Estrela do jazz, Flora Purim chega aos 80 anos com novo álbum, após longo hiato

Cantora lembra trajetória, que contou com trabalhos com nomes como Chick Corea, Dizzy Gillespie e Carlos Santana
Brad Farberman, The New York Times

Flora Purim
Flora Purim é casada desde 1972 com o percussionista Airto Moreira Foto: Mel Gabardo/The New York Times

Certa vez, Flora Purim estava sozinha vendo um show de Miles Davis. Aí Janis Joplin se sentou ao lado dela e nasceu uma amizade. Ao se mudar para New Jersey, Purim descobriu que era vizinha de João Gilberto. Ele a convidou para entrar e a venceu no pingue-pongue. Em 1965, no Bar João Sebastião, em São Paulo, Purim se estabeleceu como cantora de uma banda chamada Sambalanço Trio. Na bateria estava seu futuro companheiro, Airto Moreira. Dá para dizer que o acaso teve um papel descomunal na sua vida.

Mas foi o talento – e não a sorte – que fez de Purim uma estrela da cena do jazz dos anos 1970. Cantora ágil e inventiva mergulhada no místico, Purim estourou quase imediatamente quando se mudou do Brasil para Nova York, em 1967. Depois de uma tentativa malfadada com Stan Getz – ela não queria cantar The Girl from Ipanema, sentindo que a canção pertencia a Astrud Gilberto -, Purim se tornou vocalista do Return to Forever, a inovadora banda de jazz-rock-brasileiro-flamenco de Chick Corea.

Ao lado de Corea, Moreira, o baixista Stanley Clarke e o saxofonista Joe Farrell, Purim gravou clássicos do fusion como 500 Miles High e Light as a Feather. Depois de sair do Return to Forever no início dos anos 1970, a ascensão de Purim foi ameaçada por uma condenação por drogas que a levou à prisão na Califórnia. Mas enquanto Purim estava atrás das grades, George Duke e a banda Santana lançaram álbuns com seus vocais, e não muito depois de sua liberação, no final de 1975, ela assinou um grande contrato com a gravadora Warner Bros. Parar não estava nos planos.

Então veio o trabalho com Dizzy Gillespie e o baterista do Grateful Dead, Mickey Hart. As indicações para o Grammy chegaram em 1986 e 1987. E a década seguinte viu o florescimento do Fourth World, um coletivo com Moreira e o guitarrista brasileiro José Neto. Mas, em termos de álbuns de estúdio, Purim ficou em silêncio depois de Flora’s Song, de 2005. 

Sua música retornou na sexta, 29, com If You Will, álbum premente e luminoso com Moreira na percussão e uma faixa com Duke (If You Will) e outra com Corea (500 Miles High), ambas originalmente gravadas com Purim. O LP é um olhar para o passado e uma investigação sobre o presente, com aquilo que Purim certa vez chamou de sua “abordagem bruta brasileira” ainda em vigor.

Durante uma videochamada de duas horas de sua casa em Curitiba, Purim, que completou 80 anos no mês passado, falou um pouco de tudo: desde a vida na estrada com uma bebê até a fuga da cientologia e uma sessão de estúdio no meio da noite com Carlos Santana. Aqui vão alguns trechos editados da conversa.

O jazz fusion dos anos 1970 era dominado por homens, para dizer o mínimo. Como enfrentava essa cena?

Eles gostavam da minha musicalidade e me aceitavam como musicista. Certa vez, no Royal Festival Hall, eu estava com a banda de Dizzy Gillespie e sabia que eles iam fazer um vídeo daquele show. Naquela época eu andava sempre de calças. Calças de couro bem lindas, blusas bonitas, maquiagem caprichada, mas minhas pernas nunca ficavam de fora. Naquele dia, por ser uma noite de gala, decidi botar salto alto e um vestido que parava acima do joelho. Quando entrei no palco, a banda inteira começou a assobiar para mim. Eu queria morrer. Mas fiquei firme, fiz minha parte. Gosto de me mexer e me agitar e fazer as coisas. De vestido você não se sente muito bem, é constrangedor. Mas de calças você fica livre.

