À frente da galeria Bossa Furniture, Isabela Milagre faz sólido trabalho de pesquisa e divulgação do móvel moderno brasileiro

Em sua coleção, com cercam de 800 itens, a Bossa abriga móveis originais de grandes nomes do design brasileiro, além de peças da forma
Eduardo Simôes

Na exposição “Workspaces” (2020), na Mendes Wood DM, escrivaninha e gaveteiro de Jorge Zalszupin; cadeira Beg, de Sergio Rodrigues Foto: ana pigosso / Ana Pigosso

Antes de entrar para o curso de Arquitetura na Faculdade Belas Artes de São Paulo, a mineira Isabela Milagre, de 25 anos, chegou a pensar em fazer Cinema. Na Sétima Arte, tinha interesse pela “contação de histórias”. Durante os estudos, viu que poderia, de outro modo, dedicar-se também a narrativas. Mais especificamente à pesquisa acadêmica que resgata a memória do móvel moderno brasileiro.

Em 2018, seu trabalho de conclusão de curso foi em torno do italiano Carlo Hauner (1927-1996) e do austríaco-argentino Martin Eisler (1913-1977), dupla de designers por trás da criação, nos anos 1950, da loja Forma, de onde saíram peças emblemáticas como a poltrona Costela, de Eisler. Já no ano seguinte, Isabela assinou a curadoria de uma exposição sobre ambos, para o Museu Belas Artes de São Paulo.

“Existem livros muito bons sobre Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e Jorge Zalszupin. E, por trás de alguns desses designers, há institutos que se ocupam deste legado, com um zelo sobre este patrimônio. Eu encontrei nestes dois nomes uma oportunidade, de lacuna histórica, de falar de um assunto de que ninguém estava falando”, explica Isabela.

Além da oportunidade acadêmica, Isabela percebeu aí também um nicho comercial a ser explorado, especialmente no mercado internacional. Antes mesmo de se formar, ela criou a Bossa Furniture, uma galeria virtual, que em 2019 ganhou a primeira sede física, no bairro paulistano da Bela Vista, e possui também uma filial em Nova Jersey, nos EUA. Os endereços, vale ressaltar, não funcionam como espaços expositivos.

Em sua coleção, que hoje tem cerca de 800 itens, a Bossa abriga móveis originais de grandes nomes do design made in Brazil. Além de peças da Forma, estão ali criações de Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Jorge Zalszupin e Sergio Rodrigues. Em meados de 2020, algumas destas peças puderam ser vistas na exposição “Workspaces”, na galeria Mendes Wood DM, na capital paulista. Com curadoria de Isabela, a mostra contava a história do mobiliário de escritório no Brasil, da década de 50 à de 70.

Ali foram reunidas, ao lado de obras de artistas da galeria, como Anna Bella Geiger, escrivaninhas, estantes, cadeiras e mesas de reunião, assinadas por nomes como Geraldo de Barros, Tenreiro, Zalszupin, Lina e Sergio Rodrigues, entre outros.

A captação de móveis da Bossa é contínua, ativa e parte das lacunas identificadas pelo trabalho de pesquisa da galeria. Há também casos em que se trabalha sob demanda, ou seja, busca-se determinada peça a pedido de um cliente.

Após sua aquisição, cada item é medido, pesado e fotografado. Há também uma avaliação preliminar de suas condições, antes que siga para a restauração na própria Bossa. Junto à museóloga Ariel Brasileiro, Isabela faz uma catalogação detalhada, que vai dos materiais usados à construção dos móveis. Este trabalho também permite que a galeria saiba diferenciar de modo mais célere, em captações futuras, peças originais de exemplares falsos.

Fora do Brasil, a Bossa Furniture tem uma clientela fiel de arquitetos, que incluem estes móveis não somente em projetos de interiores nos EUA, mas também na Europa (sobretudo Inglaterra e França) e na Ásia (Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan). Entre os profissionais com que Isabela lida está Peter Marino, autor de diversos projetos de lojas para o grupo LVMH.

O trabalho de pesquisa em torno de Hauner, Eisler e da Forma continuou após Isabela ter se formado e já dura quatro anos. O número de itens catalogados, com 100% de confirmação de autoria, pulou de 55 para 110. Como muita coisa se perdeu em um incêndio que aconteceu nos anos 1980, na fábrica da Forma, Isabela recorreu com frequência a revistas, como a Habitat e Domus, entre outras, onde havia não apenas projetos de interiores com móveis da manufatura, mas também anúncios de página inteira. A pesquisa vai resultar num livro, a ser lançado no segundo semestre deste ano.

Isabela ressalta que não está fazendo uma biografia de Hauner ou de Eisler. “O que me importa é a confirmação histórica, com referência bibliográfica, da autoria de peças, acompanhada de uma foto do móvel original, em boas condições ou restaurado”, diz. “Não quero apenas um coffee table book, mas uma obra com peso científico”.

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