Apple: revolucionando a gestão no mundo (menos dela mesma)

POR DERSON LOPES

Desde sua fundação, a Apple procurou se posicionar como uma empresa disruptiva e de vanguarda. No clássico comercial inspirado no filme 1984, de George Orwell, a empresa colocou os executivos que ainda utilizavam IBM (maior player e concorrente na época) como zumbis seguindo um antigo sistema de gestão.

No decorrer dos anos, a empresa se autodenominou uma empoderadora de sonhos, provedora de recursos para mentes criativas e capaz de dotar pessoas com o poder de mudar o mundo. Recentemente, a empresa desenvolveu a campanha Apple at Work, com uma equipe de profissionais que já apareceu em três esquetes bem humorados e ousados, demonstrando como as ferramentas de produtividade e os devices da organização podem facilitar e revolucionar o trabalho. O último deles apresenta a equipe recusando-se a voltar para o trabalho presencial e liberando seu espírito empreendedor com uma empresa de caixas.

Tudo muito bonito e inspirador, exceto por um item: a Apple vive mais do que nunca em uma personificação do ditado “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Prova disso é a recente polêmica que a empresa enfrenta ao obrigar seus colaboradores a retornar aos escritórios. Aliás, alguns parecem estar se inspirando no próprio comercial da companhia e ameaçando deixar a corporação — um já deixou, inclusive

Fato é que, embora tenha promovido inegáveis e revolucionarias inovações no mundo (não é a toa que somos fãs da empresa e estamos aqui lendo isso numa página voltada especialmente a acompanhar seus lançamentos), a Apple nunca foi um ícone em seu modelo de administração. Vamos analisar um pouco mais profundamente essa afirmação. 

Nos dias de Steve Jobs

Sim, eu sou fã de Steve Jobs e provavelmente você também é. Quando li a sua biografia, escrita por Walter Isaacson — ignore todos os filmes sobre Jobs e leia esse livro! —, tive a certeza de que somente alguém tão desequilibrado quanto ele poderia realizar mudanças tão grandiosas quanto as que ele fez.

Apesar disso, não se pode negar a realidade: Jobs não era um bom líder.

Executivos da Apple
Da esquerda para a direita: Phil Schiller, Tony Fadell, Jony Ive, Steve Jobs, Scott Forstall e Eddy Cue

Existem incontáveis relatos de pessoas que ficaram doentes, ansiosas e chegaram até mesmo a deixar a empresa por não suportar os ataques de raiva do ex-CEO1. Todos lemos com pesar a história da demissão de Jobs da empresa que ele mesmo havia fundado, mas uma análise fria e menos apaixonada nos fará concluir que, como gestor, ele realmente fazia mal a empresa. Não vou nem citar aqui o difícil relacionamento com seu sócio Wozniak e com suas relações familiares, por considerar que são assuntos mais complexos de se analisar no contexto profissional. 

Os anos e desafios fora da Apple promoveram um amadurecimento muito saudável em Steve, mas não o suficiente. Microgerenciamento, desrespeito, ofensas, visão dicotômica de seus colaboradores (idiotas ou heróis), visão essa que podia se alterar em minutos… são algumas das características nada agradáveis de nosso admirado inovador. O próprio mago do design da Apple, Jony Ive, relatou à Isaacson que ficava inseguro e receoso quando ficava responsável por escolher o hotel ou restaurante para alguma viagem com Jobs, pois não se podia prever sua reação diante de um descontentamento em um mau atendimento.

Podemos encontrar muitos adjetivos para Jobs: inovador, revolucionário, sonhador, entre outros. Mas bom líder certamente não é um deles. Provavelmente se fosse hoje, o big boss estaria enfrentando processos de assédio moral.

Pensando na empresa como um todo, enquanto as famosas organizações do Vale do Silício como Google, LinkedIn, Netflix e Facebook (agora Meta), começaram a ficar famosas pelos escritórios descolados, horários de trabalho flexíveis, ambiente acolhedor, free food, entre outros benefícios, não encontramos muitas reportagens ou relatos de ambientes semelhantes na Apple. 

A gestão Tim Cook

Com a lamentável morte de Jobs, Tim Cook foi escolhido pelo próprio fundador para ser seu sucessor. Cook já estava na empresa como COO2 e foi alçado ao posto de CEO por sua competência e assertividade.

Tim Cook e Steve Jobs
Tim Cook e Steve Jobs

Com a difícil tarefa de suceder uma das personalidades mais admiradas no mundo, Cook iniciou seu trabalho de maneira discreta, mas consciente. Muitos questionaram sua capacidade de inovar e manter a empresa em seu crescimento e expansão; houve até quem decretasse profeticamente a morte da empresa.

Mas o que aconteceu foi justamente o contrário. Com seu estilo mais ponderado e relacionamento mais estruturado, Tim conduziu a empresa em seu maior crescimento da história, sendo inclusive elogiado por Warren Buffett, um dos maiores investidores do mundo e acionista da empresa, como um dos melhores CEOs do planeta.

Com tudo isso, no entanto, a empresa ainda não conseguiu se tornar inovadora em sua gestão. Conhecemos a visão de Cook, preocupada com a diversidade, o meio ambiente, o engajamento da Apple em causas sociais e globais (como o auxílio durante a pandemia da COVID-19 e o suporte à Ucrânia na guerra), mas o que sabemos sobre avanços na gestão de pessoas? Quais as mudanças significativas que encontramos na maneira de ser conduzida? Como seus colaboradores têm sido valorizados ou seu trabalho flexibilizado?

Ao contrário, temos acompanhado polêmicas como o caso #AppleToo, a desastrosa contratação e demissão poucos dias depois de um executivo bastante controverso em suas alegações, pouca representatividade de minorias no C-level e o recente caso do trabalho remoto vs. presencial. 

Conclusão

Inúmeras discussões são promovidas quanto à capacidade da Apple em inovar nos seus produtos, mas e a inovação em gestão? Falamos sobre a escassez de chips, mas, e a escassez de talentos que assola o mercado de tecnologia? Fenômenos interessantes têm sido analisados, como o número crescente de pessoas que pedem demissão do seu trabalho ou os debates sobre a semana de quatro dias de trabalho (já em teste por alguns escritórios da rival Microsoft), mas nada se lê sobre a Apple nesses cenários.

Algumas perguntas ficam no ar: será preciso ser desequilibrado para promover inovações disruptivas? Apesar de todo seu glamour, continuará a Apple a atrair os talentos necessários para a sua expansão? Será Cook ainda o responsável por mudanças significativas no modelo de trabalho da empresa ou a sua aposentadoria (já comentada recentemente) abrirá espaço para um novo CEO com visão mais arrojada, que promoverá uma revolução interna?

Considero um privilégio viver em tempos de tantas mudanças no mundo, especialmente no contexto profissional e tecnológico. Espero que possamos ver a Apple avançando também nessa área e contribuindo com seu exemplo para outras companhias no mundo.

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