Lançamento de Beyoncé levanta novo debate sobre citações em músicas

Autoria da faixa sofreu reviravoltas e causou burburinho entre fãs
RICH JUZWIAK

Beyoncé na capa de ‘Renaissance’ – @beyonce no Instagram

THE NEW YORK TIMES – A introdução é inconfundível, para qualquer pessoa que tenha entrado em uma pista de dança nas três últimas décadas. Uma linha bruta de sintetizador e uma batida forte abrem caminho para a “pièce de résistance” instrumental: um órgão com molejo suficiente para criar um balanço forte. E em seguida vem um uivo humano, urgente como um sinal de alerta.

“Show Me Love”, de Robin S., se tornou “provavelmente a canção de dança mais onipresente da história moderna”, disse Larry Flick, que era editor de dance music da revista Billboard quando a faixa foi lançada, em 1993. De lá para cá, ela já foi remixada, regravada e referenciada mais de 100 vezes, de acordo com o site WhoSampled. E nunca desapareceu –Charli XCX a usa como espinha dorsal de “Used to Know Me”, uma das faixas de seu álbum “Crash”, lançado neste ano.

A faixa voltou estrondosamente à consciência do público em 20 de junho, com o lançamento de “Break My Soul”, o frenético primeiro single do muito aguardado álbum novo de Beyoncé, “Renaissance”, que chega dia 29 de julho. Os ouvintes perceberam ecos de “Show Me Love” na faixa e, quando ela estreou nos serviços de streaming, Allen George e Fred McFarlane, os compositores da canção, foram incluídos nos créditos do single de Beyoncé, em companhia de Adam Pigott; Big Freedia, que canta na faixa; Jay-Z; e de seus três produtores, Terius Nash (conhecido como The-Dream), Christopher “Tricky” Stewart e Beyoncé. Robin S. –o pseudônimo artístico de Robin Jackson Maynard– deu uma entrevista à BBC no último dia 22 e agradeceu Beyoncé por “me dar flores enquanto ainda estou viva”, e críticos voltaram a debater os méritos das citações sonoras, em resenhas e postagens de blog.

A prática de adicionar nomes de novos parceiros a composições já existentes é “muito, muito popular”, disse Christopher Buccafusco, professor de direito na Cardozo School of Law. “Alguém pode decidir, em determinado momento, que a canção se parece demais com alguma coisa que já existe”, ele disse. Mas, apontou, “tipicamente as pessoas não incluem nomes de autores em uma canção a menos que isso tenha sido negociado, a não ser que isso tenha sido conversado”.

A versão de “Show Me Love” que se tornou sucesso internacional e chegou ao quinto lugar da parada Hot 100 em 1993, na verdade, era um remix, produzido pelo produtor sueco de dance music Sten Hallström, que lança seus trabalhos sob o pseudônimo StoneBridge. (Alguns discos de 12 polegadas creditam StoneBridge e seu frequente colaborador Nick Nice pelos remixes todos, mas na faixa específica que está em questão, disse StoneBridge ao The New York Times, “fui eu que fiz o trabalho”.) A canção original de George e McFarlane foi gravada em 1989, de acordo com Robin S. A produção trazia referência à disco music e nada tinha de diferente do padrão típico da house music do período; quando o disco saiu, em 1990, seu impacto foi rigorosamente zero.

StoneBridge, na época um produtor jovem e em ascensão, pediu à gravadora Champion, que tinha lançado “Show Me Love” no Reino Unido, material para novas mixagens.

“A Champion estava obcecada com o estilo que eles chamavam, de ‘sweet and sour’”, disse StoneBridge, 60, em uma entrevista por telefone, de seu estúdio em Estocolmo. Ele procurou um som pré-programado em seu sintetizador Korg M1, e encontrou o “preset” Organ 2. O produtor tocou a linha de baixo da canção usando esse som. Isso criou a parte doce e cheia de balanço do arranjo. A parte ácida vem do som que abre a faixa, produto de um sintetizador Yamaha DX100, que ele tocou com os controles de volume, graves e agudos além da linha vermelha, para criar distorção. StoneBridge temperou o resultado, e o vocal de Robin S., com efeitos de “delay”. O resultado foi um som minimalista, parecido com a house music de Chicago, mas repleto de sonoridades novas. StoneBridge não estava muito confiante quanto à sua produção, mas o prazo que ele tinha para o trabalho o forçou a entregar a faixa como estava.

Quando Robin S. ouviu o remix, ela ficou atônita, disse a cantora em uma entrevista na semana passada. Por fim a canção estava completa.

O vocal tinha sido gravado anos antes, em uma tomada só (sem contar os improvisos), em um dia em que ela estava gripada, recordou Robin S. por telefone, de sua casa em Atlanta. No começo, a composição não a impressionou muito. Alguns anos mais tarde, depois da revisão realizada por StoneBridge, a popularidade da faixa explodiu, no mundo inteiro. “Show Me Love” não foi a primeira faixa em estilo house a usar o som Organ 2 do Korg M1, mas foi um sucesso muito maior do que qualquer tentativa precedente.

