Lea T fala sobre humanidade, pluralidade e sua relação com o estilista Riccardo Tisci

Agente de transformação na indústria da moda há mais de uma década, a brasileira Lea T assina agora uma coleção para a Burberry, que já começa a chegar às lojas de todo o mundo, na estreia do projeto Friends and Family da marca britânica. À Vogue, fala sobre humanidade, pluralidade e sua relação como estilista Riccardo Tisci, praticamente um irmão para ela e quem inspirou o “T” do seu nome artístico
LUIZA BRASIL

Capa Digital - Junho 2022 (Foto: Vogue Brasil)
Lea T na capa digital da Vogue de Junho 2022 (Foto: Mariana Maltoni/Vogue Brasil)

Fashion Rio, verão 2012. Naquele momento, eu era uma jornalista no início de carreira, e a extinta semana de moda carioca me deu a possibilidade de acessar desfiles memoráveis e ver de perto as principais personas da indústria. Naquela temporada, tive a felicidade de assistir a Lea T. Ela, que era uma das presenças mais aguardadas da edição, que já estrelava campanha de grandes maisons e capas de revistas mundo afora.

Lembrar de vê-la cruzando aquelas passarelas no começo da década de 2010 também me transporta para o universo da moda daquela época e todo o contexto sociopolítico: a chegada de grandes marcas de luxo ao Brasil, a questionável celebração do consumo desenfreado pela blogosfera, o aumento da ocupação de pessoas pretas nas universidades, o reconhecimento da união civil estável homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal e, posteriormente, a inclusão de mulheres trans e travestis na aplicação das regras da Lei Maria da Penha. E, hoje, percebo que, organicamente, nossos corpos se tornaram presenças políticas e linha de frente em muitas iniciativas e transformações do espaço fashionista brasileiro.

Lea T usa Jaqueta de lã e vestido de sarja. Saia de lã, óculos de acetato e sandálias de couro (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T usa Jaqueta de lã e vestido de sarja. Saia de lã, óculos de acetato e sandálias de couro (Foto: Mariana Maltoni)

Mais de dez anos se passaram e encontrar Lea com a carreira de modelo consolidada, que neste momento assume a empreitada de ser colaboradora criativa no projeto Friends and Family da Burberry, é reafirmar a pavimentação da nossa estrada e do nosso ativismo: que longe de ser o mero “ocupar”, é promover a construção e o pertencimento ativo nos espaços habitados por nós.

Modelo, ativista e criativa. Sem dúvidas, sua trajetória abre portas para muitas possibilidades enquanto mulher latino-americana dentro da moda global. O projeto com a marca britânica surge a partir do convite do amigo e diretor criativo da Burberry, Riccardo Tisci, e da oportunidade percebida pela própria Lea de elaborar um trabalho que não se resumisse à sua imagem. “Eu já tinha trabalhado como assistente do Riccardo em experiências anteriores. É uma responsabilidade imensa, pois, para além das criações, fala-se sobre metas, objetivos e números”, ressalta. Outro ponto positivo para a primeira parceria da série foi a aproximação com a equipe envolvida. “O time foi maravilhoso! Conheci pessoas novas e, antes de tudo, me apresentei e contei minha história. Foi profundo, pois pude lidar com a humanidade de cada um e isso fez com que o trabalho funcionasse de forma fluida.”

Lea T usa Vestido de tricô e botas de couro. Bucket hat de couro (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T usa Vestido de tricô e botas de couro. Bucket hat de couro (Foto: Mariana Maltoni)

Sobre o processo criativo da coleção, que ela veste em primeira mão nas fotos destas páginas, o ponto de partida é a natureza. “Comecei a ter conversas como Riccardo sobre estudos que fiz relacionados a vidas não humanas, daí ele propôs que eu desenvolvesse tudo a partir do que eu amaria vestir.” O resultado são roupas práticas, confortáveis e possíveis para várias ocasiões. Destaque para as alfaiatarias aconchegantes e para a cartela de cores, que temos terrosos enquanto protagonistas e reafirmam a conexão sensível de Lea com o natural. “A torcida é para que o projeto Friends and Family floresça e ganhe narrativas mais plurais, desafio que o Tisci e a Burberry estão traçando de mãos dadas e que o mercado reconheça o talento de tantas outras mulheres e pessoas ‘t’s, para romper o lado elitista e excludente da moda.”

Mesmo sendo uma agente de transformação do mercado, ela não se enxerga como pioneira. Aos 40 anos, faz questão de exaltar a importância de quem veio antes, principalmente de mulheres trans que, ao longo de sua jornada, assumiram o fronte de mudanças importantes para a comunidade LGBTQIAP+, como forma de assegurar uma vivência mais segura e digna para todes. “Quantas vezes tive que engolir sapos e tartarugas marinhas para honrar o legado de quem veio antes? Por isso, a importância da ancestralidade”, diz a modelo, que também ressalta que ativismo e militância, mais do que teorias bem embasadas, exigem visão estratégica. “Pensarmos em nossa monetização é buscar reparação. Ainda somos extremamente objetificadas. Queremos ter escolhas no mercado de trabalho.”

