Dia Internacional da Menstruação: como o mercado de higiene menstrual evoluiu nos últimos anos

Com uma projeção de crescimento global de quase sete bilhões de dólares até 2025, o setor de cuidados íntimos enfrenta desafios que vão muito além da inovação e do lucro
GIULIANA CURY

No Dia Internacional da Higiene Menstrual, a Vogue faz um panorama sobre o mercado nacional do menstrual care (Foto: Harley Weir/Art Partner)

A conta é simples: na média, uma pessoa tem aproximadamente 450 ciclos menstruais durante a vida. O que equivale a cerca de sete anos. Durante o período menstrual, a expectativa é de que sejam usas mais ou menos 20 absorventes por ciclo, chegando à conta de quase dez mil absorventes higiênicos durante toda a idade fértil.

Analisando os números levantados pelo Fluxo Sem Tabu, projeto que fornece artigos de higiene íntima para vulneráveis, dá para enxergar o potencial desse mercado. Some-se a isso, mais esse dado: no Brasil, 30% da população menstrua. São 60 milhões de pessoas, segundo apuração da Girl Up, um movimento da Fundação das Nações Unidas para a igualdade de gênero, feita com base nos dados do Censo (IBGE, 2010). Sessenta milhões de potenciais consumidores de absorventes.

Com tanta gente menstruando, é natural que o setor global do segmento aumente na casa dos bilhões, como apontado pela agência americana MarktsandMarkts. No Brasil, a venda de absorventes também apresentou crescimento: foram quase 21% em 2021, segundo a ABIHPEC. Os números podem passar a impressão de que o cenário é positivo no mundo da higiene íntima. Mas não é. E no Dia Internacional da Higiene Menstrual, lembrado neste 28 de maio e que traz luz a como o mercado acolhe pessoas que menstruam, Vogue mergulha no tema.

Coletor menstrual (Foto: Getty Images)

Por mais difícil que seja acreditar, em pleno século XXI, mais de 500 milhões de mulheres em todo o mundo, cerca de 25% da população que menstrua, sofre de “pobreza menstrual”. Segundo a Days for Girls, organização norte-americana de caridade, são mais de 500 milhões de pessoas que não têm condições de adquirir o produto de higiene íntima. O cuidado menstrual ainda enfrenta grandes desafios, como tabus, preconceito, falta de informação, de equidade e de políticas públicas sociais e fiscais.

No Brasil, uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, encomendada pela Always, mostrou que 5,5 milhões de mulheres já faltaram no trabalho por não terem dinheiro para comprar absorvente, gerando prejuízo de R$ 2.4 bilhões por ano na economia brasileira. Quando falamos de falta na escola, o número sobe para 14 milhões de meninas. “O estudo mostrou que, apesar de ser um item essencial para a maioria das mulheres, muitas delas não têm acesso a ele”, disse Natalia Passarinho, diretora de marketing de Always, à Vogue. “Como marca, sabemos que temos o papel de levar informação sobre menstruação e apoiar a comunidade de diferentes formas. Uma das nossas iniciativas, a Aceleradora Social Always, é justamente para auxiliar projetos que ajudam pessoas em vulnerabilidade menstrual”, completa a executiva.

Não é luxo. É essencial

Criado em 2014 pela ONG alemã WASH United, o Dia Internacional da Higiene Menstrual veio com a missão de quebrar vários tabus sobre o tema, trazendo para a mesa de debates questões como a importância dos cuidados menstruais e de conscientizar o mundo sobre os problemas enfrentados por quem não tem acesso à produtos de higiene menstrual e nem de higiene básica. (A título de curiosidade: a data 28/5 foi escolhida porque o ciclo menstrual dura, em média, 28 dias e, a menstruação em si, cerca de cinco dias.)

A importância desse chamado se faz entender quando nos deparamos com dados como estes:

  • No Brasil, 713 mil meninas não possuem banheiro ou chuveiro em casa e mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas. E ainda: 900 mil não têm acesso a água canalizada na residência e 6.5 milhões vivem em casas sem ligação à rede de esgoto.
  • Na Índia, cerca de 80% das meninas ainda usam panos gastos no lugar de absorvente.
  • No Quênia, aproximadamente 50% das meninas em idade escolar não têm acesso à produtos menstruais.
  • Em Pequim, quase 70% das estudantes entrevistadas em uma pesquisa admitiram que tentam esconder os absorventes higiênicos que carregam.
  • No Reino Unido, 52% das adolescentes entrevistadas para um estudo disseram que faltaram à escola no período menstrual e, dessas, quase 1 em cada 10 admitiu que faltaram por não poderem pagar ou acessar produtos de higiene.

“A falta de dignidade menstrual é um problema mundial, que engloba a desigualdade social, falta de estrutura e de educação sobre o tema”, falou Isabella Maimone, Senior Brand Manager da Johnson & Johnson Consumer Health Brasil, em entrevista à Vogue. Uma pesquisa de Sempre Livre realizada em 2021, em parceria com os Institutos Kyra e Mosaiclab, mostrou que quando não têm acesso às condições ideais, muitas pessoas afetadas pela pobreza menstrual fazem uso de itens não indicados para absorver a menstruação, como sacolinha de supermercado, roupas velhas, panos, filtro de café e até jornal ou miolo de pão. “Por isso, é de extrema importância que a população tenha informações corretas sobre o tema, além de condições dignas de higiene”, completa Isabella.