No começo da semana passada, a cantora recebeu um telefonema no qual foi informada de que tinha se transformado em “trending topic” de mídia social, como resultado da referência evidente a “Show Me Love” na nova canção de Beyoncé, que reproduz o som do Korg M1 (em ritmo diferente). Robin S. e StoneBridge disseram que não faziam ideia do que estava por acontecer. StoneBridge descobriu a conexão quando fez uma busca sobre seu nome no Twitter.

“Eu não sabia se ria ou chorava”, disse Robin S., 60. “De todas as canções a que ela tem acesso, de todas as canções a que a equipe dela tem acesso, ela escolheu a minha”. A cantora disse que ficou especialmente tocada por sentir que artistas de dance music, como ela, “não recebem o respeito devido”, apesar do trabalho duro.

Robin S. se recusou a dizer quanto recebeu como pagamento pela gravação de “Show Me Love”, que ela não compôs. “Vou dizer só isso: o dinheiro que eu ganhei foi com os shows”, ela afirmou. A cantora tirou uma licença de seu emprego como secretária executiva do prefeito de Hempstead, em Long Island, quando sua canção se tornou sucesso, em 1993, mas continua a trabalhar até hoje, ainda que tenha preferido não revelar seu emprego. Ela também continua a fazer turnês regularmente. O site de Robin S. menciona 19 datas de shows no futuro próximo, a maioria dos quais na Europa no trimestre que vem.

Embora o som do remix de StoneBridge seja aquilo que Beyoncé parece estar citando em sua faixa, o produtor não recebeu crédito como compositor por “Show Me Love”. Ele define o cenário resultante como “um pouquinho irritante”, mas, porque ele só alterou a canção em um remix, não se qualifica como compositor original.

StoneBridge tampouco está convencido de que a faixa de Beyoncé tenha usado diretamente trechos de seu remix. “Aos meus ouvidos, eles usaram o som grave do órgão e fizeram uma coisa parecida”, ele disse. “Não foi um sample”. (A equipe de Beyoncé sempre operou cuidadosamente no passado, dando crédito ao Animal Collective pela faixa “6 Inch”, no álbum “Lemonade”, por conta do uso de um fraseado semelhante.)

Mesmo assim, o lançamento de “Break My Soul” gerou um debate nuançado sobre a questão da propriedade na música popular contemporânea, e uma retomada do diálogo sobre o impacto de “Show Me Love”. (Ainda que, na opinião de alguns ouvintes, a faixa de Beyoncé na verdade faça referência a uma outra composição de McFarlane e George, “Luv 4 Luv”.)

Em 1993, a produção de StoneBridge criou a impressão de que “o mundo europeu da dance music tinha desenvolvido uma nova ideia, em lugar de se apropriar de ideias americanas”, de acordo com Flick, o ex-editor da Billboard que hoje é curador musical na Vero. Faixas que usam o programa órgão 2 do sintetizador Korg M1, como “Dreamer”, do Livin’ Joy, lançada em 1994, seguiram o mesmo caminho –assim como muitas outras faixas. Existem linhas de baixo vibrantes e cavernosas muito parecidas, em grandes sucessos como “Can’t Get You Out of My Head” (2001), de Kylie Minogue, e “Hideaway”, de Kiesza, de 2014.

“Show Me Love” foi citada por Daddy Yankee e Jason Derulo, e Clean Bandit and the xx gravaram uma cover da canção. Uma versão gravada por Sam, Feldt, com participação especial de Kimberly Anne, chegou ao Top 5 das paradas britânicas em 2015. Robin S. voltou a gravar a canção diversas vezes, mais recentemente para um remix em estilo disco produzido por Emmaculate, em 2021. Ela já cantou a música “um quaquilhão de vezes ou mais”, e disse que, desde a faixa chegou às paradas, nunca mais fez um show sem cantá-la.

Segundo Flick, o apelo duradouro de “Show Me Love” deriva daquele som de órgão sintetizado e do “vocal bruto”, que ele descreveu como tendo “algo de igreja”. A canção, em última análise, “soa moderna”, ele disse.

Incluir o som órgão 2 do Korg M1 em uma faixa provou ser uma forma garantida de conquistar ouvintes, e Flick afirmou que era quase uma “trapaça” de Beyoncé usar esse recurso. O som atingiu níveis novos de penetração na década de 2010, durante a retomada do “deep house” no Reino Unido, e a esta altura é uma escolha desgastada até para as maiores estrelas –a influência dessa sonoridade pode ser ouvida em “On the Floor”, que Jennifer Lopez gravou em 2011, em “Swish Swish” (2017″, de Katy Perry., e em todo o álbum “Chromatica”, de Lady Gaga, em 2020.

Por mais que a música pop dependa da inovação, às vezes tudo que é preciso é uma boa ideia ou duas, para criar um subgênero. “Muitas canções são complicadas –acordes demais, e melodias espalhadas por todo lado”, disse StoneBridge, avaliando o impacto de seu remix. “Já essa faixa é muito fácil de entender, o que acho que ajuda”.

Tradução de Paulo Migliacci

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