Quem é Francia Márquez, a ativista que se torna a primeira vice-presidente negra da Colômbia

A nova vice-presidente nasceu em uma família pobre no departamento de Cauca, foi mãe solteira aos 16 anos e já trabalhou como doméstica; hoje é uma ativista ambiental

Francia Márquez, a ativista que se torna a primeira vice-presidente negra da Colômbia

BOGOTÁ – Pela primeira vez na história da Colômbia, uma mulher negra está perto do topo do poder executivo.

Francia Márquez, uma ativista ambiental do departamento montanhoso de Cauca, no sudoeste da Colômbia, tornou-se um fenômeno nacional, mobilizando décadas de frustração dos eleitores e obrigando o novo presidente eleito do paísGustavo Petro, a nomeá-la como sua companheira de chapa.

Sua ascensão é significativa não apenas porque ela é negra em uma nação onde os afro-colombianos são regularmente sujeitos ao racismo e devem enfrentar barreiras estruturais, mas porque ela vem da pobreza em um país onde a classe econômica muitas vezes define o lugar de uma pessoa na sociedade. Os ex-presidentes mais recentes foram educados no exterior e estão ligados às famílias poderosas e aos reis do país.

A vice-presidente eleita de esquerda da Colômbia, Francia Márquez, da coalizão Pacto Histórico
A vice-presidente eleita de esquerda da Colômbia, Francia Márquez, da coalizão Pacto Histórico Foto: Edwin Rodriguez Pipicano/Reuters

Apesar dos ganhos econômicos nas últimas décadas, a Colômbia continua extremamente desigual, uma tendência que se agravou durante a pandemia, com comunidades negras, indígenas e rurais ficando para trás. Quarenta por cento do país vive na pobreza.

Márquez, 40 anos, escolheu concorrer ao cargo, disse ela, “porque nossos governos deram as costas ao povo, à justiça e à paz”.

Ela cresceu dormindo no chão de terra batida em uma região castigada pela violência relacionada ao longo conflito interno do país. Engravidou aos 16 anos, foi trabalhar nas minas de ouro locais para sustentar seu filho e, eventualmente, procurou trabalho como empregada doméstica.

Márquez tornou-se ativista quando tinha cerca de 13 anos, em meio a uma proposta de expansão de um projeto de barragem que teria desviado um grande rio em sua região, prejudicando a vida da comunidade. Ela acabou indo para a faculdade de direito, ganhando uma campanha legal para impedir que grandes empresas de mineração tentassem se mudar para a área.

Em 2019, sobreviveu a um ataque com granadas e tiros de fuzil. Queriam matá-la por sua defesa diante do avanço da mineração em terras de afrodescendentes. Um ano antes, havia recebido o Prêmio Goldman, também conhecido como o Nobel do meio ambiente.

“Os ninguéns, os que não são reconhecidos por nossa humanidade, os que não são reconhecidos por seus direitos neste país, levantam-se para mudar a história, para ocupar a política”, disse Márquez em entrevista à AFP em março.

Nas primárias da coalizão de esquerda Pacto Histórico, Francia obteve a segunda melhor votação (785.000) depois de Petro (4,4 milhões).

Para um segmento de colombianos que clamam por mudanças e por uma representação mais diversificada, Márquez é a campeã. A questão é se o resto do país está pronto para ela.

Alguns críticos a chamaram de divisiva, dizendo que ela faz parte de uma coalizão de esquerda que busca destruir, em vez de construir sobre normas passadas.

Ela também nunca ocupou um cargo político, e Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk Analysis, uma empresa de consultoria, disse que “há muitas dúvidas sobre se Francia seria capaz de ser comandante em chefe, se ela gerenciaria a política econômica , ou política externa, de forma a dar continuidade ao país”.

Seus oponentes mais extremistas têm apontado diretamente para ela com tropos racistas e criticam sua classe e legitimidade política.

Mas na campanha eleitoral, a análise persistente, franca e mordaz de Márquez sobre as disparidades sociais na Colômbia abriu uma discussão sobre raça e classe de uma maneira raramente ouvida nos círculos políticos mais públicos e poderosos do país.

