Anna Sorokin, de ‘Inventando Anna’, faz exposição de arte mesmo na prisão

Evento reuniu cerca de 150 pessoas e teve pedidos para sua liberdade
EMILY PALMER

Julia Garner em cena da série ‘Inventando Anna’, da Netflix Nicole Rivelli/Netflix

NOVA YORKTHE NEW YORK TIMES

Um corredor estreito com as paredes recobertas de armários e obscurecido por nuvens de fumaça de cigarro e de maconha conduzia ao espaço da A2Z Delancey, uma galeria pop-up de arte no Lower East Side de Manhattan. Cerca de 150 convidados, todos sem máscara, foram até lá numa noite de quinta-feira para a abertura da primeira exposição coletiva de arte de Anna Sorokin em uma galeria.

Os visitantes tomavam cerveja, acomodados em sofás, e alguns saíram para o pátio do espaço artístico, onde grafitaram desenhos com tinta spray em um muro. Uma banda de rock tocou por cerca de meia hora. Tanto os músicos quanto os espectadores sacudiam as cabeças violentamente. Cabelos voavam, e seus rostos pareciam convulsos.

Para os fãs ardorosos de “Inventing Anna”, série da Netflix que descreve a ascensão meteórica da falsa herdeira alemã na sociedade de Manhattan –ela deu golpes em bancos, roubou um jato executivo e deixou contas de hotel não pagas como parte de uma trama para transformar em realidade a Anna Delvey Foundation, um clube de arte exclusivo para sócios que ela queria criar na Park Avenue South—, a abertura da mostra não poderia ter sido menos Anna.

Mas é claro que não foi assim que Sorokin (seu nome real) viu a cena. “Gostei de o lugar ser meio tosco”, disse Sorokin, 31, de sua cela no Orange County Correctional Facility, um centro de detenção em Goshen, Nova York, onde ela está sob custódia das autoridades de imigração depois de cumprir sua sentença de quatro anos de prisão por oito acusações de crime financeiro, anunciada em 2019. “O retrato muito glamoroso que fizeram de mim na série da Netflix não é muito preciso”, ela disse.

A mostra, intitulada “Free Anna Delvey”, ficou em cartaz até o último dia 20 e a designa pelo nome que Sorokin preferiu por muito tempo; os folhetos também mencionam sua atual detenção por ter excedido o prazo de seu visto. A mostra inclui obras de 33 artistas, inspiradas pela experiência de Sorokin, e sua peça central são cinco desenhos de 55 por 75 centímetros que Delvey fez em lápis e tinta acrílica, à venda por US$ 10 mil (R$ 50,1 mil) cada. (Uma organização de assistência a crianças receberá 15% do preço de venda de um dos desenhos.)

Mas nenhuma das obras de arte de Delvey foi desenhada por Sorokin. As peças, em exibição no fundo da sala, foram reproduzidas por Alfredo Martinez com base em desenhos que ela fez na prisão e que amigos postaram em sua conta de Instagram. (Martinez serviu uma sentença de prisão no começo da década de 2000 por fraude postal e telegráfica, depois de falsificar desenhos do artista urbano Jean-Michel Basquiat.)

Sorokin disse que tinha planejado fazer os desenhos maiores por conta própria, mas que o centro de detenção restringe o tamanho do papel que ela pode receber e por isso Martinez se ofereceu para ajudar. “No mundo da arte, é muito comum ter um assistente”, ele disse.

Os desenhos colaborativos presentes na mostra incluem o de uma mulher que está no sistema penitenciário conversando com alguém pelo computador com os dizeres “mande bitcoins”, e um desenho a lápis de uma mulher flutuando mar afora sobre um bloco de gelo com o título “Anna on ICE” [ICE quer dizer gelo e é também a sigla do sérvio de alfândega e imigração americano].

Julia Morrison, artista que criou NFTs com base em mensagens que diz ter recebido do ator Armie Hammer, afirmou que a primeira vez que viu os desenhos de Sorokin foi no Instagram. Morrison, que responde com Martinez pela curadoria da exposição, disse que se identifica fortemente com a história de Sorokin porque sua mãe foi prisioneira em um centro de detenção do serviço de imigração.

Morrison, que mostrou o trabalho de Sorokin a Martinez, disse que a maioria das pessoas tinha simplificado excessivamente sua história pregressa.

Inicialmente Martinez não sabia como entrar em contato com Sorokin, que estava desfrutando de uma turnê de imprensa nas seis semanas de liberdade que teve entre o final de sua sentença de prisão e sua detenção por agentes da imigração. Por isso, ele disse, propôs um artigo ao jornal New York Post, que foi publicado com a manchete “Anna Sorokin pode ter uma exposição de suas obras de arte”, e esperou que ela telefonasse. O que ela fez.

