São Paulo Fashion Week termina neste sábado sem influenciadores de peso

Discussão sobre a ausência das criadoras digitais passa por mudança no perfil da semana de moda paulistana e profusão de novos perfis
Por Mariana Rosário — São Paulo

À La Garçonne: roupas para festa, mas mirando no streetwear — Foto: Zé Takahashi
À La Garçonne: roupas para festa, mas mirando no streetwear — Foto: Zé Takahashi

“Por que os influenciadores não prestigiam o SPFW?”, foi um questionamento que ganhou as redes sociais, especialmente o Instagram, desde o segundo dia de desfiles, a quarta-feira, na atual edição da São Paulo Fashion Week.

O questionamento — embora não tenha mais que meia dúzia de palavras — mira no canhão de vendas gerados por esses profissionais da internet. Para se ter uma ideia da potência do marketing de influência na decisão de compra, uma pesquisa da Stadista, uma empresa alemã de análise de dados, mostra que 40% dos brasileiros compraram produtos após verem o mesmíssimo item no perfil de alguma celebridade digital.

Tendo em vista essa capacidade, somada ao atual design da semana de moda: povoado por novos estilistas e marcas de menor porte de venda — que se beneficiariam, e muito, dessa divulgação — a ausência das chamadas influenciadoras com tempo de estrada ou novas celebridades com milhões de seguidores (e presentes em semanas de moda internacionais recentemente) inflamou as redes e dividiu opiniões mesmo dentro da categoria de criadoras.

Camila Coutinho, uma das primeiras a figurar no movimento ‘blogger’ no Brasil, foi uma das que ofereceu opiniões sobre o caso. Para ela, o questionamento não é justo, e tem uma série de pontos para ser rebatido. Camila, inclusive, lembra que parte das influenciadoras que começaram o mercado no Brasil estão em Florença, na Itália, para o casamento da também celebridade digital, Lala Rudge.

“Houve uma mudança muito grande nos dois últimos anos. Além da volta gradativa aos eventos presenciais, há novas demandas de trabalho. As influenciadoras têm marcas hoje em dia. Existe uma nova balança do tempo disponível. Muitas, assim como eu, temos empresas próprias, o que dá um trabalho gigantesco e reduz o tempo” diz. E explica: “moda é um pilar muito importante pra mim, mas se não dá para ir a um desfile fico feliz em postar itens da marca, consumir, botar link para que os seguidores possam comprar”.

No caso de Luiza Brasil, à frente da plataforma Mequetrefismos, há uma perceptível mudança dos perfis de quem frequenta as semanas de moda. Ela, que foi ao SPFW, diz observar na atual edição do evento uma resposta a uma reivindicação presente em toda sua carreira: a necessidade da participação de representantes mais diversos entre designers e participantes.

“Faço questão de estar nesse espaço para prestigiar outros profissionais que hoje em dia são desse mercado. A moda no Brasil tem ainda muita questões relacionadas à oportunidade de acesso, mas entendo que preciso estar lá”.

Ela acredita que há certo “privilégio” na possibilidade de escolher ou não aderir a eventos como esse. “Talvez essas influenciadoras possam ir a semanas de modas internacionais e, depois de muitos anos, podem dizer que não querem ir (aos eventos nacionais). Eu, por outro lado, vejo a moda como um movimento cíclico, vejo muita coisa acontecendo, simplesmente estamos num cenário diferente, em que se fala de pluralidade”, afirma.

Conversa recorrente

Luanda Vieira, cuja entrada no mercado de influência se deu há 10 meses, lembra que essa é uma discussão que povoa os arredores da SPFW há algumas edições.

“Ontem pipocou essa história no meu feed e eu fiquei me questionando muito o que levaria a pessoa a sentir falta de um influenciador se esse profissional não é plenamente aceito até hoje. Fiquei muito incomodada. As pessoas querem, ou não, a presença do influenciador?”, questiona.

Em seu Instagram, Luanda fez uma postagem sobre o tema, onde defendeu que havia outros perfis de celebridades digitais no local. “Nos comentários, uma influenciadora diz que cobre moda há anos, mas nunca recebeu um convite ao evento”, afirma.

Os chamados aos desfiles, vale dizer, são normalmente feitos pelas marcas que exibem as novas peças sobre a passarela. É justamente na conta das etiquetas envolvidas nas “fashion weeks” que recaí a missão de criar relacionamento com a categoria de celebridades digitais que divulgarão o evento em suas redes. Portanto, não é de se admirar que com a saída de nomes graúdos da moda nos últimos anos de SPFW, sua “carteira de contatos” também bateu em retirada.

“É assim em todo o mundo, nenhuma semana de moda é responsável por esse envolvimento das marcas com as influenciadoras. A marca prestigia a influenciadora e a influenciadora, por sua vez, prestigia a marca, é assim que funciona”, explica Silvia Braz, que foi à SPFW na noite de quinta-feira. “Acho que há uma cobertura ocorrendo sim e há uma nova geração interessada”, diz.

Humores do mercado

Não dá para observar esse questionamento às influenciadoras sem estender a lupa ao mercado de influencia em si, explica Flávio Santos, autor do recém-lançado livro “A Economia da Influência”. “Vejo um caminho de oportunidade para a movimentação de novos públicos, a oportunidade de criação de novos perfis e uma reciclagem da economia da influência como um todo”, explica.

Para ele, o surgimento de empresas sob a batuta de influenciadoras é, sim, também um fator que mexe com a ausência delas em eventos nacionais. “Nesse passo de desenvolvimento é uma tendência que as novas rotas globais sejam priorizadas e, por consequência, o SPFW acaba perdendo seu destaque. Mas isso não quer dizer que elas deixaram de vestir as marcas do Brasil, são propósitos diferentes”, afirma.

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