O Facebook quer se livrar da política em sua plataforma

Mirando conteúdos políticos, rede social diminui o peso dos compartilhamentos na distribuição de posts
Por Pedro Doria – O Estado de S. Paulo

Facebook mudou os algoritmos para diminuir conteúdo político 

Quem ainda frequenta o Facebook passou a ver, desde ontem, menos informação política na tela. A decisão, segundo a companhia, veio pelo “feedback das pessoas”. Estamos à beira da eleição presidencial e, hoje, esta é uma rede frequentada por pessoas mais velhas. Justamente as mais susceptíveis a desinformação, por conta de uma certa ingenuidade na lida com o que recebem pela internet. A notícia é boa. E é ruim.

O algoritmo da rede, como ocorre aliás em qualquer rede, elege critérios ligados a nosso engajamento para definir que postagens nos apresentará. Tudo conta: cliques, curtidas, se foi visto por amigos com os quais interagimos muito, até tempo que gastamos lendo. Pois, para o conteúdo político, o Facebook agora vai dar menos ênfase aos comentários e compartilhamentos.

Compartilhamento, aqui, é chave. Essa é a principal ferramenta para distribuir desinformação. As mentiras construídas para parecer notícias que infestam o ambiente em tempos eleitorais não são feitas sem técnica. Pelo contrário: são refinadas para confirmar o viés político de quem lê e para estimular o compartilhamento. Quando o Facebook diminui o número de postagens compartilhadas de política, diminui a desinformação.

Esta é a observação de inúmeros especialistas e também a indicação de Frances Haugen, a ex-funcionária que deixou a companhia para denunciá-la perante o Congresso americano. Frances está no Brasil e, por aqui, observou justamente isso. Se a rede desejasse diminuir desinformação, a primeira coisa a fazer é reduzir o compartilhamento. Por este ângulo a notícia é boa.

Mas é ruim porque o cala boca é universal. É uma decisão de uso de força bruta que, em essência, desestimula a conversa sobre política.

“O Facebook é uma rede bolsonarista”, contou um pré-candidato a deputado federal que começou a planejar sua campanha (ainda estamos naquela fase que a lei nos faz fingir que são pré-candidatos). O problema é o custo da propaganda. Quem faz anúncio digital paga mais ou menos de acordo com o número de concorrentes. Se muita gente quer brigar por um perfil específico de consumidor – ou eleitor –, o preço é mais alto. E, no Facebook, o bolsonarismo está gastando tanto dinheiro que a rede se tornou pouco competitiva para outros candidatos.

Ou seja, enquanto a rede vai diminuir o alcance orgânico da informação política, pelo caminho da publicidade o grupo político responsável por mentiras ainda a domina. A briga mal começou, 2022 será pior do que foi 2018 e outubro, o mês da eleição, já é logo ali. 

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