Oh: Para mim, foi muito dolorido, foi sacrificado.

A cena do aquário na estreia da temporada quatro é uma homenagem ao “Romeu + Julieta” de Baz Luhrmann?
Oh:
 Com certeza sim. Pensamos até em fazer a coisa da mão. E não relutamos em usar algumas referências cinematográficas. Como quando Eve está seguindo Hélène (Camille Cottin), e usando aquela peruca loira. Lembro-me de conversar com nossa diretora, Stella Corradi, sobre Faye Wong em “Amores Expressos”. Eu disse que queria me parecer com ela. Adoro a riqueza de trazer esse histórico de imagens e descobrir como podem se enquadrar à nossa história.

Em retrospecto, o que os prêmios conquistados pela série significam para vocês?
Comer: 
Lembro-me de ir ao Globo de Ouro naquele primeiro ano, e de Sandra ganhar, e de todos acharmos que aquilo era maravilhoso. É claro que sempre existe um momento de gratificação, mas o senso de realização vem de fazer o trabalho.
Oh: Os troféus são adoráveis e bacanas. Mas à medida que a sua carreira se aprofunda, a importância deles muda. Nós fizemos algo juntos. Isso é concreto. Não pode ser tirado de nós. E, acima de tudo, o crescimento, maturidade, expansão, tudo que nos trouxe até aqui, não pode ser tirado de nós. São essas as coisas que têm muito mais significado e ocupam mais espaço.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.