Confetes explodem em uma tela mostrando fotos do candidato presidencial Gustavo Petro, à esquerda, e sua companheira de chapa Francia Márquez depois de vencerem o segundo turno na sede da noite eleitoral em Bogotá, Colômbia
Confetes explodem em uma tela mostrando fotos do candidato presidencial Gustavo Petro, à esquerda, e sua companheira de chapa Francia Márquez depois de vencerem o segundo turno na sede da noite eleitoral em Bogotá, Colômbia Foto: Fernando Vergara/AP

Esses temas, “muitos em nossa sociedade os negam ou os tratam como menores”, disse Santiago Arboleda, professor de história afro-andina da Universidade Andina Simón Bolívar. “Hoje, eles estão na primeira página.”

Com sua ascensão, também emergiu um racismo enterrado. Desde abril, Márquez foi alvo de 1.083 comentários e mensagens racistas na mídia e nas redes, segundo o Observatório de Discriminação Racial da Universidade dos Andes.

Com a vitória de Petro, Márquez certamente tentará empurrá-lo para uma plataforma mais feminista, e ela às vezes o criticou abertamente seu histórico em questões femininas.

Em um debate presidencial, Petro se recusou a oferecer apoio total aos direitos ao aborto, dizendo que pressionaria por programas de prevenção da gravidez que levariam o país ao “aborto zero”. No palco do debate, Márquez voltou-se para seu aliado: “Pergunto a Petro, quantas mulheres têm que morrer, quantas mulheres têm que passar por essas situações dolorosas até chegar o ‘aborto zero’?”

Pela primeira vez cinco dos candidatos à vice-presidência do país no primeiro turno eram afro-colombianos, algo que Guzmán atribuiu à ascensão de Márquez. “Uma vez que Francia se tornou candidata, a inclusão se tornou uma narrativa central na eleição”, disse ele.

Como muitos ativistas na Colômbia que desafiam o status quo, Márquez recebeu repetidas ameaças de morte.

No evento de campanha não muito longe de sua cidade natal, Márquez ficou cercada pela guarda indígena, uma unidade de segurança tradicional que carrega cajados de madeira que representam paz e força.

Perto havia um esquadrão de guarda-costas à paisana com cara de pedra e, além deles, um círculo de policiais vestidos de verde.

No meio da multidão, em meio a um tocador de marimba e uma faixa que dizia “ouse votar”, havia um corte transversal da Colômbia, incluindo muitas mulheres de turbante, que passaram a simbolizar a luta e a força afro-colombianas./AFP e NYT

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William Davies – Know You/My Disquiet

Tove Lo anuncia novo álbum para outubro; veja clipe de “True Romance”

Dirt Femme é o título do quinto disco de estúdio da cantora
CAIO COLETTI

Tove Lo está de volta com “True Romance”, clipe em que aparece andando por um deserto – confira logo acima. O single é o sucessor de “No One Dies From Love“, lançado pela popstar sueca em maio.

As duas canções estarão no disco Dirt Femmeoficializado pela cantora hoje (21). Confira abaixo a capa completa do álbum e a tracklist, incluindo parcerias com First Aid Kit, SG Lewis e Channel Tres.

  1. No One Dies From Love
  2. Suburbia
  3. 2 Die 4
  4. True Romance
  5. Grapefruit
  6. Cute & Cruel (ft. First Aid Kit)
  7. Call on Me (ft. SG Lewis)
  8. Attention Whore (ft. Channel Tres)
  9. Pineapple Slice (ft. SG Lewis)
  10. I’m to Blame
  11. Kick in the Head
  12. How Long

Dirt Femme tem estreia marcada para 14 de outubro e será o sucessor do Sunshine Kitty, de 2019. Em declaração oficial, Tove Lo prometeu que o álbum levará os fãs a “dançarem, chorarem, f*derem e dirigirem seus carros muito, muito rápido“.

“Quando comecei como compositora e artista, via meus traços femininos como mais fracos, e buscava destacar meus traços masculinos para ter vantagem na vida. Senti uma grande mudança de energia desde então, e esse álbum reflete as muitas formas que meus traços femininos me ajudaram e me machucaram“, comentou.

Tove Lo estourou no cenário pop em 2013, com a canção “Habits (Stay High)“, e desde então mostrou hits como “Talking Body” e “Glad He’s Gone“.

