Criação de arte de rua do francês Jo Di Bona “Le Colors Festival” em Paris, França

Os visitantes observam uma criação de arte de rua do artista francês Jo Di Bona em exibição durante a segunda edição do “Le Colors Festival” em Paris, França. Foto de Emmanuel DUNAND/AFP

Mulheres abrem mão da monogamia para viver casamento aberto: ‘Tenho um marido feminista’

De escritora à sexóloga, brasileiras cada vez mais adotam liberdade conjugal como estilo de vida
Jéssica Marques

Ilana Eleá posando em ensaio fotográfico Foto: divulgação / Arquivo Pessoal

RIO —  Há três anos, Ilana Eleá passeava de carro com o marido e seus dois filhos quando escutou no rádio, pela primeira vez, o Ted Talk da psicoterapeuta Esther Perel sobre liberdade nas relações humanas. A doutora em Educação, de 43 anos, revela que na época, por ser criada com outros valores, não se imaginava vivendo um casamento aberto. O acaso, entrentanto, virou gatilho e ela começou a considerar outros modelos de relacionamento até se perceber pronta para aderir a uma tendência que, nos últimos dias, voltou ao debate graças ao relato da atriz Fernanda Nobre, que contou sobre sua experiência bem-sucedida – e cheia de amor – de casamento aberto.

— Eu era muito ciumenta. Quando escutei a Esther falar sobre casamento aberto, me escondi da fala dela. Eu não queria acreditar que era verdade. Estávamos ouvindo ela no carro e fiquei com medo do meu marido querer abrir o nosso casamento. Eu achei que não estava preparada para essa conversa. A gente ficou rindo e comentou sobre o assunto dentro do carro, meio sem graça um com o outro. Eu era uma mulher que tinha ciúmes, casada, com dois filhos pequenos, dentro de um relacionamento de conto de fadas — relata.

Escritora Ilana Eleá em ensaio fotografico Foto: Divulgação / Arquivo pessoal
Escritora Ilana Eleá em ensaio fotografico Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

O fato de ser escritora de contos eróticos não mudava o estranhamento inicial com a ideia. Ilana é casada há quase 12 anos com um sueco que conheceu num site de relacionamento. “Ele estava na Suécia e já tinha passagem comprada para o Brasil”, recorda-se.  Após viverem 18 dias de um amor intenso, eles resolveram se casar e explorar novas histórias, levando o amor dos dois para conhecer o mundo. Um início cheio de magia que rendeu o primeiro livro de Ilana, “Encontros de neve e sol” que, apresentado na forma de um diário, foi o pontapé inicial para uma nova vida.

— A escrita começou como um desassossego. Tudo começa como um diário, que depois vira livro. Eu tive depressão forte e comecei a escrever. Quando estava construindo “Emma e o sexo”, outro projeto, decidi que uma das personagens do livro precisava viver uma relação aberta. Eu comecei a ler e estudar sobre isso. Li vários livros que falavam sobre poliamor e relações abertas, entrevistei pessoas que viviam nesse contexto e frequentei casas de swing como forma de pesquisa —  afirma a escritora que hoje está no seu quarto livro.

Quando completaram 10 anos de casados, em 31 de dezembro de 2020, Ilana propôs ao marido um casamento aberto. Naquele momento ela tinha certeza que estava pronta para vivenciar novas experiências e diferentes formas de amor:

  —  Me dá muita segurança ser casada com um marido feminista. Quando eu quis abrir o casamento, ele aceitou na hora. Abrimos uma garrafa de champanhe e comemoramos o feito —  disse a escritora que não classifica seu casamento como ‘poliamoroso’, mas como um relacionamento de configuração mista. Ilana explicou que, diferentemente do marido que prefere apenas relações sexuais, ela tem interesse por relações paralelas.

Capa do Livro Ema e o Sexo e escritora Ilana Eleá Foto: Divulgação / Divulgação
Capa do Livro Ema e o Sexo e escritora Ilana Eleá Foto: Divulgação / Divulgação

—  Eu sou casada com ele e tenho um relacionamento com mais duas pessoas. A gente também pode frequentar casas de swing se quiser.  Meus três companheiros não se conhecem e vivemos separados. Isso funciona muito bem para gente. Eu me identifico como héteroflex, ou seja, quer dizer que eu não tenho desenvolvido um encantamento ou apaixonamento por uma mulher, mas dentro de um contexto de libido eu posso transar com uma mulher. E já transei — completou.

Ilana diz acompanhar os debates sobre a não monogamia política do país. E alerta que a principal ferramenta para que  uma mulher possa experimentar viver um casamento aberto é conquistar a independência financeira. De acordo com ela, o Brasil ainda é retrógrado com relação à liberdade sexual da mulher e afirma que existe um “ranço marcado pela hipocrisia” de muitos homens que não aceitam abrir o casamento, mas que vivem uma relação extraconjugal.

Atriz Fernanda Nobre posando em ensaio Foto: Divulgação / Divulgação
Atriz Fernanda Nobre posando em ensaio Foto: Divulgação / Divulgação

Em março deste ano, a atriz Fernanda Nobre dividiu opiniões nas internet após declarar que acredita em relacionamentos abertos e afirmar que  “a monogamia é hipocrita”. A atriz que atuou na novela ‘Um lugar ao sol’ utiliza o perfil nas redes sociais como canal de debate e reflexão para desconstruir conceitos da monogamia. A carioca faz questão de ressaltar que vive um casamento aberto com o diretor José Roberto Jardim.  “Mais do que tratar de relacionamento aberto, minha proposta é falar do lugar da mulher na sociedade. A mulher fica repetindo padrões, que nesse caso é a monogamia, sem saber se é o que quer, porque desconhece que existem outras maneiras” alertou.