Mas a detenção dela pelas autoridades de imigração poucos dias depois do telefonema prejudicou o processo de planejamento, os dois disseram, acrescentando que tinham se reconectado por meio do serviço de mensagens de texto do centro de detenção e retomado seus planos no começo deste ano.

Na noite da abertura, Sorokin ligou para Martinez para saber como as coisas estavam indo. Ele colocou a chamada no viva-voz e ergueu o celular para o alto, dando oportunidade às pessoas para dizer olá e congratulá-la pela mostra. “Libertem Anna Delvey!”, as pessoas gritaram, antes de ela desligar o telefone.

Entre os presentes estava Todd Spodek, advogado que a representou em seu julgamento, mas não adquiriu qualquer dos desenhos.

“Já tenho algumas peças seletas de uma mostra individual que aconteceu em 111 Centre St”, ele brincou, mencionando o endereço do local de julgamento. (Sorokin passou boa parte do tempo do julgamento desenhando.) Mas ele disse que estava contente por ver pessoas interessadas no trabalho dela.

“Anna Delvey afeta as mulheres agora do mesmo jeito que ‘Clube da Luta’ afetava os homens na década de 1990”, disse Martinez sobre o interesse por Sorokin. “Todas as mulheres que participaram da mostra responderam que sim antes mesmo de eu terminar de convidá-las”.

Mais de metade dos artistas participantes eram mulheres. Rina Oh pintou “Sua Alteza Real Princesa Annoushka (Anna Delvey) Louisa da Savoia”, imitando um retrato de Maria Antonieta e retratando Sorokin como integrante da realeza russa. “Estou zombando da realeza”, disse Oh, “porque ela tirou vantagem desse tipo de pessoa, e esse tipo de pessoa em geral tira vantagem de nós”.

Para a mostra, Morrison destruiu com um martelo pneumático um porta-penicos cheio de papéis picotados, inspirado pelo ex-presidente Donald Trump. (Ela agora está preparando NFTs de imagens capturadas durante a performance.) Martinez disse que sua esperança era a de que a exposição mostrasse às autoridades de imigração que Sorokin talvez tenha mais a oferecer se a libertarem.

O comerciante de arte Chris Martine, que representa Sorokin há diversos meses, disse que está planejando uma segunda exposição –desta vez a primeira individual da artista– em “um lugar elegante de Manhattan”. A mostra teria 20 desenhos e deve acontecer já em abril. Ele planeja levá-la mais tarde a Los Angeles, Miami, Londres, Paris e outras grandes cidades. Martine espera que Sorokin consiga completar “as poucas peças que faltam” até a semana que vem.

Mas produzir uma mostra quando você está detido é complicado. Sorokin confirmou ter recebido papel de aquarela de 24 por 30 centímetros e 12 lápis coloridos não tóxicos, mas suas tintas de aquarela –confundidas com maquiagens– não passaram pelo detector de metais. Ela não pode usar um apontador de lápis e por isso tem de pedir a uma guarda do presídio que aponte seus lápis. Também está trabalhando sem borrachas. “Por isso com certeza não posso errar”, afirmou Sorokin em uma mensagem de texto.

Martinez disse que encaminhou para ela via mensagem de texto as fotos que Sorokin tinha pedido como fonte de inspiração. Entre elas: o Balthazar Restaurant e o Sant Ambroeous, no SoHo; La Mamounia, um luxuoso hotel de Marrakech, Marrocos, em que ela se hospedou certa vez; Passages Malibu, o centro de tratamento contra vícios na Califórnia de onde ela estava saindo quando foi presa em 2017; e os degraus do tribunal de Nova York.

A fim de ajudar a coordenar a mostra, e porque as baterias fornecidas pelo centro de detenção para seu tablet se esgotam rápido demais, Sorokin tem de negociar com outras das prisioneiras que trocam o acesso aos seus tablets por doces e salgadinhos comprados nas máquinas de venda eletrônica do centro de detenção, com dinheiro da conta de Sorokin no refeitório da prisão. “Estou contribuindo para a economia local”, disse Sorokin.

Mas Martine disse que todas essas dificuldades valiam a pena. “Queremos que o mundo tenha um vislumbre do ingresso legítimo do Anna no mundo das belas artes”. Ele acrescentou que “mas, além disso, a arte envolve apenas em parte talento e determinação e gira ainda mais em torno da capacidade de um artista para atrair atenção por conta de sua personalidade e de sua história. E é quanto a esse aspecto que ela realmente brilha”.

De sua cela no centro de detenção, Sorokin refletiu sobre o quanto sua carreira como artista já tinha avançado depois de um começo marcado pela tentativa fracassada de criar uma fundação e pela série de acontecimentos que a mantiveram encarcerada por boa parte dos últimos quatro anos e meio.

“É irônico”, ela disse, “que depois de ter fracassado de maneira tão escancarada quando tentei criar a Anna Delvey Foundation alguns anos atrás, as pessoas agora estejam muito mais interessadas em ouvir minha voz do que era o caso em 2017”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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