O que a indústria da moda ainda não entendeu sobre: Black Money e consumidores negros

Estilistas, consumidores e pesquisadores falam o que muda quando empresas investem de verdade em representatividade e como isso é lucrativo para todos
LUANDA VIEIRA

Coleção de Angela Brito apresentada no SPFW N52 (Foto: Caio Brito)

O ano era 2019 e eu estava ansiosa para mais uma temporada do São Paulo Fashion Week. Já tinha perdido as contas de quantas vezes corri para cima e para baixo entre os bastidores do evento, mas aquela edição N48 era diferente: a estilista cabo-verdiana Angela Brito, radicada no Rio de Janeiro há mais de 20 anos, faria sua estreia na passarela da semana de moda. Apesar de acompanhar o seu trabalho com admiração, aquela era a possibilidade de conversar pessoalmente pela primeira vez. A entrevista me encantou, claro, mas acabou ficando em segundo plano perto do ineditismo que estava acontecendo diante dos meus olhos. Nunca tinha presenciado no Brasil um backstage com 99% de profissionais negros. 

Conto isso porque, mesmo vivenciando momentos emocionantes na moda, foi a única vez, até então, que tive uma vontade imensurável de fazer com que todas as pessoas negras conhecessem o trabalho daquela marca e sentissem que é possível estar dentro de uma indústria sempre tão excludente. “Como você entra nesses espaços e esquece completamente da solidão que foi chegar até ali?”, questiona Angela Brito ao incentivar a contratação de pessoas negras. “Nunca somos chamados para nada, desde a época da escola, mesmo tendo as melhores notas, até o ingresso no mercado de trabalho porque não somos considerados confiáveis. Por isso, sou uma pessoa completamente focada em descobrir talentos depois de muito ouvir que a moda não era para o negro. Mas ainda preciso explicar o óbvio: não estamos falando sobre empregar todas as pessoas negras, ou pessoas negras sem capacidade, só para ter e depois dizer que não souberam aproveitar as oportunidades”, afirma.

Mesmo as ações da designer sendo tão naturais, não é novidade que negros não são prioridade entre campanhas, comerciais, vitrines e vagas de empregos que não sejam subalternos. É verdade que houve uma mudança no cenário nos últimos 3 anos, mas a comunidade segue sendo minoria quando o assunto é vender ou contratar. De acordo com o Relatório Às Avessas, de 2021, 70% dos profissionais da moda são brancos. O número reflete diretamente a falta de informação e interesse no público negro, além de estratégias de comunicação voltadas apenas à população branca, ainda que dados atualizados do Instituto Locomotiva apontem que a população negra movimenta R$1,9 trilhão da economia do País.

“É cultural as marcas se negarem a enxergar que pessoas negras estejam acessando lugares antes inimagináveis na sociedade, seja nos restaurantes, no turismo ou na moda. Também existe uma questão de despreparo no atendimento quando esse consumidor está no ambiente e, ao se sentir desconfortável, ele simplesmente não compra. Desta movimentação surge a necessidade de fazer o dinheiro girar entre empresas que tenham os mesmos valores do comprador”, explica Rafaela Pinah, fundadora do Coolhunter Favela, laboratório de pesquisas etnográficas, e stylist e diretora criativa da UMTOK, plataforma de pessoas e negócios em áreas descentralizadas.

Ao invés de esperar a mudança do mercado, os sócios Nina Silva e Alan Soares criaram o Movimento Black Money para ressignificar e popularizar o termo “Black Money” (que, nos Estados Unidos, quer dizer “dinheiro ilegal”). A empresa profissionaliza e impulsiona os negócios de empreendedores negros. “As marcas precisam entender que pessoas pretas querem se ver representadas não somente numa estampa, mas principalmente nas pessoas que estão por trás daquela expressão e, também, quem lucra a partir do seu consumo”, diz Nina. “Não adianta usar bandeira de inclusão e combate às desigualdades raciais nas propagandas sem ter criadores e lideranças pretas nos níveis estratégicos”, completa.  

Qual é a responsabilidade de grandes empresas neste cenário?

Enquanto a dupla colabora com o desenvolvimento de afroempreendedores, existem consultorias que trabalham em prol de profissionais que não querem ter o próprio negócio, mas almejam crescer no mercado de trabalho. É o caso da Carreira Preta, fundada por Michele Villa Franca, atual head de Diversidade e Saúde Mental da Ambev na América Latina, que elabora ações afirmativas, experiências e estratégias para organizações que queiram avançar na conscientização sobre a pauta de diversidade.

“O desenvolvimento de uma política corporativa de inclusão e integração social vai além do olhar para as pessoas negras como consumidoras ou colaboradores da sua empresa. Os empreendedores negros podem ter papel fundamental na cadeia de valor do seu negócio”, explica João Villa, sócio e cofundador do Carreira Preta. “Quantos fornecedores negros você tem na sua empresa não só em serviços comumente relacionados à comunidade negra, mas em serviços de tecnologia, matéria-prima e outras atividades-chave da sua cadeia de valor?”, questiona.

