Rodrigo Santoro fala sobre os desafios da paternidade antimachista, a passagem do tempo e o desmonte da cultura

Ator está às vésperas de viver o navegador Fernão de Magalhães em superprodução espanhola
Por Ines Garçoni

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Sentado à vontade, num banco em meio à mata do Parque Lage, Rodrigo Santoro está entusiasmado. A fala animada do ator corta o silêncio do lugar. Ele está radiante e tem muito a dizer. No dia seguinte a esta entrevista de uma hora de duração, ainda não estava satisfeito e queria falar mais: mandou um áudio à repórter, por celular, para complementar uma resposta. Aos 46 anos, com quase três décadas de carreira, Rodrigo está exultante.

Acostumado a participar de superproduções, com metade dos seus 77 trabalhos feitos no exterior, ele estreia, nesta semana, como protagonista de uma das maiores séries já realizadas na Espanha, “Sem limites”, da Prime Video, dirigido por Simon West. O personagem é o navegador português Fernão de Magalhães, que, em busca de um novo caminho para as Índias, comandou a primeira volta ao mundo, que completa 500 anos em setembro. A expedição comprovou que a Terra é redonda, com a ajuda de Juan Sebastián Elcano, vivido na série pelo ator Álvaro Morte, o Professor da série “Casa de papel”. Dos 250 tripulantes, apenas 18 sobreviveram — é uma obra de ação, com batalhas e motins. Rodrigo pesquisou durante um ano, estudou sotaques medievais. “A pandemia adiou as filmagens várias vezes. Gosto de pesquisar, mas nem precisava de tanto tempo assim”, brinca.

Longe do Rio por alguns meses, ele foi acompanhado da mulher, a apresentadora Mel Fronckowiak, com quem está casado há uma década, e da filha Nina, de 5 anos. A família é outro tema que o deixa exultante: “Ser pai é meu papel mais importante”. É capaz de filosofar sobre a educação da filha por horas, e sobre a importância do diálogo em casa, sobre mudar comportamentos machistas… Alheio ao aviso de que o parque vai fechar, ele segue dissertando com prazer sobre a vida e a profissão. Rodrigo Santoro está radiante. Confira, a seguir, o que ele a dizer.

Como foi a preparação para a série?

O épico evoca uma viagem no tempo, eu gosto disso desde as minhas aulas de História da professora Jane, em Petrópolis. Mas o que aprendemos na escola é sempre uma narrativa superficial, né? Quando li o projeto, só vieram duas coisas na minha cabeça: Estreito de Magalhães e especiarias das Índias. Mais nada. Depois, vi que estava diante de uma grande história e de um grande personagem. Aí veio a pandemia e fiquei confinado com Mel, Nina e Magalhães (risos). Pesquisei muito, mesmo. Sabia que não podia construir um herói ou um vilão. Precisava humanizar essa figura polêmica. Ele se torna órfão bem cedo e é enviado para a Corte portuguesa para trabalhar como pagem. Luta pelo exército e se sai muito bem, mas nunca se sente reconhecido pelo rei. Ou seja, ele tem uma história de recalque e a necessidade de provar para Deus e o mundo, e para si mesmo, que tem valor.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Quais foram os maiores desafios?

Conversando com a minha professora espanhola, a Irene, perguntei como estava o meu sotaque. Ela disse “ah, tá legal”. Mas eu vi, no jeito dela, que tinha alguma coisa errada. “Irene, pode falar!” Então, ela alertou para o que soava latino-americano na minha fala, porque o nosso castelhano é diferente do espanhol, ainda mais daquele antigo. Eu quis melhorar e pedi mais sessões. Em relação ao português, foi a mesma coisa, porque não era respeitoso eu falar com sotaque brasileiro. Pedi ajuda do Gonçalo Diniz, ator português da série, que foi meu coach.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Como escolhe seus trabalhos?

Meu processo é dividido entre racional e instintivo. Tenho literalmente uma sensação de quando o papel é para mim. É como quando você vai a uma festa, conhece dez pessoas e tem uma ou duas ali que você acha legal, pega o telefone. Química: eu tenho essas coisas. E não tem fórmula. É mental também, claro, escolho baseado na minha experiência. Sabe aquela história de “a gente leva da vida a vida que a gente leva”? Pois é. Enquanto estou trabalhando, estou vivendo, não estou “construindo uma carreira”. Passei quatro meses na Espanha, escolhi estar lá, minha família foi junto, é uma mudança! É a nossa vida. E trabalhar em línguas e culturas diferentes é fascinante. O contato com o diferente me ensina muito. A diversidade é uma grande riqueza.

Você faz pouca publicidade. Como é o assédio das marcas? É uma escolha como a dos personagens?

Com o surgimento das novas mídias, a distância entre o anunciante e o consumidor foi reduzida. Com isso, é ainda mais necessário estabelecer relações autênticas entre o produto e o anunciante. Posso fazer um paralelo com a escolha das personagens, tem que dialogar comigo de alguma forma, fazer sentido com quem eu sou.