Paul Haggis, diretor de Crash, é preso na Itália por abuso sexual

Vencedor de dois Oscar também escreveu 007: Cassino Royale
CAIO COLETTI

Paul Haggis

O diretor e roteirista Paul Haggis, que venceu estatuetas do Oscar por Menina de Ouro e Crash: No Limite, foi preso na Itália sob acusações de abuso sexual e agressão contra uma jovem não identificada. A informação foi confirmada à Variety pela promotoria de Brindisi, cidade próxima de onde Haggis foi apreendido.

De acordo com as autoridades, o cineasta foi acusado por uma mulher estrangeira (ou seja, não italiana) de mantê-la cativa e estuprá-la durante dois dias na cidade de Ostuni, onde é realizado o Festival de Allora, que teria paletras de Haggis na edição de 2022.

Após as agressões, o diretor teria levado a vítima até o aeroporto de Papola Casale, em Brindisi, deixando-a sozinha por lá nas primeiras horas da manhã, apesar das “suas condições físicas e psicológicas precárias“. Por lá, ela foi atendida pela polícia e recebeu primeiros socorros, dirigindo-se ao hospital mais próximo e, logo depois, formalizando a denúncia contra Haggis. 

Silvia Bizo, jornalista e uma das organizadoras do festival, ocnfirmou à Variety que o cineasta foi preso, e que o evento vai “se distanciar completamente” dele. A posição oficial do Allora deve ser liberada em breve em um comunicado.

Haggis já responde a um processo por abuso sexual nos EUA. A publicitária Haleigh Breest alega que o diretor a estuprou violentamente após um evento de première em 2013 – e essa denúncia, formalizada em 2018, levou outras três mulheres a fazerem acusações semelhantes contra ele.

Além de Menina de Ouro Crash, Haggis é conhecido por criar a série Chuck Norris: O Homem da Lei (1993-2001), recentemente reimaginada como Walker. Ele também assinou os roteiros de 007: Cassino Royale (2006), 007 – Quantum of Solace (2008) e Cartas de Iwo Jima (2006).

UK Jazz and Groove with Tina Edwards

All music rights belong to their rightful owners. Please support the musicians and buy their music.

Tina Edwards is a London-based broadcaster, DJ and music journalist, recognized for being an early and ongoing champion of the UK Jazz Scene. She recently hosted the acclaimed documentary Jazz UK: Spitting Fire on BBC One and can be heard playing an eclectic web of music on the airwaves via Worldwide FM, Jazz FM, BBC Radio and more. Find her on Instagram at @tinaedwardsdj

My feet and soul are moved by music that’s bold, percussive and groove orientated, and I hope that the records I’ve chosen for MAJ reflect that. UK music is a fusion of so many styles; you’ll hear some dancefloor jazz, funk, house and more in my set. I hope you enjoy listening to it as much as I enjoyed discovering these records!

Todos os direitos musicais pertencem aos seus legítimos proprietários. Por favor, apoie os músicos e compre suas músicas.

Tina Edwards é uma radialista, DJ e jornalista musical sediada em Londres, reconhecida por ser uma das primeiras e contínuas campeãs da cena de jazz do Reino Unido. Ela recentemente apresentou o aclamado documentário Jazz UK: Spitting Fire na BBC One e pode ser ouvida tocando uma teia eclética de música nas ondas do rádio via Worldwide FM, Jazz FM, BBC Radio e muito mais. Encontre-a no Instagram em @tinaedwardsdj

Meus pés e minha alma são movidos por músicas ousadas, percussivas e orientadas para o groove, e espero que os discos que escolhi para o MAJ reflitam isso. A música do Reino Unido é uma fusão de muitos estilos; você ouvirá jazz de pista de dança, funk, house e muito mais no meu set. Espero que gostem de ouvir tanto quanto eu gostei de descobrir esses discos!

Parada LGBTQIA+ começa em SP e retorna às ruas após dois anos; veja fotos

Evento retomou formato presencial, e tem como tema “Vote com orgulho – por uma política que representa”

Crédito: Joca Duarte/PhotoPress/Estadão Conteúdo

A Parada do Orgulho LGBTQIA+ começou neste domingo (19), com a expectativa de reunir cerca de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. O evento contará com shows e discursos ao longo da tarde, divididos em 19 trios elétricos.

O evento está na 26ª edição, e retomou o formato presencial após dois anos. Em 2020 e 2021, a parada ocorreu apenas de forma virtual, com lives, devido à pandemia de Covid-19.

