Morre Lygia Fagundes Telles, imortal da ABL e grande dama da literatura brasileira

Escritora paulista marcou a literatura com obras como ‘Ciranda de Pedra’, ‘As Meninas’ e ‘Antes do Baile Verde’
Bruno Molinero

Integrante da Academia Brasileira de Letras, Lygia publicou seu primeiro livro de contos, de nome “Porões e sobrados”, em 1938, mas considerava “Ciranda de Pedra” (1954) o marco inicial de suas obras Foto: Reprodução

SÃO PAULO – Um dos principais nomes da literatura brasileira e uma das últimas escritoras de uma geração que marcou a produção literária nacional, a escritora Lygia Fagundes Telles morreu aos 98 anos, em São Paulo. Ela estava em sua casa, na capital paulista, e teve sua morte confirmada pela agente literária Lucia Riff e pela Academia Paulista de Letras.

A escritora é um marco na literatura brasileira e recebeu os principais prêmios —foi ganhadora do prêmio Camões em 2005, o maior troféu da literatura em língua portuguesa, além de ter vencido o Jabuti em 1966, 1974, 1996 e 2001. Ela fazia parte da Academia Brasileira de Letras desde 1985, além de pertencer também à Academia Paulista de Letras.

Mulher de cabelos escuros compridos olhando diretamente para a câmera
A escritora Lygia Fagundes Telles em retrato de 1949; fotografia recuperada – Chico Albuquerque/ Acervo Instituto Moreira Salles

Sua obra conta com títulos incontornáveis como “Antes do Baile Verde”, de 1970, “As Meninas”, de 1973, “Ciranda de Pedra”, de 1954, “O Jardim Selvagem”, de 1965, entre outros.

Sua prosa mergulha na dimensão psicológica dos personagens, usando a narrativa como uma escavação para encontrar o que de mais profundo existe no ser humano —mas sem afastar o subjetivo da realidade social e coletiva. Um exemplo é justamente “As Meninas”, relato que explora principalmente as questões de três narradoras universitárias, mas intimamente ligado à ditadura militar brasileira. O livro surgiu depois que Lygia recebeu em casa um relato de tortura realizada pelo governo.

Filha de um delegado e promotor público, a autora nasceu em São Paulo em 1923, mas passou toda a infância em diferentes cidades do interior paulista —entre elas, Areias, Assis, Apiaí e Sertãozinho. De volta à capital, estudou na escola Caetano de Campos, onde recebeu os primeiros incentivos literários.

Ela fazia parte da Academia Brasileira de Letras desde 1985, além de pertencer também à Academia Paulista de Letras. Na foto, a escritora em 1964
Ela fazia parte da Academia Brasileira de Letras desde 1985, além de pertencer também à Academia Paulista de Letras. Na foto, a escritora em Folhapress

Foi justamente nessa época que escreveu seu primeiro livro, que viria a destruir tempos depois. Segundo ela, a pouca idade não justificava a má literatura da obra. “Hoje uma jovem de 15 anos fuma, bebe, lê Kafka, discute sexo —enfim, ousa tudo. Eu, com essa idade, era só ignorância. E medo”, disse Lygia sobre esse seu primeiro livro.

Estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a autora publicou oficialmente seu primeiro livro de contos, “Praia Viva”, em 1944. Mas foi difícil fazer com que a obra saísse, já que muitos editores recusavam a publicação, como ela mesmo reclamou em carta para Erico Verissimo em 1941.

Seguiram-se então “O Cacto Vermelho”, de 1948, que venceu prêmio da Academia Brasileira de Letras. E, em 1954, saiu seu primeiro romance, “Ciranda de Pedra”, um marco em sua obra —tanto que o crítico Antonio Candido diz que essa foi a fronteira da maturidade em sua literatura.

Dividido em duas partes, o título já traz assuntos como homossexualidade e vida sexual feminina ao narrar a história de Virginia em dois momentos: na infância, com a mãe separada, e anos mais tarde, tendo que lidar com a família e os conhecidos.

Retrato da escritora Lygia Fagundes Telles em seu partamento no Jardins, em São Paulo
Retrato da escritora Lygia Fagundes Telles em seu partamento no Jardins, em São Paulo Eduardo Knapp/Folhapress

Mas foi nos anos 1970 que sua produção se intensificou, com os lançamentos dos premiados “Antes do Baile Verde” (1970), “As Meninas” (1973) e “Seminário dos Ratos” (1977).

Na vida pessoal, Lygia foi procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo até a aposentadoria. Em 1947, casou-se com Goffredo Telles Jr., seu professor de direito, de quem herdou o sobrenome usado para assinar seus livros. Separada, casou-se mais uma vez, nos anos 1960, com o escritor e cineasta Paulo Emílio Salles Gomes.

Do primeiro casamento, nasceu seu único filho, Goffredo Telles Neto, cineasta que morreu em 2006, aos 52 anos. “De um certo modo, eu me transformei numa espécie de testemunha dele e de mim. Quando ele morreu, eu pensei: O que estou fazendo aqui? Vou morrer junto? E decidi escrever. Sobre ele, nunca; isso eu não poderia fazer. Mas de um certo modo, a lembrança do meu filho está em tudo”, disse ela à Folha em 2007.

Além dos prêmios Jabuti e do Camões, Lygia foi uma das escritoras mais premiadas do país. Ganhou prêmio na França por “Depois do Baile Verde”, troféus da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), prêmios da Biblioteca Nacional e o troféu Juca Pato de intelectual do ano dado pela União Brasileira dos Escritores.

Sua morte deixa estantes cheias de livros, paredes cheias de troféus e a literatura brasileira mais vazia. O velório vai ocorrer na sede da Academia Paulista de Letras, ainda neste domingo (3), aberto ao público. O endereço é largo do Arouche, 312. Depois, o corpo da escritora será cremado.

Na mesma entrevista à Folha em 2007, Lygia declamou um poema de Carlos Drummond de Andrade: “As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis/ à palma da mão. // Mas as coisas findas,/ muito mais que lindas,/ essas ficarão”.

“É lindo esse poema, não? Como dizia meu pai, ninguém morre”, disse ela.

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