Milton Gonçalves, ícone da TV brasileira, morre aos 88 anos

Segundo a família, ator e diretor morreu em casa, por consequências de problemas de saúde decorrentes de um AVC sofrido em 2020. Conhecido por trabalhos em ‘O bem-amado’, ‘Pecado capital’ e ‘Sinhá Moça’, artista venceu preconceitos e lutou pelo reconhecimento dos negros.
Por Luiz Antônio Costa, g1 Rio e TV Globo

Milton Gonçalves interpretou o Eliseu de 'O tempo não para', de 2018 — Foto: João Miguel Júnior/Globo
Milton Gonçalves interpretou o Eliseu de ‘O tempo não para’, de 2018 — Foto: João Miguel Júnior/Globo

O ator e diretor Milton Gonçalves, ícone da TV brasileira, morreu no Rio nesta segunda-feira (30), aos 88 anos.

Conhecido por trabalhos marcantes em novelas como “O bem-amado” (1973) e as primeiras versões de “Pecado capital” (1975) e “Sinhá Moça” (1986), ele morreu em casa por volta de 12h30, segundo a família, por consequências de problemas de saúde decorrentes de um AVC sofrido em 2020. Na ocasião, o ator ficou três meses internado e precisou de aparelhos para respirar.

Milton Gonçalves também venceu preconceitos e lutou pelo reconhecimento do trabalho dos negros, como lembrou o filho e também ator Mauricio Gonçalves (leia mais abaixo).

O velório acontecerá nesta terça-feira (31) no Theatro Municipal, no Centro da cidade. O horário não havia sido divulgado até a última atualização desta reportagem.

Milton Gonçalves integrou, junto com Célia Biar e Milton Carneiro, o primeiro elenco de atores da TV Globo, onde fez mais de 40 novelas. Estrelou ainda em programas humorísticos e minisséries de sucesso, como as primeiras versões de “Irmãos Coragem” (1970), “A grande família” (1972) e “Escrava Isaura” (1976). Também se destacou nas séries “Carga Pesada” (1979) e “Caso verdade” (1982-1986).

Sua atuação como Pai José na segunda versão da novela “Sinhá Moça” (2006) valeu a indicação para o prêmio de melhor ator no Emmy Internacional. Na cerimônia, apresentou o prêmio de melhor programa Infanto-juvenil ao lado da atriz americana Susan Sarandon. Foi o primeiro brasileiro a apresentar o evento.

Sua última novela foi “O tempo não para” (2018), quando interpretou o catador de materiais recicláveis Eliseu.

Viúvo, Milton Gonçalves deixa três filhos e dois netos.

'O Bem-Amado': Ruth de Souza e Milton Gonçalves — Foto: Divulgação/Globo
‘O Bem-Amado’: Ruth de Souza e Milton Gonçalves — Foto: Divulgação/Globo

Chegou à Globo em 1965

Nascido na pequena cidade de Monte Santo, em Minas Gerais, Milton Gonçalves mudou-se ainda criança com a família para São Paulo, onde foi aprendiz de sapateiro, de alfaiate e de gráfico. Ele fez teatro infantil e amador. Sua estreia profissional acorreu em 1957, no Arena, na peça “Ratos e Homens”, de John Steinbeck.

Ele chegou à Globo a convite do ator e diretor Otávio Graça Mello, de quem fora companheiro de set no filme “Grande Sertão” (1965), dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira.

“Não tinha inaugurado nada ainda. Os três estúdios, aquele auditório, pareciam para mim os estúdios da Universal. O primeiro salário foi 500 cruzeiros. E eu fiquei feliz”, recordou Milton em um depoimento à TV Globo.

Milton Gonçalves durante gravação da vinheta de fim de ano da Globo, em 1997 — Foto: Acervo TV Globo
Milton Gonçalves durante gravação da vinheta de fim de ano da Globo, em 1997 — Foto: Acervo TV Globo

Ator lutou por bons papéis para negros

Milton Gonçalves na mensagem de fim de ano da Globo, em 1991 — Foto: Acervo TV Globo
Milton Gonçalves na mensagem de fim de ano da Globo, em 1991 — Foto: Acervo TV Globo

O filho de Milton Gonçalves, o também ator Maurício Gonçalves, lembrou que o pai venceu preconceitos e lutou pelo reconhecimento do trabalho dos negros.

“Esse Milton que as pessoas não conhecem, batalhador. Nunca deixou cair a peteca no que tange aos filhos. O maior ensinamento meu pai me passou: ser guerreiro, nunca abaixar a cabeça a não ser para os sábios, mas lutar o tempo todo”.

Maurício disse que sempre teve o pai como herói. Quando criança, quando viu a personagem Zelão das Asas voando na novela e ficou ainda mais impressionado.

“Ele sempre voou e gerou esses frutos. A gente tenta fazer o melhor possível, a gente tenta honrar essa memória do meu pai. A gente tenta fazer o melhor, mas é lutar para tentar chegar perto”, disse Maurício.

Outras personagens como Rainha Diaba também foram muito marcantes. Era a época da ditadura, e Maurício diz que não deve ter sido fácil fazer um fora da lei, negro e homossexual, num tempo difícil, cheio de preconceitos.

Política

Milton Gonçalves em 'O Tempo Não Para', de 2018  — Foto: Paulo Belote/Globo
Milton Gonçalves em ‘O Tempo Não Para’, de 2018 — Foto: Paulo Belote/Globo

O ator também teve importante militância política. Simpatizante do Partido Comunista Brasileiro na juventude, chegou a se candidatar ao governo do Rio de Janeiro em 1994, pelo PMDB.

Sua experiência no universo da política o ajudou a compor o personagem Romildo Rossi, um político corrupto, em “A Favorita” (2008), de João Emanuel Carneiro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.