Go Back SPFW N52: Isaac Silva (Foto: Caio Brito)
Looks de Isaac Silva em parceria com a Havaianas, apresentados no SPFW N52 (Foto: Caio Brito)

A reflexão também está entre os estilistas. “Além de contratar mais pessoas negras para cargos de liderança, as marcas caminham para um futuro realmente antirracista ao fazer colaborações com profissionais diversos e investir em pequenos negócios”, opina o estilista Isaac Silva, que está em sua segunda coleção em parceria com a Havaianas, por exemplo. O desejo vem de anos e mais anos acompanhando o mercado se apropriar de criações de pequenas marcas. “Precisamos ser enxergados como veículo de transformação e sermos reconhecidos pela qualidade que empregamos em nossos trabalhos”, diz Júnior Rocha, fundador da marca Meninos Rei, ao lado do irmão Céu Rocha. 

Na prática, iniciativas como essas funcionam. Após participar do Projeto Sankofacriado por Natasha Soares e Rafael Silvério para promover o desenvolvimento de marcas lideradas por profissionais negros e garantir a presença deles no SPFW, Monica Sampaio viu a sua grife, a Santa Resistência, tomar rumos desejáveis. Em outubro de 2021, por exemplo, ela foi convidada, junto a outras marcas, para criar peças que foram vendidas no e-commerce da C&A. O programa Afrolab Moda by Instituto C&A foi uma parceria com a plataforma PretaHub, de Adriana Barbosa, também idealizadora da Feira Preta. “Apesar de importante, acredito que a movimentação possa ser mais profunda. Dificilmente um criador que tenha a devida exposição em lojas físicas é esquecido pelo público”, acredita Monica.

Go Back SPFW N52: Santa Resistência (Foto: Franklin de Almeida)
Looks da Santa Resistência apresentados no SPFW N52 (Foto: Franklin de Almeida)

Quando ações como a sugerida por Monica acontecem, não há motivos para questionamentos sobre apropriação cultural. Quem explica é a dupla Pedro Batalha e Hisan Silva, fundadores da Dendezeiro. “Já colaboramos com algumas grandes empresas desenvolvendo produtos, curadorias, direção artística e criativa. O reconhecimento do potencial, a possibilidade de ocupar espaços e conectar com um público ainda maior através de ações remuneradas é uma grande forma de apoiar empreendedores negros”, dizem. Eles também falam pelo viés do consumo a fim de acabar com estigma de que brancos não podem comprar produtos de empreendedores negros ou indígenas. “Apropriação cultural fala de uma ação bem específica, geralmente sobre a tomada dos meios de produção ou protagonismo, e não sobre consumo. É de completa importância, na verdade, que pessoas brancas consumam e apoiem negócios pretos, que rentabilizem sua criatividade e potencializem sua empresas.”

Naya Violeta, diretora criativa da marca homônima, concorda e acrescenta. “Pessoas brancas não têm medo de comprar de pessoas pretas por apropriação (assim como grandes marcas deixam de contratar ou fazer parcerias pagas com empreendedores negros), elas têm medo de pessoas pretas terem dinheiro. Contribuir com a luta antirracista não é só dar um like na minha campanha no Instagram.” Angela Brito também aponta outras questões estruturais que mudariam com o apoio de grandes marcas. “Nós não conseguimos linha de crédito com facilidade. Aliás, não conseguimos linha de crédito. Falta tanta coisa para a gente e as grandes empresas poderiam complementar com o que não temos, como networking.” 

Go Back SPFW N52: Naya Violeta (Foto: Franklin de Almeida)
Looks da Naya Violeta apresentados no SPFW N52 (Foto: Franklin de Almeida)

Ações que geram renda

A busca por visibilidade de afroempreendedores não se limita ao sucesso entre os clientes e o mercado, mas à possibilidade de gerar renda entre a comunidade negra, o princípio do Black Money. “É o dinheiro circulando na minha mão que me garante uma equipe maior e que ele também esteja em mãos pretas. Durante muito tempo, inclusive, quiseram colocar uma culpa em nós, estilistas negros, que não é nossa, de vender para pessoas brancas”, diz Naya. “Fazer o dinheiro circular na mão de potências negras criativas é reparação histórica.”

De acordo com Karine Priscila, criadora da Negrita Modas, também existe uma questão afetiva. “Quando empregamos pessoas pretas conseguimos trocar e, principalmente, acabar com sentimentos que tivemos em lugares onde precisávamos mudar para sermos aceitos. Quando tenho uma mulher negra com black power na minha equipe, por exemplo, ela não precisa se adaptar a mim”, conta. 