Crédito: Joca Duarte/PhotoPress/Estadão Conteúdo
Crédito: Joca Duarte/PhotoPress/Estadão Conteúdo
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Bilheteria EUA: Jurassic World: Domínio, Lightyear, Top Gun: Maverick, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, Bob’s Burger: O Filme

Jurassic World: Domínio bate estreia de Lightyear e fica 2ª semana no topo das bilheterias dos EUA

Jurassic World: Domínio 

Jurassic World: Domínio continuou no topo das bilheterias norte-americanas em seu segundo fim de semana em cartaz. Com US$ 58 milhões de arrecadação, o filme ficou bem na frente da grande estreia da semana, Lightyearque apareceu na segunda posição com US$ 51 milhões.

Em terceiro,Top Gun: Maverick continua se mostrando um gigante das bilheterias, adicionando mais US$ 44 milhões ao seu total de arrecadação. Mundialmente, o filme já bateu US$ 800 milhões nas bilheterias. Em quarto lugar, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura US$ 4.2. Completando o pódio em quinto, Bob’s Burger: O Filme US$1.1

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Como Elizabeth Olsen passou de queridinha indie a protagonista da Marvel

Atriz americana é estrela de blockbusters atuais ‘WandaVision’ e ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’
Kyle Buchanan

A atriz americana Elizabeth Olsen, estrela da série da Disney+ ‘WandaVision’, em um hotel em Londres Rosie Marks/The New York Times

Elizabeth Olsen está acostumada a esperar nos bastidores. Quando estudava teatro na Universidade de Nova York, ela conseguiu um papel como substituta na peça “Impressionism”, estrelada por Jeremy Irons na Broadway. A peça ficou em cartaz por 56 dias. Olsen não subiu ao palco nenhuma vez.

Oportunidades perdidas como essa às vezes têm efeitos negativos sobre a mente de uma atriz, mas Olsen nunca teve pressa de chegar ao estrelato. Anos mais tarde, ao ser escalada como a bruxa Wanda Maximoff, que tem o poder de distorcer a realidade, em “Vingadores: Era de Ultron”, ela era mais uma coadjuvante dos Vingadores do que membro da equipe, e nos três filmes subsequentes da Marvel —cada qual mais repleto de super-heróis do que o precedente—, o nome de Olsen jamais esteve acima do décimo posto na lista de créditos.

A atriz americana Elizabeth Olsen, que interpretou recentemente papeis protagonistas em 'WandaVision' e 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura'
A atriz americana Elizabeth Olsen, que interpretou recentemente papeis protagonistas em ‘WandaVision’ e ‘Doutor Estranho no Multiverso da Lo Rosie Marks/The New York Times/Rosie Marks/The New York Times

Mas uma coisa engraçada aconteceu, depois de todo esse tempo que ela passou escondida: “WandaVision”, uma série que parodia as sitcoms tradicionais, sobre Wanda e seu marido androide, se tornou um fenômeno inesperado ao ser lançada no ano passado pelo serviço de streaming Disney+.

Este mês, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, que tem Olsen no segundo papel e opõe a complicada bruxa que ela interpreta ao feiticeiro interpretado por Benedict Cumberbatch, provou ser um sucesso ainda maior. O filme faturou US$ 185 milhões em seus três primeiros dias de exibição nos Estados Unidos, conquistando o 11º lugar na lista de maiores estreias cinematográficas de todos os tempos.

Para Olsen, que se destacou inicialmente trabalhando em filmes independentes, isso é o equivalente a virar a página de uma revista em quadrinhos e descobrir o rosto de seu personagem ocupando o painel central. Em uma conversa por vídeo na semana passada, perguntei a ela qual era a sensação de chegar ao estrelato como protagonista de um “blockbuster”.

“Estou morrendo de vergonha!”, ela disse. “Nem vou assistir ao filme.”

Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série "WandaVision"
Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série “WandaVision” Divulgação

Horas depois de nossa conversa, Olsen caminharia pelo tapete vermelho na estreia de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” em Hollywood, mas o plano dela era fugir correndo do cinema assim que o filme começasse. “Essa é uma pressão que estou sentindo pela primeira vez”, ela disse. “Senti muita ansiedade com o lançamento do filme, porque até agora eu nunca tinha tido de protagonizar um filme comercial.”

