Brasileira Mayara Felix fura bolha masculina na economia e vai dar aulas em Yale

Com doutorado pelo MIT, Mayara Felix cresceu na periferia de Olinda e critica a ideia de meritocracia
Havolene Valinhos

Para a economista Mayara Felix, as mulheres sofrem sobrecarga psicológica para provar que são tão capazes quanto os homens – Adriano Vizoni/Folhapress

Criada na periferia de Olinda, a pernambucana Mayara Felix, 33, terminou em 2021 o doutorado em economia no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, feito que a coloca entre as quatro brasileiras que obtiveram o título (PhD) na área em uma das universidades mais bem avaliadas do país.

Em 2024, Felix fará parte de outro clube seleto ao assumir a cadeira de professora assistente de Economia e Relações Internacionais em Yale, universidade que também figura entre as melhores dos EUA em economia.

A posição da brasileira é cobiçada: o cargo dá ao profissional o aval para permanecer na instituição por, pelo menos, sete anos, além da garantia de poder pleitear a efetivação (tenure) na universidade.

Criada em um bairro da periferia de Olinda, o Jardim Fragoso, Felix refuta a ideia de meritocracia. Ela diz que conseguiu avançar nos estudos por ter contado com uma grande rede de apoio, entre familiares e amigos, além de ter obtido bolsas durante toda a vida.

“Talento e esforço são necessários, mas nem sempre suficientes. Não precisei trabalhar para ajudar nas despesas de casa, portanto pude me dedicar apenas aos estudos. Me considero privilegiada. Claro que éramos pobres, mas a casa era própria. Meu pai era soldado da PM, faleceu em 1998 em um acidente de moto, e nos deixou uma pensão.”

Ela conta que a avó paterna era analfabeta, mas fez com que os 12 filhos estudassem. A avó materna teve sete, trabalhou como empregada doméstica e, mais tarde, com o marido, passou a vender charque em uma barraca.

Apesar das restrições, Felix diz que os avós investiram muito para que os filhos fizessem faculdade. “Hoje, tenho primo que é médico, prima oficial de Justiça, minha irmã é analista de Justiça. Então, tivemos esse enorme apoio familiar.”

Felix conta que conseguiu bolsa em uma escola de inglês, onde foi estagiária em 2006 e ganhava R$ 500. Obteve bolsas de estudo em colégios militares e em cursinhos pré-vestibular. Chegou a cursar um semestre de direito, mas trancou quando teve a oportunidade de fazer faculdade nos Estados Unidos.

Mayara Felix, 33 anos, dará aulas de Economia e Relações Internacionais em Yale, nos Estados Unidos
Mayara Felix, 33 anos, dará aulas de Economia e Relações Internacionais em Yale, nos Estados Unidos Adriano Vizoni/Adriano Vizoni/Folhapress

Na Mount Holyoke College ela acabou se interessando por economia. Todo o processo de inscrição, inclusive passagens, foi pago por um programa americano, diz. “A bolsa quem deu foi a própria faculdade, com um custo total por ano de US$ 50 mil. Paguei apenas alguns custos anuais, trabalhando na própria universidade: no refeitório e como tour guide da faculdade.”

Ela também trabalhou por três anos (2011 a 2014) em uma empresa como consultora econômica e entre 2014 e 2015 foi assistente de pesquisa do Nobel de Economia 2021, Joshua Angrist.

“Gosto de desromantizar o meu caminho. O que falo para as pessoas é que não tenham vergonha de pedir bolsas de estudo, de conversar com as pessoas, de saber para onde ir. As conquistas levam tempo, mas não há mérito em inventar a roda, é necessário ser estratégico.” ​

Em um meio dominado por homens brancos, Felix diz que ser mulher e estrangeira pesa na conquista de espaço. “A profissão é praticamente de homens brancos, além de ser um ambiente muito classista”, diz.

Felix conta que já precisou intervir em conversas ao ouvir comentários de colegas homens duvidando da capacidade de mulheres na área econômica.

“Ainda ouvimos piadas desse tipo. É uma situação cansativa, pois, apesar de ser focada, tento evitar que isso me afete, não posso fazer apenas a minha parte [como a maioria deles faz], pois nós [mulheres] precisamos provar o tempo todo que somos capazes”, diz.

No Brasil, Felix se declara branca, mas, nos EUA, é, segundo ela, vista como latina. Em seminários, por exemplo, por ser a única mulher ou a única latina na sala, sabe que o que ela ou outra colega fala pode ser interpretado como algo representativo de um grupo inteiro.

“Isso pode fazer com que você queira se esquivar, ter medo se errar ou perguntar algo e parecer que não entende do assunto. Muitas das mulheres com quem converso sofrem disso na academia, especialmente em certas disciplinas majoritariamente masculinas. A mesma coisa acontece com alunos negros ou hispânicos”, diz.

TESE DE DOUTORADO

Mayara Felix defendeu, em 2021, tese de doutorado cujo artigo principal analisou os efeitos da liberalização do comércio exterior nos anos 1990 sobre o mercado de trabalho brasileiro.

Ela mostra que a abertura diminuiu salários e aumentou a concentração dos mercados de trabalho mais expostos à concorrência de importados, evidenciando um alto nível do poder de mercado das firmas sobre seus trabalhadores.

A queda salarial se deu pela perda de receitas das firmas sobreviventes que, com a abertura, já não podiam cobrar altos preços. Em suma: perda para o trabalhador, ganho para o consumidor.

“Fui estratégica ao escolher o tópico do meu artigo principal. Procurei um tema rico o suficiente não apenas para preencher os requisitos de um artigo bem-sucedido (pergunta importante, motivação teórica, dados ricos etc), mas, principalmente, para me manter curiosa durante todo o longo processo de pesquisa.”

Campus MIT (Massachusetts Institute of Technology) – Joe Raedle/Getty images North America/AFP 22 fev.2006

Para além da curiosidade intelectual, ela diz que ter vivido a abertura dos anos 90 sob a perspectiva da periferia fez com que quisesse entender se a abertura aumentou ou não o poder de mercado das firmas sobre seus trabalhadores.

“A impressão que tinha durante a infância era a de que empresas realmente exploravam seus trabalhadores, especialmente os menos instruídos: não pagavam o que deveriam, os tratavam com desdém. Teria sido a minha impressão enviesada? Era representativa para os meus pais como um todo? A abertura mudou ou perpetuou isso? Essas e outras perguntas me mantêm até hoje interessada em entender quão competitivo o mercado de trabalho brasileiro realmente é, e como podemos aumentar tal competitividade. E isso deveria ser de interesse de todas as camadas sociais. A baixa competitividade é ruim para a economia como um todo, não só para os trabalhadores diretamente afetados.”

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