“Não olhamos para a Faria Lima. Queremos o empreendedor ‘raiz’”, diz investidor da Cloud9

Felipe Affonso (esq.) é sócio-fundador do fundo de investimento Cloud9, junto com Noah Stern e Rafael Serson 
Felipe Affonso (esq.) é sócio-fundador do fundo de investimento Cloud9, junto com Noah Stern e Rafael Serson 

Vindos na maior parte do setor financeiro, os “startupeiros” têm linguagem própria e se mantêm presos ao próprio ecossistema em que estão: ora são fundadores, ora investidores, ora usuários de novos produtos — ou os três simultaneamente. Para empresários de fora desse “clubinho”, entrar no meio é difícil, o que afasta o surgimento de novos talentos e breca a inovação. É algo que o fundo de investimento Cloud9 Capital quer mudar. 

“No Brasil, o empreendedor ‘raiz’ é o cara que dá certo, mas é pouco apoiado pela indústria. Nossa missão é apoiar essa pessoa, que não é tão boa de levantar dinheiro, mas que tem um baita negócio na mão”, afirma Felipe Affonso, sócio da Cloud9, firma de investimento criada em 2021. O apoio citado pelo executivo vem na forma de um fundo de R$ 400 milhões para investimentos em startups do País, com cheques a partir de R$ 50 milhões em até cinco negócios fechados ao ano — o primeiro aporte deve ser anunciado em breve.

A única condição da Cloud9 é que essa startup esteja longe do berço da Avenida Faria Lima, região da cidade de São Paulo que simboliza as startups brasileiras. “Esse cara (que buscamos) está por fora do ecossistema, o que é muito injusto.”

Apesar de buscar nomes “de fora”, a Cloud9 nasceu dentro da própria Faria Lima: os sócios Affonso e Noah Stern são ex-executivos do SoftBank, maior fundo de investimento do mundo e responsável por catapultar diversos nomes no Brasil, como QuintoAndarCreditas e Gympass. Além deles, o outro sócio, Rafael Serson, atuou no braço de private equity do fundo Kinea. 

A aparente contradição é parte da estratégia em ativamente esmiuçar o Brasil em busca de talentos. E é também o diferencial: usar a experiência dos investidores com o mercado para “catequizar” os novos startupeiros e inseri-los no sistema, dando o primeiro cheque institucional à companhia.

Para ser escolhida, a startup precisa cumprir alguns requisitos, como ter faturamento superior a R$ 15 milhões, modelo de negócio pouco intensivo em capital e ser dona de software proprietário. “É uma seleção natural. Se o empreendedor chega a esse estágio sem o apoio de fundos de investimento, invariavelmente é um negócio muito eficiente”, observa Affonso.

O executivo conversou com o Estadão sobre a Cloud9 e o momento das startups nacionais. Leia trechos da entrevista: 

Por que colocar no ar mais um fundo no Brasil?

Apesar de haver muitos deles, todos são focados em um perfil muito parecido de empreendedor. Existem dois tipos de startups: uma é formatada para o modelo de venture capital, e a outra, não. Em uma, o fundador fala um baita inglês, é bem conectado com a indústria de investimento e é bom de levantar dinheiro, porque mostra as métricas certas e fala o mesmo linguajar. No outro perfil, o cara é bom em executar, mas é um cara de fora da Faria Lima. O empreendedor brasileiro é trabalhador, apaixonado pelo que faz. Não é um cara do mercado financeiro, que fala um inglês bom. O “empreendedor raiz” é o cara que dá certo no Brasil e é pouco apoiado pela indústria. Nossa missão é apoiar esse empreendedor.

O risco não é maior ao ir atrás desse empreendedor ‘desformatado’?

Pelo contrário. O empreendedor muito bom em levantar dinheiro nunca quebra, porque sempre levanta rodada. Já o perfil que olhamos tem uma companhia sem dinheiro e sem tanta capacidade de levantar. Mas, dito isso, não pegamos o cara em estágio semente ou inicial. Queremos quem nunca levantou dinheiro institucional, mas quem, pelas próprias pernas, conseguiu bater R$ 15 milhões de faturamento. É uma seleção natural. Se o empreendedor chega a esse estágio sem o apoio de fundos de investimento, invariavelmente é um negócio muito eficiente. Hoje, muita empresa financiada por venture capital não fecha a conta.

Vocês vieram da Faria Lima. Como vocês pretendem ir atrás desse empreendedor à margem do ecossistema? 

Nosso esforço é conseguir encontrar o empreendedor e fazer com que ele nos encontre. Temos estratégias. Primeiro, é de branding, em que vamos colocar muito conteúdo no ecossistema. Outra parte é fazer networking, porque é um perfil que não se encaixa tão bem em outros fundos e precisa de um pouco mais de ajuda.

Segundo investidores, o Brasil tem um número razoável de fundos, mas há poucas boas startups para se investir. Qual é a avaliação da Cloud9?

O que vemos é o contrário. É bizarra a quantidade de empreendedor de qualidade altíssima e já em tração, com até R$ 30 milhões de faturamento. Queremos fazer no máximo cinco negócios por ano, porque, se não nos segurarmos, atingimos esse número em um semestre. Temos de ser disciplinados para aumentar a barra e sermos mais seletivos nas decisões.

Como vai ser feita essa seleção?

Sendo bem sincero, não olhamos para algo muito diferente do que os fundos tradicionais olham. Queremos um fundador fantástico, um mercado grande para ter um ganhador local nacional. Precisa ter barreira de entrada alta para que, à medida que a companhia domine o setor, seja difícil perder o cliente. A grande diferença é que não nos assustamos com fatores negativos, como fundadores despreparados. 

A ideia é buscar mais startups fora do eixo Rio-São Paulo ?

Vamos olhar tudo. Já chegamos próximos de fazer um negócio em São Paulo, outro no Sul, outro em Minas, em Goiânia. Pelo nosso perfil, temos mais empresas de fora da Grande São Paulo do que em outros grupos. Atualmente, nosso portfólio é de 70% fora do eixo Rio-São Paulo.

O que vocês aprenderam com o SoftBank?

O SoftBank tem uma visão de futuro. Visão de olhar não para o que a empresa é agora, mas para a capacidade do time de execução e para o potencial. Como organização, essa coragem é muito animadora.

A Cloud9 prevê uma desaceleração em investimentos em startups?

Sem dúvida. Mas existe uma demora muito importante nos fundos de investimento. Quando qualquer problema macroeconômico ocorre, como inflação e guerra na Ucrânia, o mercado de ações reage no mesmo dia com quedas nos preços. Já no venture capital, os fundos levantaram investimento demais e, hoje, estão capitalizados. Nesse cenário de retração, são mais afetadas as companhias próximas de abrir capital, depois aquelas em estágio mais amadurecido e, depois, estágio inicial. O aumento das taxas de juros é real e vai afetar o valor de mercado das companhias. Mas não vai ser agora, e sim para o final do ano e começo de 2023.

A Cloud9 está preparada para a crise?

A desaceleração já começou. Hoje, já se sente menos negócios rolando. Para o empreendedor, é um momento de cautela.

O que esse novo cenário muda para os fundos e empreendedores?

O impacto é na avaliação de mercado. A empresa vale menos porque o custo de capital subiu. Os unicórnios vão ficar mais raros. Em segundo lugar, o apetite de investidores para entrar nesse segmento diminui. E aí existe menos dinheiro para investir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.