Musk gasta US$ 3 bi para virar maior acionista do Twitter após reclamar da rede

Documentos mostram que o CEO da Tesla detém 9,2% em ações da empresa que opera a rede social
Por Bruna Arimathea e Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Elon Musk; Musk tem quase 73,5 milhões de papéis da companhia

Conhecido por ser um falastrão no Twitter, o bilionário Elon Musk agora detém uma boa fatia da rede social. Nesta segunda-feira, 4, um documento protocolado na Securities and Exchange Comission (SEC, a CVM americana) mostrou que o presidente da Tesla detém 9,2% em participação na empresa, o que faz dele o maior acionista da rede social. 

Segundo o informe, Musk tem quase 73,5 milhões de papéis da companhia, avaliando sua participação passiva na empresa em até US$ 2,9 bilhões com base no fechamento das ações na sexta-feira 2. As ações são detidas pelo grupo Elon Musk Revocable Trust, do qual ele é o único administrador.

A informação fez as ações do Twitter dispararem cerca de 24% no pré-mercado da Bolsa de Nova York nesta segunda. Às 07h43 do horário de Brasília, a ação do Twitter saltava 24,01% no pré-mercado da Bolsa de Nova York, enquanto Tesla ganhava 1,06% na Nasdaq. No mesmo horário, o futuro do Dow Jones cedia 0,02%, o do S&P 500 avançava 0,13% e o do Nasdaq se aumentava 0,38%.

“Esperamos que essa participação passiva seja apenas o início de conversas mais amplas com o conselho/gerência do Twitter, que podem levar a uma participação ativa e a um potencial papel de propriedade mais agressivo do Twitter”, escreveu o analista Dan Ives, da WedBush, em nota.

O apetite do bilionário por poder no Twitter faz sentido.

O dono da SpaceX tem sido muito crítico em relação às políticas de liberdade de expressão nas redes sociais. Segundo ele, as plataformas não estão sendo democráticas ao não permitirem a liberdade ampla de discurso. Nas últimas semanas, o empresário questionou o compromisso da plataforma com a liberdade de expressão e sugeriu que poderia criar uma ferramenta rival.

Musk chegou a fazer uma votação perguntando se as pessoas acham que a plataforma é coerente com o princípio da liberdade de expressão. Na enquete, 70% das pessoas votaram “não”. “As consequências dessa votação serão importantes. Votem com cuidado”,  disse Musk na publicação, no fim de março.

“Musk sempre foi crítico sobre a liberdade de expressão no Twitter, problema majoritariamente americano, uma vez que no Brasil ainda vemos pouco controle, inclusive de fake news. Se ele usar sua participação na empresa para alguma coisa, provavelmente seria para interferir nas políticas de marcação e exclusão de mensagens”, diz Edney Souza, diretor acadêmico da Digital House Brasil.

O discurso se alinha com parte das ideias defendidas pela direita americana, entre eles o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Por lá, nenhum projeto de rede social alternativa, como Truth Social (de Trump), Gettr, Parler ou Rumble, conseguiu decolar e fazer frente a rivais como Twitter, Facebook e Google.  

“As ações do Twitter estavam relativamente baixas nos últimos anos. Claramente parece um movimento mais de cunho pessoal do que de investimento. Ele se resguarda a possíveis ações da empresa por um valor baixo”, diz Guilherme Zanin, analista da Avenue Securities.  

O movimento, porém, deve colocar o bilionário no foco de autoridades e reguladores nos EUA. “Isso acontece ao mesmo tempo em que se passa uma discussão gigantesca no Congresso americano sobre as gigantes de tecnologia e seu impacto na sociedade. É provável que ele até seja chamado para depor no Congresso antes de conseguir emplacar alguma mudança interna”, diz Souza. 

Twitter é palco de Musk

Embora descontente com a suposta falta de liberdade de expressão, Musk usou o Twitter para emitir algumas de suas opiniões mais polêmicas — inclusive gerando uma disputa legal com a SEC por conta dos resultados no mercado financeiro.  

Foi no Twitter, por exemplo, que Musk publicou um meme antivacinas durante a pandemia de coronavírus. Após comentários negativos, o bilionário deletou o tuíte e afirmou ser “a favor das vacinas, mas contra a vacinação obrigatória”.