Sexóloga há 12 anos, Marianna Fernandes de 38 anos compartilha do mesmo sentimento. A terapeuta que atende inúmeras mulheres pelo país afirma que, após seis anos e meio de casada e mãe de uma filha, decidiu abrir a relação há um ano como forma de “reacender a chama apagada”.

Sexóloga Marianna Fernandes em en saio fotográfico Foto: Alessandra Calixto / Arquivo pessoal/ Alessandra Calixto
Sexóloga Marianna Fernandes em en saio fotográfico Foto: Alessandra Calixto / Arquivo pessoal/ Alessandra Calixto

— Chega um tempo do casamento que a chama apaga.  Meu marido já tinha uma vida liberta e eu também. Nós conversamos muito sobre o assunto. A decisão partiu de mim. Como eu sempre estudei sobre sexualidade, para mim, essa ideia sempre foi muito natural e muito aceita. A proposta também aconteceu de forma natural. Claro que temos acordos firmados para que isso possa dar certo. Um deles é que usar camisinha é essencial.  A gente também não conhece os parceiros um do outro. Eu tenho os meus casos, com quem eu transo. Por isso chego em casa sem culpa. Para minhas emoções e para minha vida pessoal isso é ótimo. Eu me sinto mais gostosa e mais amada. Me sinto motivada porque transei com outra pessoa e chego em casa bem — observou a sexóloga.

E, apesar de estar totalmente segura da decisão que tomou, Mariana afirma que prefere não saber com quem seu marido está se relacionando por se considerar ciumenta.  Embora tudo pareça muito novo para todos, a terapeuta de casais acredita viver uma “relação sexual conservadora” com o marido.

Sexóloga Marianna Fernandes em ensaio fotográfico Foto: Alessandra Calixto / Arquivo Pessoal
Sexóloga Marianna Fernandes em ensaio fotográfico Foto: Alessandra Calixto / Arquivo Pessoal

—  Desde que estamos juntos, a gente nunca foi ao motel. E eu quero vivenciar coisas diferentes e já que ele não quer vivenciar isso comigo, eu decidi experimentar com outras pessoas. E ele respeita o fato de eu ter fantasias. Não é́ porque eu sou mulher casada e com filha que eu não posso viver minhas fantasias sexuais. Eu não abriria mão de mim de forma alguma. Nem da minha profissão. Eu ainda me arrumo da mesma forma que me arrumava quando era solteira. Eu uso maquiagem, decote e cuido de mim e do meu corpo como sempre me cuidei. Isso que me satisfaz, nunca ter aberto mão dos cuidados comigo. Eu sempre tive os mesmos comportamentos. E hoje estamos felizes no nosso casamento aberto e nos amamos—  finalizou.

Jil Sander | Spring Summer 2022 | Full Show

Jil Sander | Spring Summer 2022 by Lucie Meier and Luke Meier | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/Multi Camera/Detailed – 1080p – MFW/Milan Fashion Week) #Jilsander #MFW #SS22 #FFLoved

David Roemer for Harper’s Bazaar Mexico with Adria Arjona

Photographer: David Roemer at Atelier Management. Fashion Stylist: Fabio Immediato. Hair Stylist: Mara Roszak. Makeup: Melanie Iglessis. Manicure: Vanessa Sanchez McCullough. Talent: Adria Arjona.

As bruxas estão soltas em 25 filmes na mostra ‘Mulheres mágicas’, no CCBB

Projeto investiga a construção da figura da feiticeira ao longo da história

Kim Novak no filme ‘Sortilégio do amor’ (1958), que compõe a mostra ‘Mulheres mágicas – Reinvenções da bruxa no cinema’, no CCBB — Foto: Divulgação/Sony

Com 25 filmes, entre longas e curtas clássicos e contemporâneos, de vários países e gêneros, a mostra “Mulheres mágicas”, dedicada a investigar a construção da figura das bruxas na história do cinema, entra em cartaz nesta quarta-feira (13), no CCBB Rio.

Até 9 de maio serão exibidas obras que exploram duas perspectivas da feiticeira. De um lado, o arquétipo da bruxa dos contos de fadas, perseguida durante o período medieval, a partir de clássicos como “Dias de ira”, de Carl Theodor Dreyer, “O reino das fadas”, de Georges Méliès, “Suspiria”, de Dario Argento, “Häxan – A feitiçaria através dos tempos”, de Benjamin Christensen, e ainda a comédia romântica “Sortilégio do amor”, de Richard Quine, que encara a bruxa como símbolo de sedução e traz no elenco Kim Novak, James Stewart e Jack Lemmon.

De outro, filmes que propõem a releitura das bruxas como figuras sábias e que desafiam as normas de suas épocas, através do trabalho de cineastas mulheres, como em “Covil das bruxas”, da ucraniana Maya Deren, “Amores divididos”, da americana Kasi Lemmons, e o islandês “A árvore de zimbro”, de Nietzchka Keene, que tem como protagonista a cantora Bjork e abre a mostra.

A programação conta ainda com duas sessões infantis do clássico “O mágico de Oz” (Victor Fleming, 1939) dublado. O catálogo virtual, com toda a programação, pode ser baixado no site da mostra (www.mulheresmagicas.com), onde o público também encontra dois filmes disponíveis gratuitamente: “Feiticeiras, minhas irmãs” (Camille Ducellier, 2010), de 13 a 19 de abril; e “A árvore de zimbro” (Nietzchka Keene, 1990), de 21 a 27 de abril.

Serviço: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Primeiro de Março 66, Centro — 3808-2020. Qua a seg, até 9 de maio. R$ 10. Ingressos disponibilizados às 9h do dia da sessão na bilheteria do CCBB ou no site Eventim.