Outro ponto que acaba reforçado a pobreza menstrual é o chamado “Tampon Tax”, termo criado nos Estados Unidos para descrever o imposto sobre absorventes, que tributa os produtos menstruais como itens não essenciais. O termo correu o mundo e ganhou até uma expressão irmã, “Pink Tax” (imposto rosa), que se refere à discriminação baseada em gênero, apontando que produtos para mulheres são mais caros do que os similares masculinos. Para você ter uma ideia, no Brasil, o imposto dos absorventes é, em média, 34,48%, enquanto o do preservativo masculino é 18,75%. E mais uma diferença: preservativos são distribuídos gratuitamente pelo SUS. Absorventes, ainda não.

Agentes de mudança

Alguns países já entenderam a importância de dar dignidade e igualdade a quem menstrua. O Quênia foi o primeiro a abolir a tributação sobre produtos de higiene menstrual, em 2004. Austrália, Canadá, Índia, Jamaica, Nicarágua, Nigéria, Tanzânia, Líbano, Malásia, Colômbia, África do Sul, Namíbia, Ruanda e Reino Unido tomaram a mesma medida. Países membros da União Europeia não têm permissão para impostos com taxa zero, mas usam o imposto mínimo, 5%, enquanto não resolvem essa situação. Apenas a Irlanda, por enquanto, não cobra imposto nos absorventes – isso porque já não cobrava antes de entrar para UE. A Alemanha, por sua vez, adotou a classificação de itens essenciais para os  produtos menstruais e, assim, conseguiu reduzir o imposto sobre absorventes de 19% para 7%. Nos Estados Unidos, dos 50 estados, 30 ainda taxam absorventes.

No Brasil, a luta para acabar com o imposto desse item também se dá de forma local. Rio de Janeiro, Ceará, Maranhão, Bahia e São Paulo, por exemplo, isentaram o ICMS (imposto estadual sobre circulação de produtos) de absorventes íntimos, que ainda sofrem as taxações PIS (Programas de Integração Social) e Cofins (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social). Há várias ações sendo feitas também em estados e municípios para a distribuição de absorventes para estudantes de escolas públicas, nos presídios e para pessoas em situação de vulnerabilidade. Agora, essa iniciativa se tornou nacional com o decreto finalmente assinado pelo presidente da República em março.

Vale destacar, ainda, iniciativas como as da Escócia e Peru, que aprovaram leis que garantem artigos de higiene menstrual para qualquer pessoa que menstrue. Outra boa notícia veio da Espanha, que aprovou, em maio, um projeto de lei que dá até três dias de licença no trabalho para mulheres com fluxo intenso ou que sofrem de cólicas fortes. O país se juntou ao grupo que já oferece licença menstrual: Japão, Coréia do Sul, Indonésia e Zâmbia.

Um mercado engajado

Além das questões tributárias, políticas e sociais, questionamentos como sustentabilidade, inclusão, disrupção, fizeram o mercado de higiene íntima se mexer nos últimos tempos. “Se pararmos para pensar que a última grande inovação em cuidados para menstruação tinha aparecido na década de 30, com o coletor menstrual em 1937, estava mais do que na hora de pensarmos em novas soluções, novas opções”, avalia a educadora menstrual Raíssa Kist. Junto com uma amiga da faculdade de engenharia química — e por meio de crowdfunding — Raíssa fundou a Herself, empresa que pensa e produz soluções para o período menstrual. É da marca a primeira linha brasileira de biquínis e maiôs absorventes reutilizáveis. “Acreditamos na moda como ferramenta de transformação e de inclusão. Por isso, criamos essa tecnologia que faz com que a menstruação não seja um fator limitante para a prática de esportes aquáticos ou mesmo para momentos de lazer”, diz Raíssa. São estampas e modelos diferentes em 16 tamanhos (do 30 ao 60). Esse ano, a marca lançou a primeira calcinha absorvente pensada para mulheres com deficiência, com abertura na lateral. Elas também atuam no social, com a Escola da Menstruação, que ministra aulas sobre o tema e oferece oficinas em presídios femininos, para ensinar as mulheres a produzirem absorventes reutilizáveis.

Absorvente lavável, Herself (Foto: Divulgação)

Preocupação com a sustentabilidade também foi um dos motivos que levaram duas amigas a lançarem a primeira marca nacional de absorventes descartáveis, a Amai, feitos com 100% algodão orgânico e sem plástico (usam bioplástico biodegradável). As empreendedoras Luri Minami e Erika Tomihama foram atrás de tecnologia para fazerem um produto que não causasse dano para as mulheres (sem fragrância, sem corantes, hipoalergênicos) nem para o planeta. Hoje, felizmente, já é possível encontrar outras marcas de absorventes 100% orgânicos. A Amai também atua no combate à pobreza menstrual, doando 1% de suas vendas para o projeto Fluxo sem Tabu.

Sejam empresas pequenas, médias ou gigantes do setor; com produtos reutilizáveis, como os coletores menstruais ou calcinhas absorventes; ou os descartáveis com responsabilidade ambiental. Com versões anatômicas, noturnas, pensadas para diferentes fluxos… Não importa. O que realmente interessa é que marcas, governos, entidades e sociedade se unam em torno de um único objetivo: levar dignidade para as pessoas que menstruam.

Linha do tempo do mercado de higiene menstrual

> 1800 – Eram usados para conter a menstruação tecidos dobrados e reutilizáveis.
> 1890 – Surge na Alemanha absorventes descartáveis feito com bandagens.
> 1894 – São criados nos Estados Unidos os primeiros absorventes para consumo, feitos de um tecido com capacidade de absorção e com uma cinta para prender à cintura.

A partir da década de 30 surgem os absorventes descartáveis como conhecemos:

1933 – É criado o absorvente interno.
1937 – O coletor menstrual é lançado.
2014 – Surge nos Estados Unidos a calcinha absorvente.

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