Caso Klara Castanho reforça que o aborto deve ser legalizado

Atriz mostrou que a mulher deve decidir o que fazer com a sua vida e que o corpo é dela, não do Estado
Teté Ribeiro

A atriz Klara Castanho – Instagram/klarafgcastanho

No livro “Só Garotos”, lançado em 2010 pela cantora Patti Smith, um dos ícones do movimento punk e uma das vozes feministas mais influentes do rock, ela revela que teve uma gravidez indesejada aos 21 anos e decidiu gerar o bebê e entregar para adoção.

A história não é contada sem dor, como nenhuma história de gravidez indesejada, e me marcou muito por ser o primeiro relato que li de uma mulher influente que viveu essa experiência. Fiquei pensando em quem terá se tornado esse bebê, uma menina, hoje uma mulher de 54 anos, provavelmente fã da obra de sua mãe.

Como o assunto tinha a ver com o meu momento de vida então —meu purgatório da infertilidade, sete anos em que passei por todos os tratamentos disponíveis para engravidar, sem sucesso—, fui pesquisar a respeito.

Há uma lista de celebridades que já puseram os filhos para adoção. Segundo reportagens, em 1935 os atores Clark Gable e Loretta Young tiveram um romance e ela engravidou de uma menina, que foi entregue a um orfanato assim que nasceu. Gable nunca assumiu a paternidade da criança, mas a mãe adotou a própria filha pouco mais de um ano depois de a entregar ao orfanato.

A cantora canadense Joni Mitchell, hoje com 78 anos, também teve uma gravidez indesejada na juventude e entregou a bebê, uma menina, para adoção. Em 2001, as duas se reencontraram.

Os músicos Rod Stewart, de 77 anos, e David Crosby, de 80, da lendária banda Crosby, Stills, Nash & Young, têm histórias parecidas. Jovens, engravidaram as namoradas e decidiram que os bebês seriam mais bem cuidados por uma família que os adotassem. Mais tarde, ambos reencontraram os filhos. Crosby chegou a fazer show com o filho.

Nenhum brasileiro na lista.

Klara Castanho é a primeira mulher brasileira conhecida a assumir esse fato publicamente. Salvo engano, nunca houve uma declaração dessas de uma pessoa que teoricamente teria condições financeiras e familiares de cuidar de um bebê.

Mas ela não pôde fazer esse gesto por escolha, não teve a oportunidade de refletir e decidir contar a verdade porque isso a libertaria e talvez abrisse o caminho para que outras mulheres pensassem nessa possibilidade.

Teve que ver sua vida íntima virar pública por, até onde se sabe, provável chantagem de quem deveria cuidar dela num dos momentos mais sensíveis de sua história. Aos 21 anos, Klara Castanho já trabalha há 20. Emancipada aos 16, já disse em várias entrevistas que tem intenção de voltar a estudar e se formar em direito ou psicologia.

Mas sofreu uma das violências mais hediondas que uma mulher pode sofrer, em uma longa lista. Foi estuprada. E engravidou. Percebeu isso tarde, quando um aborto já seria pouco recomendável e muito arriscado. Não sei se essa teria sido sua opção, e não importa. Não devia importar, nem para mim nem para ninguém.

Há histórias de sobra de famílias brasileiras que dão os filhos para serem criados por seus patrões, ou que trocam por comida em um momento de desespero, entre outras tramas bem mais dramáticas.

Mas é diferente. Nas histórias que se ouvem por aqui, é a miséria que faz uma mãe ou um pai optarem por entregar uma criança, não a falta de condições pessoais, psicológicas, mentais, ou mesmo a falta de vontade de abrir mão dos projetos de vida para criar um filho que pesam na decisão.

Como estamos numa sociedade majoritariamente católica e na qual a porção evangélica caminha para um terço da população nos próximos anos —e como ambas as religiões condenam o aborto em qualquer forma—, tudo parece pecado na história de uma mulher que engravida sem querer.

Por essa lógica, querer sexo é pecado; não se proteger —nem proteger o parceiro desse infortúnio—; depois engravidar; e, meu Deus, não querer o filho, é “safadeza”, no mínimo. “Golpe da barriga.” Enfim, alguma a mulher aprontou.

Na minha geração, de gente que viveu os últimos minutos do sexo mais ou menos livre dos anos 1980, fazer aborto era meio um rito de passagem —uma peneira imaginária que separava as meninas verdadeiramente rebeldes e libertárias das caretas disfarçadas, que faziam tudo igual, mas aí se “acovardavam” e tinham os bebês.

Ninguém passa por um aborto impunemente. Muito menos por ter um bebê que não queria. Ninguém passa pela vida impunemente. E, sim, o aborto deve ser legalizado, cada mulher que decida o que fazer com sua vida e com seu corpo —e o que está dentro do corpo de uma mulher é dela, não do Estado.

Pagar o preço a cada decisão ou a cada reviravolta da nossa história íntima não é uma questão que se decida num tribunal, muito menos pelo tribunal da opinião pública.

Eu não conhecia Klara Castanho até ontem. Hoje, sou fã. E torço para que ela faça da vida exatamente o que quiser, sem prestar contas a ninguém. Sem pedir desculpas, sem dar explicações.

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