Estrela de novo ‘Top Gun’, Jennifer Connelly celebra a independência feminina

Jennifer Connelly — Foto: Getty Images

Trapaça do calendário, na semana em que Jennifer Connelly conversou com ELA vazou o esboço de um documento da Suprema Corte americana com potencial impacto para a legalidade do direito ao aborto nos Estados Unidos, estabelecido em decisão da própria instituição em 1973. Foi um terremoto, com impacto global. Pois a protagonista de “Top gun: Marverick”, sequência do clássico pop de 1986 que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, foi direto ao ponto:

“Este fato que acaba de ser revelado sublinha a importância de todos nós, que vivemos em democracias, expressarmos nossa opinião em alto e bom som. E votar, votar, votar. Aqui nos EUA, precisamos fazer isso já, em novembro, nas eleições do meio de mandato, que incluem boa parte do Congresso e governos e legislativos estaduais”, disse, em entrevista por vídeo.

Uma das vozes mais lúcidas em Hollywood na defesa da importância — real e simbólica — das denúncias do #metoo contra predadores sexuais na indústria do cinema, a atriz de 51 anos vive no novo “Top gun” uma personagem que foi apenas citada em um diálogo no filme original. Uma certa Penny, filha de um almirante, que o danadinho tenente Pete “Maverick” Mitchell de Tom Cruise havia deixado a ver navios.

Pois agora, linda de viver, Penny Benjamin surge na telona como uma comerciante bem-sucedida, dona de um bar frequentado por cadetes e oficiais, que cria sozinha a filha e, quando a tarde permite, veleja sem rumo certo, sem dar satisfação a ninguém. No argumento do filme, ela é definida como “uma pessoa independente e feliz”.

“É isso mesmo. E este foi justamente um dos motivos centrais para eu abraçá-la. Você logo percebe que Penny e Maverick devem ter se visto de novo, tiveram suas tretas, durante este hiato em que estiveram fora das telas. Tem história, claramente, entre os dois. Mas isso não significa que ele irá desviá-la do que ela quer. Ele pode, quem sabe, caber no que ela quer. Aí, sim, ótimo, tudo bem. Gostei muito de ela ser assim, sem grilos e encarando os desafios com humor (risos)”, diz la Connelly.

Jennifer Connelly — Foto: Getty Images
Jennifer Connelly — Foto: Getty Images

Sucesso de bilheteria, com impressionantes, para a época, US$ 357 milhões arrecadados em cinemas mundo afora, “Top gun: ases indomáveis” tinha a estrutura básica de um típico filme de ação. Mas ganhou amplitude com cenas inventivas de batalhas e perseguições aéreas, uma trilha sonora puxada pela chiclética “Take my breath away”, da banda californiana new wave Berlin, e os olhos grudados de fãs de todos os gêneros em Cruise, aos 24 anos, disputando partidas de vôlei com recrutas descamisados nas areias escaldantes da Califórnia.

O elenco também contava com um Val Kimer ainda galã (e sim, o tenente Tom “Iceman” Kazansky está de volta, mas, ao contrário de Maverick, ele galgou posições na hierarquia militar, embora a saúde não ande lá essas coisas), e as loiríssimas Kelly McGillis (como a instrutora Charlie Blackwood, interesse amoroso de Maverick) e Meg Ryan (vivendo a mulher do melhor amigo de Maverick, Nick “Goose” Bradshaw, papel de Anthony Edwards, que morre em ação de forma trágica).

A trama do novo filme fica mais veloz justamente quando o filho de Goose, o Bradley de Miles Teller, também piloto de caças, precisa ser treinado por Maverick, e nuvens do passado voltam à tona.

Jennifer Connelly e Tom Cruise — Foto: Getty Images
Jennifer Connelly e Tom Cruise — Foto: Getty Images

“Tinha 15 anos e já era atriz quando vi o filme no cinema. Lembro como se fosse hoje. Prestei atenção. Tom Cruise já era icônico, já era ‘o’ Tom Cruise. Quando ele montava naquela moto com os óculos escuros de aviador e a jaqueta de couro, gente, aquilo virou uma das imagens eternas do cinema”, diz.