Uma de suas músicas mais conhecidas, ‘Light as a Feather’, foi uma colaboração com Stanley Clarke. De onde veio a letra?

Escrevi a letra viajando de carro para Detroit. A gente ia tocar no Baker’s Keyboard Lounge. Naquela época, eu fazia parte de um lance de cientologia em que o Chick tinha me enfiado. A palavra “claro” era muito usada na cientologia. Quando você passa por algumas das aulas, eles lhe dão duas latas e um medidor – que é tipo um detector de mentiras. No começo, eles fazem perguntas simples. Mas, quando você mente, tende a segurar as latas com mais força ou ficar se mexendo, e eles descobrem seu ponto fraco. Eu não gostei disso. É uma das razões pelas quais saí logo.

Você estava grávida durante a gravação do primeiro álbum do ‘Return to Forever’. Como a gravidez moldou sua música?

Cantei até os seis meses de gravidez. A turnê tinha uma agenda muito pesada. Estávamos no estúdio (para o segundo álbum do Return to Forever, Light as a Feather), e eu tive a bebê. Nenhuma mulher – só machos – e ninguém queria segurar a bebê. E a bebê começava a chorar. Aí estou lá gravando Light as a Feather. E a peguei e dei meu peito e comecei a cantar Light as a Feather. Os bebês não têm dentes, mas suas gengivas apertam para pegar o leite – e dói muito. E cantei tentando não trazer a dor para o meu canto. Aguentei firme com ela no peito. E foi assim que gravei Light as a Feather.

Então você estava amamentando durante a gravação da música?

Não é só isso. Depois fizemos três semanas no Ronnie Scott’s em Londres. Eu estava lá cantando e o dono vinha na frente do palco e apontava para a boca dele, o que significava que a bebê estava chorando no camarim. E eu dizia: “Joe, toque mais cinco passagens. Eu já volto” (risos). Não tinha berço nem nada. Ela ficava dentro de um case de bateria com travesseiros. Aos 8 dias, Diana, minha fonte de inspiração, estava estreando no Ronnie Scott’s.

Você apareceu em álbuns de Carlos Santana e Mickey Hart, do Grateful Dead. Você estava acompanhando o rock dos anos 1960 e 1970 e o que artistas como eles estavam fazendo?

Eu não conhecia muito do mundo do rock, mesmo sabendo quem era o Carlos. Mas eu não ouvia muito a música dele. Ele costumava ir ao Keystone Korner (clube de jazz em São Francisco) quase todas as noites, ficava lá sentado, quase sempre sozinho, só assistindo ao show, sem falar com ninguém. No final da primeira semana, ele esperou até o fim do segundo set, chegou para mim e disse: “Olha só, estou fazendo um disco e ficarei honrado se você e Airto vierem tocar”. E eu disse: “Carlos, são 4 horas da manhã. O estúdio está aberto para mim. Então beleza, vamos lá”.

Mesmo quando você não estava fisicamente no Brasil, o País se fez presente na sua música.

Saí do Brasil por causa do golpe militar. Mas o Brasil nunca saiu de mim. Aqui, sabe? (aponta para o coração). Tem uma palavra que não tem tradução: saudade. E eu canto uma música sobre isso. Eu digo: “Saudade não tem tradução se você nunca sentiu”. Você nunca sente falta das coisas ruins. Só tem saudade das coisas boas.

Você fez uma longa pausa entre este álbum e o último. Quando você estava gravando ‘If You Will’, sentiu um novo senso de propósito ou criatividade?

Quando vi o que estava acontecendo no mundo, senti que Deus não me deu o dom de cantar por acaso. Acho que ele tinha algo em mente. Tenho de ajudar. E não posso mais me omitir diante do que está acontecendo no mundo. Então eu vou levar adiante, vou voltar.  TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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