Lea T usa vestido de jérsei e botas de couro falso (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T usa vestido de jérsei e botas de couro falso (Foto: Mariana Maltoni)

De acordo com a ativista, o pai, Toninho Cerezo, é o responsável por fazê-la estar sempre erguida. “Vivemos momentos difíceis: ele acusado de ser transfóbico, que não gostava da filha. Tudo isso era mentira, mas mexeu com a gente. Não quero romantizar a dor, mas se eu não tivesse lembrado de tudo que ele passou desde a infância, não teria encontrado tanta força.” As mulheres da família da mãe também são importantes na construção de Lea. “Venho de sete mulheres, professoras e unidas. São meu porto seguro.” Criada parte da vida em Corinto, no interior de Minas, lembra que a família foi um importante lugar de acolhimento. “Sou de uma geração em que ser uma mulher transexual pública foi um desafio para mim e para eles. Apesar das discussões, normais em qualquer família, tem troca, carinho e afeto, legado deixado pelo meu avô.”

Lea T usa Parka de algodão e vestido de lã. Calça de lã comforro de cetim e botas de couro (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T usa Parka de algodão e vestido de lã. Calça de lã comforro de cetim e botas de couro (Foto: Mariana Maltoni)

Outro nome importantíssimo e aliado da sua jornada é o do Riccardo Tisci, que por sinal é de onde vem o “T” do seu nome artístico. “Não só ele, como a sua mãe, me deram carinho de irmã e filha, mesmo diante de tanta simplicidade. Em um momento de extrema solidão, em que tinha medo de expor minha família, foi a primeira vez em que me senti abraçada.” Considerado um irmão por Lea, Riccardo sempre acreditou no potencial da brasileira e a colocou em lugares novos.

Além da moda, Lea é uma mulher atentíssima às questões socioambientais. Acredita na natureza enquanto divindade e afirma o quanto a sua experiência de morar em Alto Paraíso redefiniu a ligação comeste lado de sua ancestralidade. “Conheci pessoas que dedicam uma vida inteira ao assunto. Isso só acontece quando saímos do perímetro urbano. A nossa noção de tempo, controle e respeito muda completamente.”

Lea T usa top e saia de algodão. Saia de seda e linho e meias de algodão. Cordão de couro e sandálias de veludo (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T usa top e saia de algodão. Saia de seda e linho e meias de algodão. Cordão de couro e sandálias de veludo (Foto: Mariana Maltoni)

Sem dúvidas, Lea é um exemplo de uma mulher que “chegou lá”, e é parâmetro para muitas pessoas, principalmente quando falamos sobre debate de identidade e gênero. Porém, nem sempre demarcar conquistas foi palpável para ela. “Por muito tempo, me fizeram acreditar que mulheres como eu jamais teriam sucesso. Sempre enxerguei estas chegadas como um lugar atravessado pela dor.” No entanto, na visão dela, ser bem-sucedida extrapola a noção de patrimônio para os valores do entorno. “Sucesso é estar cercada de pessoas que confio e que confiam em mim.”

Diante de tudo isso, ainda existe tempo para sonhar. Para Lea T, um dos desejos é o de estudar biologia. Obcecada por assistir a vídeos de comportamento animal, é uma verdadeira interessada no tema e usa o conteúdo como momento de prazer, forma de relaxamento e escape da realidade. Mesmo amante dos animais, não desiste da humanidade. Acredita em um futuro melhor para os seus sobrinhos e na possibilidade de espaços mais plurais para que o discurso da representatividade não caia nas ciladas da servidão e da cobrança pelo perfeccionismo e do posicionamento a todo o momento. “Quero me dar o luxo de dizer que não tenho uma resposta perfeita sobre tudo.”

Como a Lea gostaria de ser eternizada? “Uma mulher corajosa, forte, resistente, sem ter a sua fragilidade subestimada, com muito amor pela vida e aberta a aprender.” Se viver é uma escola, Lea T é uma mestra que nos ensina a romper barreiras, sem deixar de lado a humanidade, entrega e confiança em um mundo melhor: seja no coletivo, seja no individual.

Capa Digital - Junho 2022 (Foto: Vogue Brasil)
Capa Digital – Junho 2022 (Foto: Vogue Brasil)

Edição de moda: Rita Lazzarotti
Fotos: Mariana Maltoni
Beleza: Henrique Martins (Capa Mgt).
Assistente de beleza: Salma Moretti.
Trancista: Mabatha Ndiaye.
Coordenação: Monica Borges.
Direção executiva: Patricia Veneziano (Wborn Group).
Produção executiva: Marc Edenburg e Rafaella Molon (Wborn Group).
Produção de set: Anderson Rocha, André Gustavo e Ricardo Gusmão.
Assistentes de foto: Pedro Bodick, Tornic, Gabriel Yoneya Rosa e Raul Sanches de Alencar. Produção de moda: Jefferson Bueno. Camareira: Vilma de Alcântara.
Manicure: Rose Luna.
Agradecimentos: Selva SP, Parque de Aventura – Marsilac

Lea T  (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T  (Foto: Mariana Maltoni)
Lea T (Foto: Mariana Maltoni)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.