Análise: peça ‘Ninguém sabe meu nome’ é um libelo antirracista

O novo espetáculo de Ana Carbatti é, ao lado do filme “República”, de Grace Passô, das grandes obras brasileiras da pandemia
Por Guilherme Coelho — Rio de Janeiro

Ana Carbatti no monólogo “Ninguém sabe meu nome”, em cartaz no Sesc Copacabana. Foto: Divulgação/Daniel Barboza

Ao assistir a “Ninguém sabe meu nome”, nova peça de Ana Carbatti, em cartaz no Sesc Copacabana, eu vi um homem chorar na minha frente. Um homem sentado na plateia, bem na fileira à frente, ao alcance dos meus dedos. Eu vi este homem aos prantos, em menos de dez minutos de espetáculo. Antes, no escuro da plateia, de onde nada se espera, eu o ouvi apenas arfar. Depois, vendo-o chorar como uma criança, me dei conta que eu já o havia notado, ao me sentar. Um homem bonito, ficando grisalho, camisa social num sábado. Ele seguiu soluçando durante toda a peça.

E eu nunca senti nada igual no teatro. Uma identificação instantânea, não com quem está no palco, mas com alguém na plateia. E me emocionei. Eu sou o outro. Somos o outro. E o teatro nos coloca nesse coletivo. Me lembrei o que é catarse, e voltei a acreditar nela. Dois anos depois, ao voltarmos a conviver, a nos encontrar, a nos apresentar, a dançar, a cantar juntos, acho que teremos belas surpresas. Juntos.

“Ninguém sabe o meu nome” é — com o filme “República”, de Grace Passô — das grandes obras brasileiras da pandemia. (Do que eu vi da pandemia, obviamente.) Não por acaso foram feitos por mulheres, e ambos podem ser vistos como libelos antirracistas. E, por isso, também são muito mais do que isso. São urros republicanos — tudo que precisamos hoje — cheios de som e fúria.

Em 2008, José Murilo de Carvalho escreveu que a desigualdade de renda é a principal questão brasileira hoje, como foi a escravização dos pretos nos séculos passados. O texto de Ana Carbatti, e sua apresentação dirigida por Inez Viana e Isabel Cavalcanti, nos emociona ao compreendermos que para uma jovem ou um jovem, um filho ou uma filha, crescer preto no Brasil é crescer para vencer séculos de História, de uma história que não passa. É lutar para sobreviver à linha mágica dos 30 anos de idade — o sonho de toda mãe preta, como diz Ana, deitada no palco, usando uma linda camisa azul de Flávio Souza.

Pois a peça não é raivosa, não é didática, não é triste. É cheia de graça, e Ana canta lindamente em dois momentos. “Ninguém sabe meu nome” é a inspiração que precisamos para construir este “novo caminho”, esta “ponte” aos quais Ana Carbatti se refere no texto. Um futuro possível, neste território chamado Brasil. Uma sociedade possível de ser transformada, e assim nos transformar.

Como Ana Carbatti, e como Grace Passô, devemos lutar por um outro Brasil — que não este em que vivemos e que nunca existiu de fato como República para a maioria das pessoas. A eleição presidencial parece estar decidida. (As nos estados, ainda não.) A luta agora deve ser em garantir uma nova composição política e técnica que nos traga serviços públicos de qualidade, segurança e oportunidades para toda a nossa gente. O teatro e o cinema brasileiro fazem este chamado.

Que a vida imite a arte.

Guilherme Coelho é diretor de “Fala Tu”, “Órfãos do Eldorado” “Luz acesa” e fundador da Matizar Filmes e da República.org

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