Porque o diretor de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, Sam Raimi, ainda não tinha assistido a todos os episódios de “WandaVision” quando a filmagem começou, coube a Olsen encontrar o complicado meio do caminho entre os dois projetos.

Na série da Disney+, Wanda está tão magoada depois da morte de seu verdadeiro amor, Vision (Paul Bettany), que ela inventa uma elaborada realidade de seriado de TV na qual ele ainda está vivo, e acrescenta dois filhos à família, para completar a ilusão. Mas em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, seu papel é muito mais complicado: corrompida por um livro demoníaco de feitiços, Wanda se torna vilã e sufoca todo um elenco de mocinhos, enquanto viaja pelo multiverso em busca de seus filhos.

Cena do filme Doutor Estranho no Multiverso da Loucura
Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série “WandaVision” Divulgação

Olsen “é assustadora não por causa de seus poderes destrutivos ou suas ambições diabólicas, mas porque ela está tão triste”, escreveu A.O. Scott, o crítico de cinema do The New York Times. E se você ainda sente simpatia por Wanda enquanto ela tritura os nossos heróis, isso acontece por causa do esforço de Olsen para embasar a personagem em algo que parece íntimo e específico.

Quando Wanda faz uma ameaça letal, a voz de Olsen se abranda e seus olhos se enchem de lágrimas de arrependimento. Há uma pessoa real ali. (Enquanto outras atrizes no reino das supervilãs tendem ao exagero histriônico, Olsen compreende que, se você está flutuando no ar, com uma tiara vermelha na cabeça, o exagero da situação já é suficiente.)

Depois de seis projetos como esse na Marvel, essa é a espécie de carreira que ela esperava no cinema? Nem tanto. “Isso me privou da capacidade física de fazer certos trabalhos que eu achava que se alinhavam melhor às coisas de que gosto como espectadora”, disse Olsen. “E essa é a resposta mais honesta que posso oferecer.”

Olsen sabia que queria ser atriz desde criança, mas também sabia que não queria trabalhar como atriz quando criança. Qualquer curiosidade que ela pudesse ter com relação à fama foi saciada porque ela cresceu na companhia de suas irmãs, Mary-Kate e Ashley, que foram escolhidas para o elenco da série “Três É Demais” antes de chegarem ao primeiro aniversário. Por isso, Elizabeth Olsen sabia que o escrutínio e a distorção da realidade trazidos pelo estrelato podiam esperar.

Cena do filme 'A Casa Silenciosa'
Cena do filme ‘A Casa Silenciosa’ – Divulgação

E de qualquer forma ela se sentia mais confortável como parte de um grupo. Olsen jogava vôlei, no segundo grau, e a camaradagem do esporte a inspirava: todos podiam ter seu momento de destaque, mas era preciso que trabalhassem juntos para que o time tivesse sucesso. Mesmo na universidade, quando ela começou a procurar papéis no cinema, Olsen não teve pressa de deixar o grupo de teatro de que ela fazia parte desde a escola.

Mas atuar em filmes nem sempre é igualitário. Em 2011, Olsen ganhou fama no Sundance Film Festival com dois papéis principais: em “A Casa Silenciosa”, um thriller rodado em tomada única na qual a lente a acompanha por 87 minutos, e em “Martha Marcy May Marlene”, no qual ela interpretava a antiga integrante de um culto que tenta se ajustar ao mundo depois de abandoná-lo.

O golpe duplo levou muita gente a apelidá-la de “a it girl de Park City”, mas apesar de os figurões e os poderosos estarem esperando em fila na neve para conversar com ela, Olsen não confiava em nada do que eles lhe diziam.

“Minha sensação era a de que todos eles estavam sendo dúplices”, ela disse. “E eu pensava comigo mesma que aquilo era uma bolha. Eu sentia literalmente que estava presa dentro de um globo de neve.”

Passar por aquela experiência lhe ensinou duas coisas: ela não queria ser escalada sempre como a garota chorona dos filmes “indie”, mas tampouco queria passar de primeira para os filmes de grande orçamento. “Aquilo me parecia assustador, aquele tipo de pressão”, ela disse.

