Bergamo Film Meeting se renova, aos 40 anos

Rodrigo Fonseca

Fiammetta Girola zela pela diversidade no menu da maratona de Bérgamo

Com retrospectiva de Costa-Gavras, sessões em tributo ao centenário de Pier Paolo Pasolini, projeções de novos longas do bósnio Danis Tanovic e panorama do novíssimo cinema europeu, a Bergamo Film Meeting vitamina as telas da Itália de atrações até este domingo, quando finaliza sua 40ª edição. A diretora de programação do evento, Fiammetta Girola, bateu um papo com o P de Pop do Estadão sobre a diversidade dos filmes apresentados pela maratona italiana que, nesta sexta, vai exibir o esperadíssimo “The Forest Maker”, do alemão Volker Schlöndorff, e, no sábado, “Vórtex”, de Gaspar Noé. No domingão rola reprise do brilhante “Amém” (2002), de Costa-Gavras, um tanto esquecido.

Como a pandemia afetou a economia dos festivais de cinema e como você conseguiu superar esta crise e trazer o cinema para as telas de Bérgamo?
Fiammetta Girola:
 A pandemia teve um grande impacto na economia dos festivais, com uma mudança que levou os eventos para o ambiente online e fez alguns serem suspensos. Mas não é só isso: nesses dois anos, o contexto mudou. Os cinemas entraram em crise. Alguns fecharam para sempre. Algumas pessoas que trabalhavam no setor, operando nos festivais, ficaram desempregadas por um longo período de tempo e, portanto, mudaram de emprego… De certa forma, este ano, tratamos de organizar uma espécie de edição zero, apesar de ser a quadragésima, e de se adaptar a um cenário completamente novo.

Qual é a ligação histórica de Bérgamo, além do festival, com a produção cinematográfica? Como a cidade se relaciona historicamente com a tradição do cinema italiano?
Fiammetta Girola:
 Bérgamo é uma cidade muito animada no que diz respeito à cultura cinematográfica. O cineclube da cidade, fundado nos anos 1950, certamente contribuiu para criar este vínculo entre o cinema e a cidade. A principal revista crítica italiana, “Cineforum”, tem seu escritório editorial em Bérgamo. Na década de 1970, foi fundada por lá a empresa de distribuição e produção Lab 80 film. O festival Bergamo Film Meeting nasceu nos anos 1980 na cidade. Posteriormente, outras empresas de produção e eventos cinematográficos foram criados no entorno. Isto certamente é muito para uma cidade de província. Mas creio que também revela o desejo de se emancipar de Roma e dos grandes centros urbanos, que monopolizam o cinema italiano. Havia, e ainda há, uma necessidade de dar uma voz diferente, longe do glamour e do sistema estelar, que também dá espaço a autores novos e menos conhecidos.

Qual é a principal transformação que a cultura do streaming tem imposto aos curadores de festivais de cinema? Como conviver com a nova lógica das narrativas serializadas que hoje parecem estar no centro da indústria do entretenimento?
Fiammetta Girola:
 Esta é uma questão bastante difícil, pois a situação está em constante evolução e há muita instabilidade, o que torna o planejamento de um festival muito mais complicado. Os cinemas foram esvaziados nos últimos meses, mas também o sucesso das plataformas, após o boom na fase de fechamento (com a pandemia) diminuiu enormemente. No ano passado, nosso festival ficou online e correu bem, mas as salas de cinema foram fechadas naquela época. Este ano, propusemos um festival híbrido, mas, no fim das contas, podemos dizer que as entradas nas salas de cinema foram muito melhores do que as exibições online. Isto em um momento em que as salas de cinema, com programação normal, estão fazendo muito poucas admissões (venda de ingressos). É difícil comparar o desempenho das salas de cinema com o de um festival. Além disso, não sabemos como será a situação nos próximos meses. Haverá uma sexta, sétima ou oitava onda da pandemia? Qual será o cenário? Como as pessoas irão reagir? No momento, era importante para nós estarmos de volta, depois de três anos (a última edição em presença foi em 2019), então veremos o que acontecerá.

Qual é o simbolismo de Costa-Gavras como alvo de uma retrospectiva?
Fiammetta Girola:
 Não há nada de realmente especial por trás de nossa escolha. Estávamos procurando um diretor que pudesse fascinar não só os cinéfilos, mas também o público. Alguém que pudesse ser considerado um auteur, que tivesse sua própria solidez formal e estética, mas que também fosse capaz de excitar e suscitar o debate. A retrospectiva do ano passado foi dedicada a Volker Schlondorff. Ambos são autores que prestam atenção às questões sociais, à política. Eles também são amigos de longa data. Em alguns aspectos, a passagem de um para o outro foi um sinal de continuidade.

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