O foco na nostalgia, razão óbvia de ser da sequência, não incomoda a atriz, casada há 19 anos com o ator britânico Paul Bettany (o Visão do universo Marvel), 50, com quem teve dois de seus três filhos, Stellan, 18, e Agnes, 13 (o pai de Kai, 24, é o diretor David Dugan): “Quando reencontrei o Maverick, e em cena, senti que tem mesmo essa coisa única de você poder reencontrar aquelas pessoas, todas né?”, pergunta, respondendo.

Um mês antes da estreia mundial de “Top gun: Maverick”, Jennifer Connelly abriu sua conta no Instagram. O primeiro post traz, em sequência, um close da atriz com um de seus gatos, os dois jogados confortavelmente em um sofá amarelo; o pôr do sol de um dia glorioso em Manhattan, capturado do lado de lá do East River, de sua casa no exclusivo bairro de Brooklyn Heights; uma imagem fofa da filha mais nova, de costas, andando de bicicleta em um parque nos arredores de casa e uma imagem pra lá de romântica de um abraço com o marido em outro fim de dia, desta vez com a Grécia por cenário. A legenda dela é engraçadinha: “Ih, me disseram aqui que isso é photo dump”

Uma das justificativas dadas por Jen, como é chamada pelos mais próximos e agora os nem tão assim, para sua entrada, ainda que tardia, no universo das redes sociais, foi a de vir se percebendo uma “espécie de dinossauro”, que, finalmente “estava entrando no século XXI”.

As noções de tempo e exposição pública são compreensivelmente nebulosas no caso de “Jen”. Para os espectadores, afinal, ela esteve ao alcance de uma sala de cinema desde sempre.

A atriz apareceu na telona pela primeira vez em “Era uma vez na América”, de Sergio Leone, quando era uma adolescente de 13 anos. Dois anos depois, enquanto Cruise sorria branquinho em “Top gun”, ela é quem tirava o fôlego com a Sarah de “Labirinto — a magia do tempo”, em que atuou ao lado de ninguém menos que David Bowie. E foi num outro set, o de “Uma mente brilhante”, de Ron Howard, em 2002, que conheceu o futuro marido. Por sua Alicia Nash, também levou pra casa o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Nas semanas seguintes ao photo dump, além do inevitável trailer do filme, dos registros das premières de “Top gun: Maverick” e dos bastidores de uma cena de avião (calma, não é um caça) pilotado por Tom Cruise, destacam-se no “insta” da atriz reproduções de ensaios feitos para capas recentes de revistas como a Vogue grega, a Harper’s Bazaar mexicana e a Elle italiana. Para a conversa com a imprensa internacional, vestiu um Louis Vuitton preto.

“Comecei a trabalhar quando modelo aos 10 anos e não pensava sobre a moda com profundidade. Depois vieram os tapetes vermelhos, as revistas, as parcerias e, mais importante, um de meus melhores amigos e pessoas favoritas na vida, o Nicolas Ghesquière (que assina as coleções femininas da L.V.). Ele influenciou diretamente meu estilo e semeou em mim um gosto, um olhar especifico. Minha conexão com a moda vem toda dele”, conta.

Nos figurinos do novo filme, o despojamento da costa oeste americana com um quê retrô impera sem medo de ser feliz nos anos 1980. E às camisetas brancas e calças jeans de Maverick se somam peças mais casuais para sua Penny.

“Adoro que Maverick siga com sua imagem parecida com a do jovem piloto dos anos 1980, só que mais velho. E entendo que, por uma série de motivos, ele precisava mostrar aos fãs, inclusive com o que veste, ser o mesmo personagem. Mas o que acabou acontecendo é que mostramos que boa parte daquela expressão não está datada, não ficou presa lá atrás”, diz a atriz, que lembra do visual sex symbol da McGillis de 1986, “que também provou ser duradouro”.

Hoje com 64 anos, Mc Gillis não foi cogitada para participar do novo filme. Durante as filmagens, declarou que não esperava o convite, pois estava “velha e gorda”, fora dos padrões do cinemão americano.

“Admiro muito o trabalho dela no original e penso que, de certa forma, a Charlie dela estava à frente de seu tempo, abriu portas para minha Penny, pois já era quem dava as cartas naquela relação. Foi uma decisão importante do roteiro, inclusive, apresentá-la como superior hierárquica, ‘chefe’ de Maverick”, diz Jennifer Connelly.

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