A guerra baixa uma nova cortina de ferro sobre os palcos de balé da Rússia

Artistas da dança russos falam sobre como a guerra pode impactar um dos grandes destaques do país
Por Alex Marshall

Smirnova agora dança no Dutch National Ballet, em Amsterdã.
Smirnova agora dança no Dutch National Ballet, em Amsterdã. Foto: Melissa Schriek/The New York Times

THE NEW YORK TIMES – LIFE/STYLE – Poucos dias depois da invasão da UcrâniaOlga Smirnova, uma das mais importantes bailarinas da Rússia, postou uma declaração emocionada no aplicativo de mensagens Telegram: “Sou contra a guerra, do fundo da alma. Nunca pensei que teria vergonha da Rússia, mas agora sinto que foi traçada uma linha que divide o antes e o depois.”

Isso efetivamente é verdade para Smirnova, de 30 anos. À medida que a guerra piorava e a dissidência era esmagada na Rússia, a bailarina, que estava em Dubai se recuperando de uma lesão no joelho, percebeu que não poderia mais voltar para casa. “Se eu voltasse para a Rússia, teria de mudar completamente minha opinião, meus sentimentos em relação à guerra”, declarou em entrevista recente em Amsterdã, acrescentando que voltar seria “francamente perigoso”.

Assim, desligou-se do Bolshoi, famosa companhia cujo nome é sinônimo de balé, com seus luxuosos teatros a poucos quarteirões do Kremlin, cortou todos os laços e se mudou para Amsterdã, onde entrou para o Dutch National Ballet.

A bailarina Olga Smirnova pediu demissão do Bolshoi após se colocar contra a invasão russa à Ucrânia.
A bailarina Olga Smirnova pediu demissão do Bolshoi após se colocar contra a invasão russa à Ucrânia.  Foto: Melissa Schriek/The New York Times

A partida de Smirnova é um golpe no orgulho de uma nação onde, desde o tempo dos czares, o balé é considerado tesouro nacional, principal produto de exportação cultural e ferramenta de soft power. Sua atitude é um dos símbolos mais visíveis de como a invasão russa da Ucrânia desestabilizou o balé, à medida que importantes artistas evitam as famosas companhias de dança da Rússia, teatros ocidentais cancelam apresentações do Bolshoi e do Mariinsky, e a dança na Rússia, aberta para o mundo desde o colapso da União Soviética, parece estar se fechando novamente.

“Estamos voltando à Guerra Fria”, afirmou Ted Brandsen, diretor artístico do Dutch National Ballet e novo chefe de Smirnova, invocando uma época famosa pela deserção de astros e estrelas soviéticos da dança, incluindo Rudolf NureyevMikhail Baryshnikov e Natalia Makarova. Brandsen contou que bailarinos russos o contatavam diariamente, dizendo: “Não consigo ser eu mesmo como artista neste país.”

Simon Morrison, professor de Princeton e historiador do Bolshoi, observou que nos últimos anos o Bolshoi se tornara “mais liberal, internacional, cosmopolita, mais experimental”, tendo chegado a encenar um balé sobre Nureyev que mencionava sua homossexualidade. Agora, segundo ele, parecia haver “um empobrecimento do repertório”.

O balé é um tipo de passatempo nacional na Rússia – uma joia cultural, mas também o foco de intensa emoção e críticas atentas de um público experiente, embora seja menos popular entre os jovens obcecados pela cultura pop. “O balé é adorado pelo povo russo como em nenhum outro lugar no mundo”, disse David Hallberg, que em 2011 se tornou o primeiro bailarino americano a integrar o elenco principal do Bolshoi, meio século depois que Nureyev se tornou o primeiro grande bailarino soviético a desertar para o Ocidente. “Smirnova foi muito corajosa ao deixar o Bolshoi, já que não estava só deixando a companhia, mas uma instituição que está em seu DNA”, acrescentou ele.

Smirnova não é a única artista de elite a deixar a Rússia. No primeiro dia da guerra, Alexei Ratmansky, importante coreógrafo e ex-diretor artístico do Bolshoi, estava em Moscou ensaiando um novo projeto. Imediatamente, pegou um voo de volta para Nova York, onde é artista residente do American Ballet Theater, e comentou que é pouco provável que retorne à Rússia “se Putin ainda for o presidente”.