Neste sentido, Natasha Soares, do projeto Sankofa, afirma que ter grupos de discussões raciais nas empresas é uma forma de melhorar o mercado. “Falamos muito sobre inclusão, mas falamos pouco sobre a necessidade de pessoas pretas se sentirem bem nas empresas em que trabalham. A educação interna faz parte deste processo de mudança e ajuda na adaptação de profissionais negros na empresa. Uma pessoa não racializada não faz ideia dos desafios e pequenas agressões que enfrentamos no dia a dia”, explica.

Natasha Soares usa vestido (R$ 3.898) Juliana Jabour. (Foto: Ivan Erick)
Natasha Soares (Foto: Ivan Erick)

Angela ainda faz um paralelo com a frase popular “quem não é visto não é lembrado” e como essa ausência interfere no seu trabalho. “As pessoas sempre dizem que sou potente, querem vestir as minhas roupas nos eventos, mas nunca fui convidada para uma festa ou premiação. Isso impacta muito no financeiro da minha marca. Se o consumidor não me vê nesses lugares, ele não compra”, diz.

Com a palavra, os consumidores

Quando a voz está entre os consumidores negros, a respostas é uma só: “não somos vistos como compradores reais com poder de compra.” A frase foi da analista de BI e criadora de conteúdo Jacira Doce, mas também passou pela narrativa de Carollina Lauriano, Cris Guterres, Giovanna Heliodoro, Juliana Oliveira e Kevin David. “Somos seres ‘desejantes’ como todo e qualquer ser humano, e, com isso, queremos nos sentir contemplados com as nossas imagens em lugares que também nos pertencem. O consumo está nas mãos dos clientes e não mais no que as marcas pautam como interesse, e o povo negro está tendo cada vez mais consciência disso”, diz Carollina, que é curadora de arte.

Apresentadora do programa Estação Livre, da TV Cultura, Cris Guterres olha para a indústria tradicional com pouca esperança sobre as mudanças estruturais. “O erro das marcas é enxergar os consumidores negros apenas como um número e não ter interesse em realmente ouvi-los. Os investimentos que foram feitos após o assassinato brutal do George Floyd, em 2020, já estão em queda porque essa transformação nunca foi genuína”, acredita. De acordo com um estudo da McKinsey, consultoria empresarial, as empresas com mais diversidade étnica em seu quadro de funcionários têm seus resultados financeiros 35% acima da média. “Não adianta olhar para a comunidade negra e tentar adivinhar o que ela quer, principalmente por ter sido excluída durante todos esses anos. Precisamos fazer parte das equipes e sermos remunerados por isso. É uma transformação conjunta.”

Carolle Lauriano (Foto: Reprodução/ Instagram)
Carollina Lauriano (Foto: Reprodução/ Instagram)

Para a historiadora e comunicadora Giovanna Heliodoro, falta a percepção de que ações publicitárias e campanhas com pessoas negras não devem ser feitas apenas em meses como novembro. “Não dá mais para sermos considerados só em datas específicas. Eu entendo o valor do meu black e pink Money e, por isso, se determinada marca não está alinhada com os meus propósitos, não vejo sentido em torná-la mais rica. É importante fomentar empreendimentos que sejam estruturados, pensados e idealizados por pessoas como nós, plurais e diversas”, diz. Além de fazer a economia girar em mãos pretas, o senso de união e orgulho em ver afroempreendedores crescendo fala mais alto. “O que sinto por ter um produto da Rihanna, por exemplo, é muito forte não só pelo item mas por ser a Rihanna, uma mulher negra. Tem a ver com representatividade e enxergar pessoas pretas nesse lugar de projeção para mim”, diz Kevin David, diretor criativo e cofundador da agência MOOC.

Para conquistar o cliente

Giovanna também fala sobre o despreparo nos atendimentos em loja. “O acolhimento é o que mais me deixa confortável para fazer uma compra, mas na maioria das vezes não sou encarada como possível compradora. Aliás, é raro eu receber qualquer tipo de atendimento, e quando recebo, é sempre hostil. Sem falar das inúmeras vezes que sou seguida por seguranças”, conta. Kevin endossa a recorrência dessas atitudes. “Me sinto melhor quando sou recebido por um funcionário negro. A constante desconfiança da minha presença nas lojas me deixa travado”, diz. 

Situações como essas têm direcionado o consumidor negro para o digital. “Passei a comprar muito mais online para evitar as rejeições que já sofri em lojas. Encontrei uma forma de evitar essas sensações”, diz Carollina Lauriano. Mas por ali a compra não é aleatória. “O influenciador escolhido para representar aquela empresa e a história que ela conta online faz muita diferença. As vezes não estou precisando da peça, mas compro quando existe um trabalho de desenvolvimento de mulheres ou grupos em vulnerabilidade”, diz Cris. A criadora de conteúdo Juliana Oliveira também analisa o histórico das marcas nas redes sociais na hora de comprar. “Em 2022, não dá mais para dar dinheiro a uma empresa que não se posiciona. Compro de acordo com as bandeiras que acredito”, finaliza.

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