Mas, ainda assim, às vezes é bacana ser convidado para a festa. Depois de alguns anos como atriz e de uma sucessão de filmes independentes discretos, ela perguntou ao seu agente por que não era convidada para filmes maiores. A resposta: “As pessoas não acham que você quer fazer esse tipo de filme”.

Ela queria? Foi uma pergunta que Olsen teve de fazer a si mesma então —e que continua a fazer de vez em quando, ainda agora. Olsen decidiu que precisava de uma presença maior no mercado e assinou para uma refilmagem de “Godzilla”, em 2014, arrazoando que pelo menos o filme seria dirigido por Gareth Edwards, que até ali era um cineasta independente.

E em seguida veio o papel de Wanda, e com ele o ingresso na maior das franquias de Hollywood. Quando Olsen estava refletindo sobre o convite da Marvel para fazer “Vingadores: Era de Ultron”, ela fez uma lista de pontos positivos: seria uma forma de contrariar o estereótipo de atriz de filmes independentes; ela de novo seria parte de um elenco, embora os personagens tivessem superpoderes; e Aaron Taylor-Johnson, que trabalhou com ela em “Godzilla”, estava disposto a aceitar o convite para interpretar Pietro, o irmão de Wanda, o que garantiria que ela não estaria sozinha. Os dois assinaram juntos para fazer “Ultron”.

Mas Pietro morre no final daquele filme, e enquanto Wanda, abalada, continuava seu percurso pelo Universo Cinematográfico Marvel, imaginando se aquele era mesmo o seu lugar, a mesma questão ocorreu a Olsen.

Por conta de seus compromissos com produções da Marvel, ela teve de recusar um convite para um dos papéis principais em “O Lagosta”, comédia sombria de Yorgos Lanthimos, e Olsen não precisava de um multiverso para imaginar como aquele filme poderia tê-la propelido por um caminho inteiramente diferente como atriz.

“Comecei a me sentir frustrada”, ela disse. “Tinha trabalho garantido, mas estava perdendo oportunidades que sentia que eram mais sintonizadas comigo. E quanto mais eu me afastava daquele tipo de trabalho, menos convites eu recebia.”

“O Falcão e o Soldado Invernal” deveria ter sido a primeira série da Marvel para o Disney+, uma história de ação convencional na qual super-heróis socam vilões em cada episódio de 60 minutos. “WandaVision”, em contraste, era uma paródia de sitcom, com episódios de 30 minutos, e as brigas mais significativas da história eram conjugais, acompanhadas por uma fantasmagórica trilha de risos gravados.

“Nós achávamos que o que o estávamos fazendo era esquisito demais e não sabíamos se teria audiência, e isso nos deu alguma liberdade”, disse Olsen. “Não havia pressão, não havia medo. Foi uma experiência realmente saudável.”

Mas quando a pandemia forçou a Marvel a alterar a ordem de estreia de suas séries na Disney+, “WandaVision” foi ao ar primeiro e se tornou a improvável porta-bandeira do Universo Marvel no streaming. A série gerou memes incontáveis, levou a congestionamento nas redes do serviço de streaming diversas vezes e conquistou 23 indicações ao Emmy, entre as quais uma para Olsen como melhor atriz.

O mais importante é que “WandaVision” a ajudou a se apaixonar por Wanda —uma personagem que interpretava há anos— pela primeira vez. A série oferecia uma seleção estonteante de variações quanto ao papel —algumas borbulhantes como as sitcoms tradicionais, outras modernas e morosas— e o primeiro episódio, gravado ao vivo diante de espectadores, requereu todo o treinamento teatral de Olsen.

Ela não tinha certeza de que a ideia cairia bem junto às grandes audiências, até que amigos lhe enviaram um vídeo de um “brunch” de drag queens em Minneapolis em que todas as participantes estavam vestidas como os alter egos de Wanda. “Se você chega a esse ponto”, disse Olsen, rindo, “você com certeza se tornou parte da cultura”.

Com a Viúva Negra de Scarlett Johansson fora do quadro, Olsen agora é a atriz Marvel com mais horas de voo. Será que ela se sente revigorada o bastante, depois de “WandaVision”, e de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, para um filme solo sobre sua personagem?

“Acho que sim”, ela disse. “Mas a história teria de ser realmente boa. Acho que esses filmes são melhores quando o importante não é criar conteúdo, mas sim ter um ponto de vista forte —e não porque você precisa de um plano para três filmes.”

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci