Como Elizabeth Olsen passou de queridinha indie a protagonista da Marvel

Atriz americana é estrela de blockbusters atuais ‘WandaVision’ e ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’
Kyle Buchanan

A atriz americana Elizabeth Olsen, estrela da série da Disney+ ‘WandaVision’, em um hotel em Londres Rosie Marks/The New York Times

Elizabeth Olsen está acostumada a esperar nos bastidores. Quando estudava teatro na Universidade de Nova York, ela conseguiu um papel como substituta na peça “Impressionism”, estrelada por Jeremy Irons na Broadway. A peça ficou em cartaz por 56 dias. Olsen não subiu ao palco nenhuma vez.

Oportunidades perdidas como essa às vezes têm efeitos negativos sobre a mente de uma atriz, mas Olsen nunca teve pressa de chegar ao estrelato. Anos mais tarde, ao ser escalada como a bruxa Wanda Maximoff, que tem o poder de distorcer a realidade, em “Vingadores: Era de Ultron”, ela era mais uma coadjuvante dos Vingadores do que membro da equipe, e nos três filmes subsequentes da Marvel —cada qual mais repleto de super-heróis do que o precedente—, o nome de Olsen jamais esteve acima do décimo posto na lista de créditos.

A atriz americana Elizabeth Olsen, que interpretou recentemente papeis protagonistas em 'WandaVision' e 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura'
A atriz americana Elizabeth Olsen, que interpretou recentemente papeis protagonistas em ‘WandaVision’ e ‘Doutor Estranho no Multiverso da Lo Rosie Marks/The New York Times/Rosie Marks/The New York Times

Mas uma coisa engraçada aconteceu, depois de todo esse tempo que ela passou escondida: “WandaVision”, uma série que parodia as sitcoms tradicionais, sobre Wanda e seu marido androide, se tornou um fenômeno inesperado ao ser lançada no ano passado pelo serviço de streaming Disney+.

Este mês, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, que tem Olsen no segundo papel e opõe a complicada bruxa que ela interpreta ao feiticeiro interpretado por Benedict Cumberbatch, provou ser um sucesso ainda maior. O filme faturou US$ 185 milhões em seus três primeiros dias de exibição nos Estados Unidos, conquistando o 11º lugar na lista de maiores estreias cinematográficas de todos os tempos.

Para Olsen, que se destacou inicialmente trabalhando em filmes independentes, isso é o equivalente a virar a página de uma revista em quadrinhos e descobrir o rosto de seu personagem ocupando o painel central. Em uma conversa por vídeo na semana passada, perguntei a ela qual era a sensação de chegar ao estrelato como protagonista de um “blockbuster”.

“Estou morrendo de vergonha!”, ela disse. “Nem vou assistir ao filme.”

Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série "WandaVision"
Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série “WandaVision” Divulgação

Horas depois de nossa conversa, Olsen caminharia pelo tapete vermelho na estreia de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” em Hollywood, mas o plano dela era fugir correndo do cinema assim que o filme começasse. “Essa é uma pressão que estou sentindo pela primeira vez”, ela disse. “Senti muita ansiedade com o lançamento do filme, porque até agora eu nunca tinha tido de protagonizar um filme comercial.”

Porque o diretor de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, Sam Raimi, ainda não tinha assistido a todos os episódios de “WandaVision” quando a filmagem começou, coube a Olsen encontrar o complicado meio do caminho entre os dois projetos.

Na série da Disney+, Wanda está tão magoada depois da morte de seu verdadeiro amor, Vision (Paul Bettany), que ela inventa uma elaborada realidade de seriado de TV na qual ele ainda está vivo, e acrescenta dois filhos à família, para completar a ilusão. Mas em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, seu papel é muito mais complicado: corrompida por um livro demoníaco de feitiços, Wanda se torna vilã e sufoca todo um elenco de mocinhos, enquanto viaja pelo multiverso em busca de seus filhos.

Cena do filme Doutor Estranho no Multiverso da Loucura
Elizabeth Olsen e Paul Bettany em cena da série “WandaVision” Divulgação

Olsen “é assustadora não por causa de seus poderes destrutivos ou suas ambições diabólicas, mas porque ela está tão triste”, escreveu A.O. Scott, o crítico de cinema do The New York Times. E se você ainda sente simpatia por Wanda enquanto ela tritura os nossos heróis, isso acontece por causa do esforço de Olsen para embasar a personagem em algo que parece íntimo e específico.

Quando Wanda faz uma ameaça letal, a voz de Olsen se abranda e seus olhos se enchem de lágrimas de arrependimento. Há uma pessoa real ali. (Enquanto outras atrizes no reino das supervilãs tendem ao exagero histriônico, Olsen compreende que, se você está flutuando no ar, com uma tiara vermelha na cabeça, o exagero da situação já é suficiente.)

Depois de seis projetos como esse na Marvel, essa é a espécie de carreira que ela esperava no cinema? Nem tanto. “Isso me privou da capacidade física de fazer certos trabalhos que eu achava que se alinhavam melhor às coisas de que gosto como espectadora”, disse Olsen. “E essa é a resposta mais honesta que posso oferecer.”

Olsen sabia que queria ser atriz desde criança, mas também sabia que não queria trabalhar como atriz quando criança. Qualquer curiosidade que ela pudesse ter com relação à fama foi saciada porque ela cresceu na companhia de suas irmãs, Mary-Kate e Ashley, que foram escolhidas para o elenco da série “Três É Demais” antes de chegarem ao primeiro aniversário. Por isso, Elizabeth Olsen sabia que o escrutínio e a distorção da realidade trazidos pelo estrelato podiam esperar.

Cena do filme 'A Casa Silenciosa'
Cena do filme ‘A Casa Silenciosa’ – Divulgação

E de qualquer forma ela se sentia mais confortável como parte de um grupo. Olsen jogava vôlei, no segundo grau, e a camaradagem do esporte a inspirava: todos podiam ter seu momento de destaque, mas era preciso que trabalhassem juntos para que o time tivesse sucesso. Mesmo na universidade, quando ela começou a procurar papéis no cinema, Olsen não teve pressa de deixar o grupo de teatro de que ela fazia parte desde a escola.

Mas atuar em filmes nem sempre é igualitário. Em 2011, Olsen ganhou fama no Sundance Film Festival com dois papéis principais: em “A Casa Silenciosa”, um thriller rodado em tomada única na qual a lente a acompanha por 87 minutos, e em “Martha Marcy May Marlene”, no qual ela interpretava a antiga integrante de um culto que tenta se ajustar ao mundo depois de abandoná-lo.

O golpe duplo levou muita gente a apelidá-la de “a it girl de Park City”, mas apesar de os figurões e os poderosos estarem esperando em fila na neve para conversar com ela, Olsen não confiava em nada do que eles lhe diziam.

“Minha sensação era a de que todos eles estavam sendo dúplices”, ela disse. “E eu pensava comigo mesma que aquilo era uma bolha. Eu sentia literalmente que estava presa dentro de um globo de neve.”

Passar por aquela experiência lhe ensinou duas coisas: ela não queria ser escalada sempre como a garota chorona dos filmes “indie”, mas tampouco queria passar de primeira para os filmes de grande orçamento. “Aquilo me parecia assustador, aquele tipo de pressão”, ela disse.

Mas, ainda assim, às vezes é bacana ser convidado para a festa. Depois de alguns anos como atriz e de uma sucessão de filmes independentes discretos, ela perguntou ao seu agente por que não era convidada para filmes maiores. A resposta: “As pessoas não acham que você quer fazer esse tipo de filme”.

Ela queria? Foi uma pergunta que Olsen teve de fazer a si mesma então —e que continua a fazer de vez em quando, ainda agora. Olsen decidiu que precisava de uma presença maior no mercado e assinou para uma refilmagem de “Godzilla”, em 2014, arrazoando que pelo menos o filme seria dirigido por Gareth Edwards, que até ali era um cineasta independente.

E em seguida veio o papel de Wanda, e com ele o ingresso na maior das franquias de Hollywood. Quando Olsen estava refletindo sobre o convite da Marvel para fazer “Vingadores: Era de Ultron”, ela fez uma lista de pontos positivos: seria uma forma de contrariar o estereótipo de atriz de filmes independentes; ela de novo seria parte de um elenco, embora os personagens tivessem superpoderes; e Aaron Taylor-Johnson, que trabalhou com ela em “Godzilla”, estava disposto a aceitar o convite para interpretar Pietro, o irmão de Wanda, o que garantiria que ela não estaria sozinha. Os dois assinaram juntos para fazer “Ultron”.

Mas Pietro morre no final daquele filme, e enquanto Wanda, abalada, continuava seu percurso pelo Universo Cinematográfico Marvel, imaginando se aquele era mesmo o seu lugar, a mesma questão ocorreu a Olsen.

Por conta de seus compromissos com produções da Marvel, ela teve de recusar um convite para um dos papéis principais em “O Lagosta”, comédia sombria de Yorgos Lanthimos, e Olsen não precisava de um multiverso para imaginar como aquele filme poderia tê-la propelido por um caminho inteiramente diferente como atriz.

“Comecei a me sentir frustrada”, ela disse. “Tinha trabalho garantido, mas estava perdendo oportunidades que sentia que eram mais sintonizadas comigo. E quanto mais eu me afastava daquele tipo de trabalho, menos convites eu recebia.”

“O Falcão e o Soldado Invernal” deveria ter sido a primeira série da Marvel para o Disney+, uma história de ação convencional na qual super-heróis socam vilões em cada episódio de 60 minutos. “WandaVision”, em contraste, era uma paródia de sitcom, com episódios de 30 minutos, e as brigas mais significativas da história eram conjugais, acompanhadas por uma fantasmagórica trilha de risos gravados.

“Nós achávamos que o que o estávamos fazendo era esquisito demais e não sabíamos se teria audiência, e isso nos deu alguma liberdade”, disse Olsen. “Não havia pressão, não havia medo. Foi uma experiência realmente saudável.”

Mas quando a pandemia forçou a Marvel a alterar a ordem de estreia de suas séries na Disney+, “WandaVision” foi ao ar primeiro e se tornou a improvável porta-bandeira do Universo Marvel no streaming. A série gerou memes incontáveis, levou a congestionamento nas redes do serviço de streaming diversas vezes e conquistou 23 indicações ao Emmy, entre as quais uma para Olsen como melhor atriz.

O mais importante é que “WandaVision” a ajudou a se apaixonar por Wanda —uma personagem que interpretava há anos— pela primeira vez. A série oferecia uma seleção estonteante de variações quanto ao papel —algumas borbulhantes como as sitcoms tradicionais, outras modernas e morosas— e o primeiro episódio, gravado ao vivo diante de espectadores, requereu todo o treinamento teatral de Olsen.

Ela não tinha certeza de que a ideia cairia bem junto às grandes audiências, até que amigos lhe enviaram um vídeo de um “brunch” de drag queens em Minneapolis em que todas as participantes estavam vestidas como os alter egos de Wanda. “Se você chega a esse ponto”, disse Olsen, rindo, “você com certeza se tornou parte da cultura”.

Com a Viúva Negra de Scarlett Johansson fora do quadro, Olsen agora é a atriz Marvel com mais horas de voo. Será que ela se sente revigorada o bastante, depois de “WandaVision”, e de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, para um filme solo sobre sua personagem?

“Acho que sim”, ela disse. “Mas a história teria de ser realmente boa. Acho que esses filmes são melhores quando o importante não é criar conteúdo, mas sim ter um ponto de vista forte —e não porque você precisa de um plano para três filmes.”

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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