Série ‘Bridgerton’ foge de estereótipos ao tratar o colonialismo na Índia

Nova temporada chega à Netflix com Antony em busca de uma esposa
DESIREE IBEKWE

Kate Sharma (Simone Ashley) e Anthony Bridgerton (Jonathan Bailey) em cena da segunda temporada de “Bridgerton” Liam Daniel/Netflix

LONDRES – THE NEW YORK TIMES

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers sobre a segunda temporada de “Bridgerton”.

No primeiro episódio da nova temporada de “Bridgerton”, Kate Sharma (Simone Ashley) e a muitíssimo bem informada Lady Danbury (Adjoah Andoah) têm uma conversa franca.

Kate explica que sua família veio a Londres, da Índia, para que Edwina, sua irmã mais nova, pudesse se casar com um homem da alta sociedade. Para tanto, ela descreve ter criado Edwina e “ensinado duas vezes mais” a ela e a visto “trabalhar duas vezes mais” do que qualquer outra pessoa. Lady Danbury sinaliza que compreende, com um aceno de cabeça.

primeira temporada de “Bridgerton” foi notável por incluir numerosos personagens aristocráticos negros, como lady Danbury, em seu retrato sexy e suntuoso da Londres do século 19. Na segunda, a família Sharma tem posição central na trama, quando Anthony (Jonathan Bailey), o filho mais velho da família Bridgerton, se envolve em um triângulo amoroso com as irmãs Sharma.

Imaginar uma família do sul da Ásia vivendo na sociedade inglesa da era da regência [os primeiros anos do século 19] era uma forma de expandir o mundo “multifacetado, multiétnico e colorido da série”, disse o showrunner Chris Van Dusen em uma entrevista recente.

Como na primeira temporada, os novos episódios tratam a raça de um personagem como parte constituinte de sua identidade mais ampla. A herança cultural dos Sharma está sempre presente, e é expressada pelo colorido de suas roupas, pela repulsa de Kate diante da “lastimável imitação de chá” servida no Reino Unido, por menções passageiras à Índia e, mais tarde na temporada, por uma tradicional cerimônia “haldi” de pré-casamento.

Van Dusen disse que queria que a série fosse “o mais autêntica possível, especialmente quando a questão é infundir o mundo de detalhes específicos relacionados à herança dessa família”. Ele colaborou com consultores históricos e especialistas a fim de dar forma às histórias de origem dos personagens, acrescentou.

O mundo de “Bridgerton” pode ser fictício, mas incluir pessoas de origem indiana em uma história sobre a Londres da era da regência tem precedentes históricos. A Índia e a Inglaterra estavam estreitamente ligadas, na época. Nos anos 1800, a Índia estava sob controle da East India Co., uma organização mercantil que explorava o país, e mais tarde passou a ser controlada diretamente pelo Estado britânico.

Como potência colonial, o Reino Unido tinha administradores e soldados estacionados na Índia, controlava os recursos do país e recolhia impostos de sua população. Disso decorre que havia um fluxo de pessoas entre os dois países.

“Muitas vezes pensamos na Inglaterra da era da regência como ocupada convencionalmente por pessoas brancas, porque as narrativas televisivas sempre retrataram seus personagens como brancos”, disse Durba Ghosh, professora de história do colonialismo britânico na Universidade Cornell, que oferece os romances da escritora Jane Austen, que viveu na época da regência, como exemplos. Mas esses retratos “não significam que as pessoas que realmente viviam na Inglaterra da regência fossem todas brancas”, acrescentou Ghosh.

Arup Chatterjee, autor de “Indians in London”, disse que pelo final do século 19 havia milhares de pessoas indianas em Londres a qualquer dado momento, tanto moradores permanentes quanto viajantes de passagem. Foi por volta do período da regência que Sake Dean Mahomed, um imigrante bengali, abriu o primeiro restaurante indiano na capital britânica (hoje, uma receita indiana, o chicken tikka masala, é considerada como o prato nacional do Reino Unido).

Em “Bridgerton”, a mãe britânica de Kate e Edwina foi rejeitada por seus pais aristocráticos quando escolheu se casar com o pai das meninas, um escriturário indiano de classe mais baixa. A repulsa deles é mais voltada ao “posto e título” do homem, mas existem implicações racistas. O que está ausente da série é qualquer menção aos aspectos violentos do domínio colonial britânico sobre a Índia.

A série se baseia em uma série de livros românticos de Julia Quinn. “Sempre quis honrar a história, mas em última análise é um mundo reimaginado”, disse Van Dusen. Ele acrescentou que via a série como “um casamento fascinante entre história e fantasia”.

O retrato que a série oferece sobre relacionamentos entre mulheres indianas e homens brancos é outro exemplo desse encontro. No programa, Kate é teimosa e está determinada a encontrar um par perfeito para sua irmã, e tem a força de vontade necessária a rejeitar aqueles que não se enquadram aos seus padrões, o que inclui lorde Anthony.

Ghosh, autora de “Sex and the Family in Colonial India”, disse que integrantes da East India Company, de soldados e mercadores aos mais altos funcionários, muitas vezes formavam relacionamentos com mulheres indianas. Dadas as dinâmicas de poder em jogo, porém, em alguns casos “não há maneira de saber até que ponto esses relacionamentos eram consensuais”, disse Ghosh.

Não só havia mulheres indianas formando relacionamentos com homens ingleses, na Índia do século 19, como havia mulheres de origem indiana vivendo na Inglaterra, no período. Funcionários britânicos que tinham filhos com mulheres indianas ocasionalmente tinham a ambição de que esses filhos vivessem na Europa e recebessem uma educação europeia.

A história de Kitty Kirkpatrick é prova desse desejo: filha de uma nobre muçulmana e de um administrador da East India Co., ela foi enviada à Inglaterra ainda criança, separada de sua mãe, e se tornou membro da sociedade inglesa.

Também houve exemplos de mulheres indianas que tiveram relacionamentos com homens europeus e com isso se tornaram parte da sociedade deles, como no caso de Helene Bennett. Bennett, também conhecida como Halima Begum, provavelmente era parte da elite indiana.

Na Índia, ao que se sabe na década de 1780, ela estabeleceu um relacionamento com o soldado francês Benoît de Boigne, que combatia pela East India Co., e teve dois filhos com ele. Mais tarde, ela viajaria com as crianças para a Inglaterra, onde viveu até sua morte.

O período também é caracterizado pelo fluxo de bens e cultura entre os dois países. Em “Bridgerton”, Kate explica as coisas que ensinou a Edwina na esperança de que ela não se visse desprovida de sustento: “Como tocar o pianoforte do jeito certo”, e como “andar e falar” do jeito certo.

Quando Edwina chega ao mercado matrimonial de Londres, os frutos dessa educação a ajudam a conquistar a aprovação da rainha e o título de “diamante da temporada”. Na elite indiana da era da regência, havia um conhecimento dos costumes de suas contrapartes britânicas.

Em muitas das comunidades indianas do período, “as pessoas tentavam reproduzir o que imaginavam que fosse um circuito social europeu”, disse Ghosh. “Eles organizavam festas e bailes de máscaras, e celebravam a coroação do rei”.

Para Ghosh, a representação que a série oferece tem utilidade. “Ao escalar atores não brancos, as duas temporadas de ‘Bridgerton’ desafiam a duradoura suposição de que aqueles que estavam nos círculos sociais britânicos eram historicamente brancos”, ela disse. “Para mim, essa é uma forma significativa de pensar sobre o colonialismo e o racismo do Reino Unido na década de 1810”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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