Laurent Hilaire, o diretor francês do Balé Stanislávski e Niemiróvitch-Dântchenko, de Moscou, renunciou poucos dias depois do início da guerra. E vários outros dançarinos, em sua maioria estrangeiros, também partiram, incluindo Xander Parish, britânico; Jacopo Tissi, italiano; e David Motta Soares e Victor Caixeta, brasileiros. Caixeta, solista em ascensão, agora é parceiro de Smirnova em Amsterdã.

Desde o início da invasão russa, muitos governos europeus determinaram que suas instituições culturais, incluindo as companhias de dança, não trabalhassem com órgãos do Estado russo, como o Mariinsky e o Bolshoi. O Dutch National Ballet cancelou uma visita do Mariinsky, desistiu de um festival de balé em São Petersburgo e parou de colaborar com o Concurso Internacional de Balé de Moscou, programado para junho no Bolshoi.

Obras de diversos coreógrafos ocidentais importantes podem desaparecer dos palcos russos, já que os detentores dos direitos destas suspenderam a colaboração com companhias russas. Nicole Cornell, diretora do George Balanchine Trust, que detém os direitos da obra do coreógrafo, escreveu em um e-mail que “foram pausadas todas as conversas sobre licenciamentos futuros” com companhias russas. E Jean-Christophe Maillot, coreógrafo francês e diretor do Les Ballets de Monte Carlo, informou por e-mail que pediu ao Bolshoi que suspendesse as apresentações de seu balé A Megera Domada, mas que o diretor-geral, Vladimir Urin, recusara: “Essas condições obviamente dificultam a retomada da colaboração com o Bolshoi.”

Representantes do Bolshoi, do Mariinsky e da Academia de Balé Vaganova recusaram os pedidos de entrevista para este artigo ou não responderam a eles.

Em Amsterdã, Smirnova declarou que seu futuro é “nebuloso” e que não quer arriscar um palpite sobre o futuro do balé russo. Mas comentou que haverá “muito menos convites para coreógrafos internacionais e muito menos montagens de obras internacionais”. Isso significa que os bailarinos russos terão menos oportunidades de desenvolvimento, ainda que “a coleção dourada de obras do Bolshoi” – seus balés clássicos – permaneça.

Smirnova e Caixeta, seu novo parceiro de cena, ensaiam breve dueto romântico da peça 'Raymonda'.
Smirnova e Caixeta, seu novo parceiro de cena, ensaiam breve dueto romântico da peça ‘Raymonda’. Foto: Melissa Schriek/The New York Times

A família de Smirnova é um exemplo da crescente lacuna entre a Rússia e o Ocidente. Ela só contou à mãe que se mudara para Amsterdã depois de assinar o contrato. “Para ela, o Teatro Bolshoi é o ápice. Minha mãe não entende a razão da mudança”, disse Smirnova.

Houve relativamente pouca cobertura da partida de Smirnova na mídia estatal russa, mas é possível sentir o peso emocional do evento nos comentários dos fóruns russos sobre balé: um usuário do fórum Passion Ballet, por exemplo, escreveu a Smirnova em março: “Já vai tarde; nunca foi interessante ver esse bacalhau congelado dançar”.

Segundo Hallberg, embora as implicações para o Bolshoi e para o Mariinsky ainda estejam em curso, “é triste pensar que companhias tão importantes não vão poder compartilhar sua beleza e seu domínio do palco com o mundo”.

E, no entanto, de acordo com a maioria dos observadores, o Bolshoi e o Mariinsky sobreviverão a este momento. Morrison observou que o Bolshoi já fora usado para fins políticos, pelos czares da Rússia e depois pela União Soviética, e que seu teatro sobreviveu a incêndios (mais de um) e à transformação em salão de convenções políticas. “Ele vai viver mais do que esses políticos.”

Smirnova concorda. “Os regimes mudam, e o Bolshoi fica”, ela disse no fim da entrevista de uma hora de duração, antes de dar um beijo rápido no marido e descer para ensaiar Raymonda com seu novo parceiro, Caixeta.

Smirnova e Caixeta ensaiaram um breve dueto romântico, durante o qual a bailarina parou para aperfeiçoar todos os mínimos detalhes – uma perna estendida atrás da cabeça, um momento em que pegou as mãos de Caixeta -, embora tudo já parecesse perfeito.

Foto: JAMES HILL

Ao ouvir as instruções de Larissa Lezhnina, mestra de balé que fala russo e inglês, Smirnova demonstrava extrema concentração. Depois abriu um largo sorriso e deu uma risadinha quando Lezhnina fez uma piada sobre a posição de seu traseiro durante uma sequência. No meio de um estúdio de balé, pela primeira vez naquele dia, Smirnova parecia se sentir em casa.

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