No início deste ano, a SEC iniciou mais uma investigação com alvo em tuítes de Musk. Desta vez, para entender se ele e seu irmão Kimbal usaram informações privilegiadas em vendas de ações.

De acordo com o jornal americano Wall Street Journal, a investigação foi iniciada no ano passado após Kimbal Musk vender ações da Tesla avaliadas em US$ 108 milhões. A transação aconteceu um dia antes de o bilionário pedir que seus milhões de seguidores no Twitter votassem em uma enquete informal, perguntando se ele deveria vender parte de sua participação na Tesla. Após 57,9% dos mais de 3,5 milhões de participantes votarem na opção “sim”, o preço dos papéis da companhia recuou. 

O órgão regulador americano avalia se Elon Musk adiantou a Kimbal que planejava perguntar aos seguidores do Twitter sobre a venda de ações da Tesla. Se isso foi feito, o bilionário infringiu regras que impedem funcionários e membros de conselhos de empresas de negociar a partir de informações não divulgadas.

Os atritos entre Elon Musk e SEC por conta do Twitter não são de hoje. Em 2018, o órgão processou o fundador da Tesla por fraudar tuítes sobre saída da Tesla da Bolsa – investigação foi motivada pelo fato de o bilionário ter usado sua conta pessoal no Twitter para dizer que cogitava tirar a empresa da Bolsa caso o preço da ação batesse US$ 420. 

Musk fechou um acordo com a SEC em 2019 para resolver as acusações. Como parte do acordo, o bilionário teve de renunciar ao cargo de presidente do conselho da Tesla por três anos e se comprometeu a submeter à revisão os seus tuítes envolvendo Tesla.

Twitter ‘sob ataque’

O movimento por parte do bilionário deve também reacender questionamentos sobre uma onda de ataques contra o Twitter por parte da direita americana. Em 2020, a firma de investimentos Elliott Management pressionou o então CEO do Twitter, Jack Dorsey, a deixar o comando da empresa, o que não acabou acontencendo. Segundo a Bloomberg, a gestora planejava substituir o executivo por considerar que sua liderança trazia prejuízo ao valor das ações da empresa. 

A Eliott é liderada por Paul Singer, megadoador de recursos para campanhas do Partido Republicano, dos Estados Unidos. Desde às eleições de 2016 nos EUA, os apoiadores do partido acusam a rede social de censurar vozes conservadoras em prejuízo de vozes mais progressistas, uma tese refutada pelo próprio Twitter recentemente – ao contrário, os algoritmos do Twitter impulsionam perfis da extrema direita

Dorsey acabou deixando a rede social em novembro do ano passado. Na época, ele afirmou: “Decidi deixar o Twitter porque acredito que a empresa está pronta para seguir em frente sem seus fundadores”. 

Próximo trilionário 

Musk tem vendido parte de sua participação na Tesla desde novembro do ano passado, quando disse que gostaria de colocar no mercado 10% de sua participação na fabricante de carros elétricos. Ele já vendeu US$ 16,4 bilhões em ações desde então.

Com uma fortuna estimada em US$ 260 bilhões,  Elon Musk pode se tornar o primeiro trilionário do mundo já em 2024. A estimativa é da empresa de software Tipalti Approve, que fez uma projeção sobre o crescimento da fortuna do empresário, altamente ligada às valorizações da Tesla e da SpaceX. 

“Desde 2017, a fortuna de Musk teve uma média de crescimento de 129% por ano, o que pode levá-lo ao clube do trilhão nos próximos dois anos, com uma fortuna estimada em US$ 1,38 trilhão”, diz o relatório. Apesar da ótima fase da Tesla, o relatório aponta para a SpaceX como a chave para o sucesso do empresário. “A SpaceX gera receitas massivas ao cobrar governos e clientes comerciais para enviar coisas ao espaço, como satélites, suprimentos para a Estação Espacial Internacional (ISS) e pessoas”, diz o estudo.

Atualmente, o modelo de transporte compartilhado de satélites da empresa oferece espaço no foguete Falcon 9 a partir de US$ 1 milhão para cargas de até 200 quilos. Assim, a SpaceX se tornou a segunda maior empresa de capital fechado do mundo, avaliada em US$ 100 bilhões. Em abril de 2021, a empresa venceu a licitação de US$ 2,9 bilhões da Nasa para levar astronautas à Lua. Seria a primeira vez que humanos pisariam no satélite natural da Terra desde 1972.  

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