Cresce o número de criadoras de conteúdo digital que tratam de sexualidade, prazer e saúde íntima

Uma pesquisa de 2018, realizada pela Bayer com 1.500 mulheres de 16 a 25 anos, apontou que apenas 17% tiram dúvidas nos consultórios de ginecologistas
Por Ines Garçoni

Mulheres falam sobre sexualidade feminina na internet — Foto: Banco de imagem

A vulva virou moda na redes e, ao que tudo indica, veio para ficar. Nunca se falou tanto nem tão abertamente sobre saúde sexual, prazer feminino e temas afins. Há incontáveis perfis de influenciadoras que se dedicam ao assunto e têm visto aumentar o número de seguidores e, sobretudo, seguidoras nos últimos dois anos. São médicas ginecologistas, sexólogas, especialistas em ginástica pélvica, jornalistas e até mulheres sem formação específica interessadas em compartilhar suas histórias e conhecimentos sobre sexo. Em comum, todas usam e abusam da leveza, do humor e da linguagem didática para quebrar tabus, com posts que vão desde “Cinco mitos sobre a menstruação” até “Posições para gozar melhor com penetração”, passando por “Sexo anal não precisa doer”.

Pioneira no métier Catia Damasceno, fisioterapeuta de Brasília especializada em saúde pélvica feminina e pompoarismo, entrou nas redes em 2013 e, de lá para cá, viu muita coisa mudar neste universo virtual. Hoje, com mais de 9 milhões de inscritos o YouTube e quase 7 milhões de seguidores no Instagram, ela é, sem dúvida, a “genital influencer” de maior audiência no país. “O interesse e a curiosidade aumentaram muito nos últimos tempos. A tecnologia e a facilidade de acesso a vídeos tornaram a sexualidade um assunto do dia a dia. Há quase dez anos, quando comecei, eu tinha dificuldades até para conseguir entrevistados”, lembra Catia, que chega a receber, por dia, cerca de três mil mensagens inbox de mulheres só no Instagram — elas são 94% dos seus seguidores, garante — com perguntas e elogios.

“Maneirar na linguagem faz toda a diferença. Sem ser vulgar nem abusar de termos técnicos, consigo falar em todas as plataformas e em qualquer horário”, acredita Catia. A influencer também roda o país com um espetáculo de stand up e ainda vai estrear no cinema, interpretando a si mesma, ao lado de Giovanna Antonelli, na comédia romântica “Apaixonada, o filme”.

Entre as dúvidas mais comuns e os temas de maior interesse estão o orgasmo e o desejo sexual, conta a ginecologista paulista Marcela McGowan, que desde 2017 mantém um perfil no Instagram, hoje com 6,2 milhões de seguidores, dedicado a estes e outros tópicos. “Além disso, me pedem muito vídeos sobre métodos contraceptivos, menstruação e corrimentos, higiene íntima, etc. As pessoas carecem de informações básicas e alguns temas precisam ser recorrentes nos posts”, observa a médica que, depois de participar do “Big Brother Brasil” em 2020, viu sua audiência explodir e não abandonou a proposta inicial de sua conta na rede. Pelo contrário. Aprofundou-se nos estudos e mudou a forma de se comunicar para atingir um público cada vez maior.

“Antes do BBB eu dava informações de um jeito mais careta. Hoje são vídeos rápidos, leves, com humor e a música do momento”, conta. Marcela vê um interesse crescente por informações “claras e transparentes”: “Antigamente quase não existiam perfis assim, só a Catia Damasceno”, diz. “As mulheres chutaram a porta. Pela primeira vez, o prazer feminino está em foco. Mas ainda há muito a ser falado”, acredita. Hoje, ela também apresenta o programa “Prazer, feminino”, ao lado de Karol Conká, no GNT.

Ainda que muitos temas sejam tratados abertamente e sem constrangimento, as influenciadoras são unânimes em dizer que a desinformação é generalizada por parte da audiência. Gaia Qav, educadora e criadora da conta no Instagram @meuclitorisminhasregras, esteve na Avenida Paulista, num domingo de abril, fantasiada de vulva. A ideia era pedir para os transeuntes apontarem o clitóris. “Para a minha ‘zero’ surpresa, ninguém sabia. Até pessoas da área de saúde erraram”, conta Gaia.

Uma pesquisa de 2018, realizada pela Bayer com 1.500 mulheres de 16 a 25 anos, apontou que apenas 17% tiram dúvidas nos consultórios de ginecologistas. “O medo de perguntar ainda é tão grande que, muitas vezes, as pessoas não conseguem sequer nomear os órgãos genitais”, diz Gaia. “Ainda há muito tabu para ser quebrado.”

A mesma pesquisa revelou que 41% das jovens brasileiras não conversam em casa sobre sexo. “Os pais que acham que seus filhos e filhas de 13, 14 anos não tiveram contato com a sexualidade na internet são alienados”, afirma Catia. “Infelizmente, muitos pensam que quanto mais cedo o adolescente descobre o assunto, mais cedo vai iniciar a vida sexual, mas vários estudos provam o contrário: quanto menor tabu, mais tardiamente eles começam”, explica.

Se, nas redes, meninas e mulheres se sentem à vontade para perguntar, também é fato que as “genital influencers” não aprofundam os temas como um médico deveria fazê-lo ao vivo. “A rede naturaliza e faz com que os assuntos sejam mais discutidos, mas quem chegou ali já deveria saber muita coisa. É um conhecimento tardio, sem dúvida”, diz Marcela, que alerta também para os conteúdos sem embasamento científico — “é importante saber quem está falando”, avisa. Para ela, só a educação sexual nas escolas e em casa pode levar a uma mudança de mentalidade de fato nos consultórios, fazendo com que as mulheres se sintam “tranquilas para perguntar”.

Mas, se o constrangimento é a tônica da relação ginecologista-paciente, ele passa longe da maioria das influenciadoras de sexualidade. A atriz carioca Bya Feliciano começou a narrar com bom humor suas histórias sexuais no Instagram, sem papas na língua — ela não aborda assuntos de saúde por não ter formação específica. “Falar sobre sexo sendo negra e gorda não é fácil, porque, entre outras coisas, a maioria das mulheres negras com formação universitária, como eu, acham que não podem ser sexuais”, justifica. “Eu gosto de dizer que sou uma piranha de canudo”, brinca Bya, para quem muitas mulheres negras tolhem seu prazer por terem, ao longo da vida, seus corpos hipersexualizados pela sociedade: “Elas têm medo de como serão vistas”, diz.

Assim como Bya, várias influenciadoras começaram ou cresceram na pandemia: uma vez que outras fontes de prazer da vida foram suprimidas, só restou o sexo. “Esse movimento já existia, mas o lockdown o ampliou porque as mulheres foram pressionadas a se descobrirem sexualmente, seja pelo autoprazer ou para melhorar o relacionamento em casa”, analisa a sexóloga Luciane Ângelo. “A partir do momento em que as mulheres começaram a olhar para si mesmas, não tem mais volta”, conclui. Professor de Mídias Digitais da ESPM, William Rocha observa que o crescimento deste tipo de conta pode ser explicado também pelo chamado “comportamento de nicho”, característico das redes sociais. “Quanto mais se produzem conteúdos específicos sobre determinado tema, mais os algoritmos impulsionam a audiência desse tema”, diz. E haja audiência.

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