Primeiros episódios de ‘Rugido’, série da Apple TV+, decepcionam

PATRÍCIA KOGUT

Nicole Kidman em ‘Roar’, série da Apple TV+ (Foto: Divulgação)

Série de antologia lançada pela Apple TV+, “Rugido” tem oito episódios que podem ser vistos de forma independente. Questões relativas ao universo feminino conectam as histórias. Como o título indica, as narrativas abordam aquilo que as personagens não conseguem expressar através de uma voz modulada e de timbre controlado. Esta adaptação de contos de Cecelia Ahern trata do que está engasgado ou do impronunciável. Assisti aos dois primeiros capítulos e é sobre eles que falo hoje. Mais adiante comentarei os demais.

O elenco é de peso. A premiada Issa Rae estrela o programa que abre a série, “The woman who disappeared” (a mulher que desapareceu). Ela vive Wanda, escritora e professora novaiorquina que batalha nas sombras até que um livro seu se torna um best-seller. Passa a ser cortejada por um poderoso estúdio de Hollywood, que acena com a possibilidade de levar a obra para o cinema. Ela desembarca em Los Angeles para negociar os termos da adaptação. Já na saída do aeroporto avista uma estranha sentada num banco, devorando seu livro. É reconhecida nas ruas.

Wanda recebe tratamento de estrela. Fica hospedada numa daquelas casas imensas no alto de um morro, com piscina e vista deslumbrante para a cidade. Porém, no encontro com os três executivos que a convocaram, não se sente notada ou ouvida. É uma invisibilidade metafórica, mas que, na série, é mostrada de forma literal. Apesar das grandes atuações, a dramaturgia se perde. Falta sutileza à abordagem da desvalorização social da mulher e, mais ainda, da mulher negra. O didatismo diminui a força da mensagem. Pena.

O segundo programa, “The woman who ate photographs” (a mulher que comeu fotografias), sofre do mesmo mal. A protagonista, Robin (Nicole Kidman), chega à maturidade e se sente imprensada entre duas dores. Ela está se despedindo do filho, que vai cursar a universidade num lugar distante. Ao mesmo tempo, assume os cuidados com a mãe, que sofre de demência.

Robin aluga uma caminhonete para buscá-la em outra cidade. Acompanhamos a viagem delas, marcada por diálogos ásperos e pelos lapsos de memória da mãe. Na bagagem, levam velhos álbuns de fotografias. Robin cultiva o estranho hábito de devorar as fotos de sua infância, como se mordesse e engolisse antigas lembranças. O gesto inútil é comovente, mas, como em “The woman who disappeared”, soa literal demais para os simbolismos que almeja transmitir. O segundo episódio é melhor que o primeiro, mas ambos decepcionam. Eles valem pelos elencos.

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