A expertise artesanal em sua máxima — e cara— expressão dominou a alta-costura de Paris

Bruno Astuto elege os destaques da temporada couture
Por Bruno Astuto

Jean Paul Gaultier — Foto: Getty Images

Houve quem apostasse que a pandemia fosse acabrunhar o desejo pelas peças únicas e de preços inalcançáveis da alta-costura parisiense. Pois neste retorno aos desfiles presenciais em plena capacidade (a temporada de janeiro teve convites limitadíssimos por causa da Ômicron), as salas de desfiles estavam lotadas e, principalmente, a fila de clientes nos ateliês para encomendar seus vestidos sob medida.

Elas são cerca de 600 em todo o mundo, com capacidade de desembolsar quantias que vão de 60 mil a 1 milhão de euros por um único modelo que só pode ser repetido em continentes diferentes. Ainda que, desta vez, russas e chinesas tenham ficado de fora (pelos motivos que conhecemos), americanas, árabes, coreanas e latino-americanas voltaram com força total.

E o que esse público encontrou? Uma quantidade exorbitante de vestidos de festa, executados por ateliês franceses seculares de bordados, plumagem, flores de seda, plissados, prataria, ourivesaria e botões. “A volta dos casamentos e das festas, depois de dois anos de pandemia, acabou criando uma demanda reprimida”, diz a duquesa espanhola Naty Abascal, editora de moda da revista Hola!. “Os ternos, calças e camisas quase desapareceram”.

Dior — Foto: Getty Images

O glamour parecia menos focado no tapete vermelho do Oscar ou nas redes sociais, e mais concentrado na elegância atemporal. O artesanal foi o grande astro das passarelas.

Na cabeça-de-chave, estava Maria Grazia Chiuri, estilista da Dior, que fez um passeio por folclores de diferentes culturas ao misturar rendas, silhuetas e bordados de linha. As roupas pareciam entalhadas, ao mesmo tempo que eram tão leves e preciosas. Sensível ao momento, ela convocou a artista plástica ucraniana Olesia Trofymenko para elaborar o cenário, que tinha gigantescos painéis com flores de crochê e a Árvore da Vida, bordadas por jovens artesãs de uma escola na Índia patrocinada pela marca. Alguns casacos com patchwork de cashmere prestavam tributo a outra artista ucraniana, a magnífica Sonia Delaunay (1885-1979).

Chanel — Foto: Getty Images

Por sua vez, a Chanel apostou em modelos elegantes e descomplicados que piscavam para a década de 1930. Longos-coluna, ombros arredondados e motivos geométricos se combinavam às peças de alta joalheria da marca. Ela homenageia o ano de 1932, em que Gabrielle Chanel desenhou sua única coleção de joias, para fomentar a indústria de diamantes no período entre-guerras.

A noiva, encarnada pela modelo Jill Kortleve, tinha uma pitada boho, usando uma estola franjada e megalaçarote na cabeça. Muitos vestidos de festa eram usados com chapéu e botas western, afinal o desfile aconteceu na Hípica de Paris.

Giambattista Valli — Foto: Getty Images

Enquanto isso, o italiano Giambattista Valli comemorava seus 10 anos de alta-costura, com a passarela repleta de balões. Foi um festival de laços, bordados de cristais, vestidos-sereia de tule e cores exuberantes. Quem fechou a apresentação, a bordo de um vestido de noiva cor-de-rosa, foi sua musa, Bianca Brandolini, filha e neta de brasileiras.

Schiaparelli — Foto: Getty Images

Não poderiam, é claro, faltar os excessos, que ficaram a cargo de Daniel Roseberry, estilista da Schiaparelli. Inspirado na exposição em homenagem à fundadora da marca, ele apresentou ancas, espartilhos, vestidos com falsas gavetas, flores de colheres, bem ao gosto surrealista. Havia um perfume Christian Lacroix dos anos 80 no ar, com chapéus de matador, boleros de toureiro, ancas e mangas bufantes, perfeitos para dominar os próximos tapetes vermelhos. Na primeira fila, Anitta usava um sutiã pontiagudo de crochê e captava todos os flashes.

Mas se houve alguém que eternizou essa peça foi Jean Paul Gaultier. Aposentado da moda, ele agora cede sua grife para estilistas convidados, dessa vez ninguém menos que Olivier Rousteing, o festejado diretor criativo da Balmain. Olivier nunca escondeu seu amor por Gaultier, em especial nas listras de marinheiro, na lingerie à mostra, no tribalismo e no vanguardismo de colocar “minorias” e o mundo underground como inspiração e protagonistas de suas coleções.

O resultado foi potente: as latas do perfume mais famoso de Gaultier, Le Mâle, viraram sapatos e vestidos; a silhueta andrógina apareceu em vestidos-ternos e fraques desconstruídos; os corseletes se agigantavam com gigantescas barbatanas; as tatuagens se declinavam em segundas peles. Na primeira fila, Gaultier aplaudia calorosamente, perto de Jojo Todynho (embaixadora de seu perfume), Neymar, Rossy de Palma e Alessandra Ambrosio.

Jean Paul Gaultier — Foto: Getty Images

Foi o único desfile, aliás, ovacionado de pé. E não apenas no final da apresentação, mas também em seu decurso. Pudera: Olivier, único estilista negro a comandar hoje uma grande maison francesa, foi também o único a contemplar diferentes belezas em seu casting de modelos, das plus-size a um casal de mulheres grávidas que usavam um bustiê de couro bege e pareô em crepe de chine. A inclusão não parou aí; depois de darem seus pivôs na passarela, as manequins iam até a sacada da maison para mostrar os looks à turma do sereno que estava na rua à espera das celebridades. Não é à toa que ele é considerado um dos atuais prodígios da moda.

Por fim, a Balenciaga, a marca mais bombada das redes sociais, realizou seu segundo desfile de alta-costura sob a batuta do estilista Demna. A coleção foi autorreferente, um copia-e-cola de hits anteriores com acabamento mais premium. As modelos usavam máscaras que cobriam completamente o rosto, o que não foi o caso das celebridades convidadas a riscar a passarela (Kim Kardashian, Dua Lipa e Nicole Kidman à frente, que causaram um furor sem igual). Elas, talvez, tenham ofuscado as peças mais interessantes, como a série de macacões, saias e tops inteiramente em couro, ou os vestidos de cetim com estrutura invertida. A noiva, coitada, mal conseguia caminhar, tamanho o peso do vestido.

Não faz mal; o glamour aqui foi uma exceção medida por likes e engajamento. Para todas as consumidoras reais, sobraram ótimas opções nas demais marcas, que não deixam a peteca — nem a noiva — da alta-costura cair.

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