‘Garganta Profunda’: Por que a atriz Linda Lovelace do clássico pornô, lançado há 50 anos, virou-se contra indústria de filmes adultos?

Linda Lovelace na época de ‘Garganta Profunda’ | Foto de arquivo/AFP

Linda Lovelace é uma mulher frustrada por nunca ter sentido um orgasmo na vida, até que uma amiga recomenda a ela se consultar com um psiquiatra. O médico, então, descobre que o clitóris de Linda fica na sua garganta e ajuda sua paciente a desenvolver técnicas de sexo oral de forma a, enfim, atingir o clímax.

Esta é a sinopse de “Garganta profunda”, o longa-metragem que, lançado no dia 12 de junho de 1972, há 50 anos, revolucionou a indústria ao criar enredo para um filme repleto de cenas de sexo explícito. A produção, que custou algo em torno de US$ 25 mil, arrecadou mais de US$ 600 milhões apenas nos Estados Unidos.

“Garganta profunda” levou a outro patamar a revolução sexual iniciada na década anterior pelos hippies e o rock n’ roll. Apesar de ter sido banido em alguns estados, e de ter sofrido perseguição da Casa Branca, foi o primeiro título “adulto” a sair do circuito marginal para salas de cinema convencionais, ganhando o rótulo de “pornô chic” do jornal “The New York Times” e atraindo espectadores como Martin Scorcese, Frank Sinatra e Jacqueline Onassis. Com o tempo, virou um clássico e expandiu a ousadia nas cenas de sexo nos filmes em geral.

Nas 15 sequências mais quentes do longa, a atriz Linda Boreman, que adotaria o nome de sua personagem, convenceu o público de que estava se divertindo aos montes. Alguns anos mais tarde, porém, ela surpreendeu a indústria do cinema ao denunciar que havia sido sistematicamente coagida pelo marido, Chuck Traynor, a se prostituir e a atuar em filmes como aquele, sem ganhar dinheiro nenhum.

“Cada vez que alguém assiste a ‘Garganta profunda’, está assistindo a meu estupro”, disse ela a uma comissão do Senado nos EUA que investigava a exploração de mulheres e crianças na produção de cinema, em 1986. “É um crime que esse filme ainda esteja sendo exibido. Havia uma arma contra a minha cabeça o tempo todo”.

A atriz voltou suas baterias contra o longa que a fez famosa em 1980, quando lançou sua terceira biografia, “Ordeal”. Em pouco tempo, Linda se tornou uma das principais ativistas entre as feministas que faziam campanha contra o cinema pornô americano, criticando a objetificação da mulher nesse tipo de produção.

Linda nasceu no Bronx, em Nova York, filha de um policial e uma garçonete católica fervorosa. Mais tarde, a família se mudou para a Flórida. Aos 17 anos, ela teve um bebê, mas, como não era casada, sua mãe a enganou, fazendo-a assinar papeis para entregar o filho à adoção. Dois anos depois, Linda sofreu um grave acidente de carro e, conforme descobriria mais tarde, foi contaminada pelo vírus da hepatite C durante uma transfusão de sangue.

Ela estava se recuperando do acidente, em 1970, quando conheceu Chuck Traynor. Os dois começaram uma relação e foram morar em Nova York, onde, nas palavras de Linda, Traynor virou seu “agente, cafetão e marido”. Usando de ameaças e muita violência, o empresário teria obrigado a mulher a atuar como prostituta e atriz pornô, forçando-a fazer sexo com outros homens e também com animais.

Linda Lovelace e o marido Chuck Traynor, acusado de violentar a mulher | Foto de arquivo

“Quando eu disse a ele que não me envolveria com prostituição de forma nenhuma e disse que pretendia deixá-lo, ele me batia.  Eu me tornei uma prisioneira, não podia sair de sua vista, nem pra ir ao banheiro, onde ele me observava por um buraco na porta. Ele ouvia minhas conversas no telefone apontando uma pistola automática para mim”, escreveu Linda na biografia “Ordeal”.

“Minha iniciação no pornô foi um estupro coletivo com cinco homens, promovido pelo Sr. Traynor”, continua a atriz na biografia. “Ele ameaçou atirar em mim se eu não aceitasse. Eu nunca tinha feito sexo anal antes, e isso acabou comigo. Eles me trataram como se eu fosse uma boneca inflável (…) Eu nunca havia me sentido tão assustada e tão desgraçada e humilhada na minha vida”.

A indústria do cinema adulto nos Estados Unidos se apressou em desqualificar os relatos de Linda que desabonassem o setor. Ela foi chamada de mentirosa, até porque, em suas duas biografias anteriores, a atriz não havia feito tais denúncias. Mas diferentes profissionais que trabalharam em filmes como “Garganta Profunda” confirmaram que Traynor era uma pessoa violenta e espancava sua mulher. Além disso, a atriz também afirmou, várias vezes, que jamais recebeu um centavo de dólar por sua atuação no filme, apesar de toda a renda gerada pelas bilheterias.

‘Garganta Profunda’. Protesto contra o filme em cinema de Nova York, em 1972 | Foto de arquivo

Toda essa polêmica aconteceu na esteira de uma onda conservadora que tomou o país do Tio Sam no fim da década de 1970, em reação à “libertinagem” e ao abuso de drogas dos anos anteriores. Em 1980, o republicano Ronald Reagan, um ex-ator com discurso altamente conservador, ganhou as eleições para a Presidência com larga vantagem de votos. Linda se tornaria uma “cristã renascida”, enquanto o ator Harry Reems, que interpretou o psiquiatra Dr. Young em “Garganta profunda” se converteu do Judaísmo para o Cristianismo e virou um corretor imobiliário.

Após abandonar o pornô, Linda voltou para a Flórida, onde se casou com Larry Machiano, americano que se sustentava instalando antenas de TV a cabo e que, mais tarde, começaria uma pequena firma de paredes drywall. A ex-estrela  encontrou estabilidade, eles tiveram dois filhos, mas a empresa de seu marido quebrou e, em 1990, eles foram morar no Colorado. O casal viria a se separar em 1996.

Durante décadas, Linda sofreu as sequelas da transfusão de sangue que lhe passou hepatite C. Em 1987, foi obrigada a se submeter a um transplante de fígado. Sua saúde se tornaria cada vez mais debilitada. Em 2002, a ex-atriz sofreu um acidente de carro ainda mais grave que o de 1970. Ela chegou a ser levada a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Tinha 53 anos de idade.

Lovelace teve seu nome lembrado diversas vezes desde sua morte, entre canções, espetáculos teatrais e filmes. Em 2005, sua trajetória foi um dos tópicos do documentário “Por dentro da garganta profunda”. Em 2013, Brian Epstein e Jeffrey Friedman dirigiram o filme “Lovelace”, com Amanda Seyfried no papel principal e Peter Sarsgaard intepretando Chuck Traynor. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.