Rodrigo Santoro  — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Em 20 anos de Hollywood, você nunca fez um latino-americano caricato. Recusou muitos?

Ah, naquela época, os personagens eram muito estereotipados, e deixei de fazer vários. É que, como eu não botei a mochila nas costas e falei “vou para Hollywood fazer uma carreira”, pude recusar sem sofrer. Nem pensava em trabalhar fora. Tinha acabado de fazer “Bicho de Sete Cabeças” (2000), depois “Carandiru” (2003), que me levou para Cannes. Recebi um troféu Revelação em Cannes. Isso, para um ator, é algo… Até fiz um filme depois, “O último desafio” (2013), que o personagem tinha sobrenome latino (Martinez), mas a maioria não. Em 2018, me chamaram para a série “Reprisal”, cujo nome do personagem era Joel, e quando tive um encontro com o criador e o produtor, perguntei: “Se vocês me escolherem, vão mudar o nome para José ou outro latino?”. Eles perguntaram se isso influenciaria na minha decisão, e falei: “Sim”. Então, disseram que não mudariam. É um reflexo de um olhar maior para a representatividade e da revolução pós-streaming. Antes, as coisas eram mais estereotipadas. Lembro do meu agente, na época, dizer “mas isso vai ajudar a te lançar”, e eu respondia: “Não, nunca fiz esse caminho”. Por isso, não separo a carreira internacional e a brasileira. É uma estrada que vai serpenteando, mas é uma só.

Rodrigo Santoro  — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Quando começou, há quase 30 anos, a cultura brasileira ainda sofria com o desmonte da Era Collor. Vê semelhanças com o atual cenário?

Era muito ruim e agora também está. A cultura determina quem nós somos, é a identidade de um povo, é formadora do tecido social. E a forma como ela é tratada diz muito sobre o momento que vivemos. Este esvaziamento de propostas, falta de incentivos, de políticas públicas… A arte é um ofício, e muitas pessoas se sustentam a partir dela. Os mecanismos de fomento, como as leis de incentivo, permitem que profissionais do país inteiro possam trabalhar. Claro que é fundamental a fiscalização, mas é importante lembrar que a indústria cultural brasileira movimenta bilhões e gera muitos empregos e impostos. Esse movimento de criminalização da classe artística é muito complicado, com demonstrações de ódio e agressões. Espero que isso mude logo.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

E a rotina com a Nina, com temporadas fora do Rio?

Desde que nasceu, ela sempre esteve junto. Claro que ela sente quando a mãe ou o pai viajam, mas somos muito presentes. Por exemplo, quando fiz “Reprisal”, na Carolina do Norte, elas moraram comigo lá durante os sete meses. E a Mel também tem uma rotina de viagens… Mas a gente consegue se organizar. Este ano, de fevereiro a maio, ela passou viajando o Brasil a trabalho e eu fiquei em casa com a Nina. Isso é até uma questão interessante. Estou num processo de rever meu lugar como homem, criado nessa cultura machista, no patriarcado. Tenho aprendido muito com a Mel e a Nina. Em termos também de como a gente divide as coisas em casa, de como encontramos espaços para os dois. Temos muito para consertar, mudar, aprender. Então, neste lugar da família, eu venho escutando muito as duas.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Como é a educação da Nina?

Como pai, que é o meu papel mais importante da vida, venho estudando sobre uma educação mais positiva, de sair do lugar do “eu falo, e você escuta”, “eu sei o que é melhor para você”. Quando falo com a Nina, me agacho e fico na altura dela. Tento construir uma confiança, para que ela possa conversar as coisas comigo. Dá trabalho, claro. É mais fácil botar de castigo. Mas a gente busca ir no diálogo, no acolhimento, e tem dado resultado. A Nina fala dos sentimentos dela.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Vocês preservam muito a imagem dela. Por quê?

Sempre tive essa postura de manter a privacidade. Quando comecei a ficar conhecido, tive muita dificuldade em lidar com a exposição, com os paparazzi. Achava que era pessoal, mas fui amadurecendo e aprendendo a conviver. Sou de Petrópolis, não sou da praia, fui criado nas férias na fazendinha do meu avô com os bichos. Então, preservar a Nina faz parte dessa estrutura. É também uma forma de preservar algo meu, nosso, porque já é tanta coisa exposta… Mas a gente não fica escondendo ela, imagina. A Nina está tendo uma vida normal de criança, vai para a escola, tem as amigas dela. Não temos paranoia, só não publicamos fotos — mas não julgo quem faz. Se ela crescer e um dia disser que quer aparecer na foto, tudo bem, claro.

Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro
Rodrigo Santoro — Foto: Fe Pinheiro

Como lida com a passagem do tempo?

Não sou mais um homem de 20 e poucos anos e me sinto bem nesse corpo de 46. Hoje sei mais sobre mim do que sabia antes e isso me ajuda a mergulhar mais profundamente nas questões da vida. Procuro me cuidar pra estar bem e encarar a correria. Envelhecer é exercitar a aceitação da transitoriedade da vida.

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