Memórias e afetos marcam a 35ª edição da Casacor

Edição traz vivências individuais dos arquitetos, da própria Casacor e do edifício que abriga a mostra, o Conjunto Nacional
ANA LOURENÇO – O ESTADO DE S.PAULO

Casa Vértice Dunelli, da arquiteta Patricia Hagobian
Casa Vértice Dunelli, da arquiteta Patricia Hagobian Foto: Gabriela Daltro

Uma das coisas mais importantes na hora de decorar uma casa é contar uma história. O estilo, a arquitetura e a decoração devem ser apreciados pelo morador, claro. Mas são aqueles pequenos objetos cheios de significados que transformam a moradia em um lar. Seja um desenho do filho emoldurado na parede ou um tapete herdado da avó que enfeita a sala. Com esse sentimento em mente, a 35.ª edição da Casa Cor São Paulo lança o tema “Infinito Particular”

“É um convite para os arquitetos refletirem sobre a necessidade de projetar ambientes que priorizem o bem-estar físico, mental e espiritual, a harmonia, o equilíbrio e o conforto”, explica Lívia Pedreira, diretora superintendente da Casa Cor. “O período de pandemia nos convidou a fazer um mergulho interior. E até quem não queria, foi obrigado a se deparar com a sua casa, suas dores, suas alegrias. Então a casa se tornou um macrocosmo da nossa vida. De fato, a gente ali trabalhava, estudava, provocava todas as nossas auto indulgências de bem-estar, do conforto afetivo, amoroso. Tudo isso deu origem ao grande tema que é o infinito particular.”

A palavra-chave da edição é “contemplação”, não só mais no sentido de explorar as tendências e ideias trazidas para a decoração, mas também de apreciar o sentimento geral de aconchego. Como se depois de tanto estresse e fadiga mental que vivemos durante os dias mais intensos da pandemia, agora pudéssemos respirar um pouco mais. 

Pensando nisso, foram criadas sete praças de bem-estar, que convidam o visitante a relaxar e apreciar a decoração, o verde e os elementos naturais que instigam o toque: desde tecidos até a palha natural e a madeira.

A pressa da agitada Avenida Paulista e do dia a dia de uma grande cidade é contrastada por ambientes que prezam pelo resgate do tempo. Sejam com lembranças, com um espaço para apreciar uma bela arte e ser rodeado pelo verde ou pela possibilidade de sentir os objetos, as emoções e as histórias ali compartilhadas.

MEMÓRIAS

Qualquer um que passe pelo edifício 2073 da Avenida Paulista poderá observar a exposição gratuita da comemoração de 35 anos da Casa Cor, que ocorre no térreo e propõe uma viagem pelas últimas décadas da arquitetura e do design de interiores brasileiros. 

“O fotógrafo Fran Parente preparou imagens exclusivas que mostram as entranhas do Conjunto Nacional. Seu vídeo, em timelapse, mostra como a Casa Cor se constrói e como é possível estar num espaço como esse com intervenções mínimas. As caixas de som espalhadas pela exposição, também ajudam a contar a história da mostra, onde os casos mais curiosos da Casa Cor ganham vida, numa seleção de histórias preparada pela jornalista Baba Vaccaro”, revela Livia que fez a seleção de conteúdo ao lado das arquitetas Carmela Rocha e Paula Thyse, do Ateliê Esquina.

Já dentro do percurso, na alameda dos homenageados, há seis salas de 50 m², cada uma para um nome consagrado da Casa Cor. Dentre eles, Consuelo Jorge que instalou 42 telegramas pessoais em uma de suas paredes. “Esse painel é uma homenagem à minha mãe, que faleceu ano passado. Eu fui cuidar dela e achei guardados diversos telegramas que ela recebeu em seu casamento, em 1964”, diz.

Paredes de telegramas da arquiteta Consuelo Jorge
Paredes de telegramas da arquiteta Consuelo Jorge Foto: Denilson Machado

Para inserir mais do seu universo particular, Consuelo também fez questão de colocar sob a cama, uma colcha feita pela avó e que foi passada de geração em geração. “Você tem que ter história na sua vida. Quando você vai fazer uma residência, é preciso respeitar a origem da pessoa. Isso é deixar a vida ali, afinal a casa é nosso ninho, nosso refúgio. E é muito gostoso ter uma história pra contar.”

Gabriel Fernandes, que participa pela primeira vez da mostra paulistana, decidiu falar sobre a Praia Grande, no litoral sul de São Paulo, onde viveu durante a infância.

