‘A Pior Pessoa do Mundo’, de Joachim Trier, procura o humano na era do MeToo

Em filme indicado ao Oscar, cineasta busca os desejos de uma jovem mulher para além das fronteiras binárias
Ana Estela de Sousa Pinto

Renate Reinsve em cena do filme ‘A Pior Pessoa do Mundo’, de Joachim Trier – Divulgação

CANNES (FRANÇA) “Realmente não acho impossível um homem escrever sobre mulheres. É libertador poder escrever sobre qualquer tipo de personagem e é também uma maneira de descobrir coisas novas sobre mim mesmo”, diz o norueguês Joachim Trier, diretor de um dos filmes mais bem recebidos no Festival de Cannes do ano passado, “A Pior Pessoa do Mundo”, e que foi indicado a duas estatuetas do Oscar —melhor roteiro original e melhor filme internacional.

A questão sobre o “lugar de fala” do cineasta homem de 47 anos autor de uma obra que trata de inseguranças e desejos de uma mulher de 30 anos foi uma das que ele mais ouviu desde a estreia de seu mais recente longa. E também uma que ele espera que, “no mundo ideal, não seja mais relevante”.

O fato de que Julie —a personagem que deu o prêmio de melhor atriz a Renate Reinsve em Cannes— negocia o tempo todo suas noções românticas com expectativas e a realidade do mundo pode até ter influência de gênero, mas é antes de tudo “uma característica humana”, afirma Trier. “Eu já estive na pele de Julie.”

Quando começou a escrever a história, diz ele, imaginava desenvolver o relacionamento entre um homem e sua namorada bem mais nova, que ele mesmo viveu. Era muito mais fácil se identificar com Aksel, quadrinista quarentão vivido por Anders Danielsen Lie, mas Trier começou a se descobrir também em Julie e, depois, em Eivind, por quem a protagonista se apaixona.

Questionamentos atuais sobre o discurso artístico também são tema do filme. Numa das cenas, por exemplo, Aksel se envolve num debate ácido num programa de TV, com uma jovem que acusa seus quadrinhos de machistas. “Isso é uma doença geracional”, rebate ele, vendo censura na interlocutora.

O diretor norueguês vê também fora das telas um clima muito agressivo no discurso. “Qualquer tentativa de tratar desses temas [identitários] vira facilmente uma batalha de contras e a favor.”

Segundo Trier, faz parte do seu trabalho criar um espaço de negociação “em que continuamente tentamos desenvolver a linguagem e a comunicação além dessas fronteiras binárias”.

Ele também está ciente de que entrou num campo minado —”sejam benevolentes comigo, jornalisticamente; este é um território perigoso”, chega a pedir aos repórteres quando a entrevista envereda para discussões de gênero.

Dos 12 capítulos do longa, “Sexo Oral em Tempos de MeToo” desperta reação imediata na plateia. O título é o mesmo de um artigo de Julie que faz sucesso nas redes sociais ao questionar o quanto há de submissão entre gêneros nessa prática.

“Do fundo da minha alma de hippie antigo, também espero que haja um espaço de liberdade na sexualidade de todos, inclusive das mulheres jovens. Nos termos delas, claro”, diz ele, ao comentar que “o tipo de feminismo em que foi criado” via menos contradições entre fantasias sexuais e luta por direitos.

Mas logo acrescenta que “entende a necessidade de mudanças políticas”. “Sinto que o clima agressivo da pornografia e os assédios às mulheres nas redes sociais deixaram o ambiente muito pesado, e um contra-ataque a isso é muito natural.”

“A Pior Pessoa do Mundo” é mais uma parceria do diretor norueguês com seu amigo de adolescência, Eskil Vogt, com quem trabalhou em todos os seus longas anteriores —”Reprise”, de 2006, “Oslo, 31 de Agosto“, de 2011, “Mais Forte que Bombas“, de 2015, e o neoterror “Thelma“, de 2017.

“Nossa forma de trabalhar é mais ou menos como a de fazer terapia. Falamos sem direção tudo o que nos vem à mente e depois editamos”, conta Trier, sobre as semanas em que só discutem e tomam nota, de segunda a sexta, das nove às cinco. “Então, de uma forma meio selvagem, vai surgindo algo.”

Com um repertório cinematográfico comum, eles também enveredam por uma discussão mais formal sobre referências, o tipo de narrativa cinematográfica que gostariam de explorar ou as cenas que imaginam no roteiro.

A história de Julie tem uma narração literária que, segundo Trier, visava “chegar muito perto e depois dar espaço para a interpretação das emoções”, algo que não seria possível se o ponto de vista fosse sempre o da protagonista. “A linguagem cinematográfica é um jogo entre o subjetivo e o objetivo, um tempo e contratempo como o da música.”

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