“O Somos é um ambiente que fala sobre o coletivo, sobre essa junção de  tudo aquilo que conseguimos ser durante a vida. Mas no começo ele começa com ‘só’ ali no início. E ele me coloca em momentos em que me conecto com coisas do espaço – a mesa de centro, com areia da Praia Grande, o painel ondulado, que remete ao orgânico das ondas, a agulha de costura da Adrianna Eu, que tem uma memória afetiva com a minha mãe costurando quando eu era criança. Ele é a minha conexão forte com o lugar com que me sinto representado”, diz.

Já aqueles que não trazem memórias de lugares trazem memórias do que são. Seja um tipo de revestimento que lembra a casa de infância, uma cadeira de balanço que usava na casa da avó ou uma metáfora sobre o que se é, como fez Karol Suguikawa. “Esse espaço é uma grande galeria de projetos que eu tinha no meu portfólio. A poltrona vértice é um método que desenvolvi onde eu leio peças curvas – que, no meu imaginário, são femininas, e transformo essas peças com outro gênero”, conta ela, que é a primeira arquiteta transexual a realizar um projeto na Casa Cor São Paulo. 

HOMENAGEM

Outra importante característica da edição é a presença de arte. “Sempre me envolvi com a arte, então a minha leitura de infinito particular se reflete naquilo que me cerca, como a arte, memórias afetivas e o colecionismo, tudo muito presente no meu ambiente”, conta o estreante Carlos Navero, criador da Galeria Pirajuí, arquiteto e colecionador de arte.

Ali, ele mistura clássico com contemporâneo e um pouco de pop para mostrar todos os gostos: desde fotografias, grafitte e peça de lego, até xilogravura, pinturas e mobiliário de Sérgio Rodrigues e Jorge Zalszupin. “Pautado nessa veia modernista, também seria impossível desconsiderar a aplicação da pastilha de porcelana, que se configura como um elemento muito presente nas obras arquitetônicas de João Artacho Jurado, ao mesmo tempo que proponho a sensação de se imaginar dentro de uma piscina”, conta ele que pratica natação diariamente. 

Ambiente de Marcelo Sallum
Ambiente de Marcelo Sallum Foto: Denilson Machado

A arquitetura é, também, um ponto marcante nos ambientes. Marcelo Salum, por exemplo, homenageia os artistas Gregório Kramer e Attilio Baschera, que revolucionaram o segmento da arquitetura e decoração com o design de estamparias. “A gente brincou com os arcos que eles tinham na loja deles, a Larmode, mas também em uma referência aos templos romanos que tinham os arcos para enaltecer os tecidos e as criações como se fosse um templo de decoração e de cor”, conta. 

Agora nada se compara às homenagens ao próprio edifício que recebe a mostra: o Conjunto Nacional. Projetado há 63 anos pelo arquiteto David Libeskind, um dos mais importantes marcos arquitetônicos da cidade, foi celebrado através de fotos e gravuras, mas também com exibições do concreto aparente, das linhas de tubulação da própria Casa Vértice Dunelli criado por Patrícia Hagobian.

“Quisemos contar a história desse edifício super icônico. Por isso deixamos os pilares aparentes descascados, deixamos o teto a mostra”, exemplifica ela. A história também foi contada na escolha dos móveis carbonizados, em memória ao incêndio de 1978. “O vértice nada mais é do que o ponto de encontro das linhas e o Conjunto Nacional é isso: comércio, entretenimento, moradia.”

Ambiente de Ricardo Abreu, Restaurante 00:00
Ambiente de Ricardo Abreu, Restaurante 00:00 Foto: Renato Nacarro

No restaurante 00:00, um dos vários espaços funcionais da mostra, o arquiteto Ricardo Abreu preservou todas as estruturas aparentes no forro, reconhecendo a importância do edifício. “A gente aborda no projeto essa sobreposição de camadas históricas, então acrescentamos os elementos novos, preservando o pré-existente”, conta ele. “O passado histórico é respeitado e incrementado com as necessidades do presente, ou seja, o passado permanece vivo e um único elemento age a favor do tempo é celebrado: a natureza.”

CASA COR São Paulo 2022

De 05 de julho a 11 de setembro de 2022

Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2.073

De ter. a sáb. das 12h às 22h. Domingo e feriados das 11h às 21h

R$ 80 (dias de semana)/R$ 100 (sáb., dom., e feriados). Compre aqui.

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