Ainda somos monogâmicos? Terapeutas indicam questões para checar como anda sua relação

Profissionais aconselham que as perguntas sejam um ponto de partida para bons bate-papos
Catherine Pearson

Ilustração de porta amarela com uma placa em que há um coração no lado esquerdo. A parede em volta da porta é de madeira e há um aparador de cada lado com dois vasos em cada um.
André Stefanini/Folhapress

THE NEW YORK TIMES – Os últimos dois anos ou mais têm sido universalmente turbulentos. Terapeutas de casais dizem que lidam com as consequências diariamente em seus consultórios.

Mesmo agora, quando a pandemia já deixou de dominar a vida diária, muitos continuam a trabalhar, fazer compras e inúmeras outras coisas online, o que os leva a contar com suas caras-metades para satisfazer suas necessidades sociais e emocionais.

“Vejo no meu consultório como essa tendência onera os relacionamentos românticos principais”, comentou Laura Silverstein, terapeuta social clínica e autora de “Love Is an Action Word” (Amor é uma palavra de ação, em português). Ela é co-proprietária de um consultório na Pensilvânia que vem tendo dificuldade em acompanhar a demanda de atendimento.

Muitos dos casais que a consultam estão atolados “no modo de sobrevivência isolada”, disse a terapeuta. O relacionamento deles passou a resumir-se a administrar as tarefas domésticas. Outros casais esqueceram como se divertir ou como é importante ter interações espontâneas com o mundo externo. Alguns ainda estão processando traumas sofridos.

As sete perguntas que seguem vão ajudá-lo a checar como está seu relacionamento, quer vocês dois ainda estejam abalados pela pandemia, quer tenham voltado para suas rotinas antigas, sem fazer uma pausa para reflexão.

Os terapeutas de casais e sexuais que sugeriram as perguntas dizem que elas devem desencadear bate-papos interessantes, quer vocês dois estejam num relacionamento que já dura décadas ou que seja relativamente recente. Disseram, também, que com a prática vai ficando mais fácil fazer e responder as perguntas.

1. O que gostamos de fazer juntos por diversão?

Uma teoria importante sobre a razão do por que os casais se divorciam ou quais motivos levam duas pessoas a ficarem insatisfeitas uma com a outra é que a alegria, paixão e sentimento positivo geral que sentiam no início do relacionamento vai perdendo força ao longo do tempo, disse Sarah Whitton, psicóloga e diretora do programa de pesquisas Casais e Famílias de Hoje, na Universidade de Cincinnati.

Atração física e hormônios não são as únicas razões por que os relacionamentos são empolgantes quando estão em fase inicial. Isso acontece também, segundo Whitton, porque “passamos nosso tempo fazendo atividades divertidas”.

Ela recomenda que os casais peguem uma agenda, olhem o que fizeram na última semana ou último mês e perguntem: “Quantos minutos passamos fazendo alguma coisa divertida ou prazerosa juntos?”. Partindo disso, podem tentar divertir-se mais juntos.

2. Quem leva o lixo pra fora hoje?

A pandemia levou os casais a mudar a divisão das tarefas domésticas. Alguns dados sobre casais heterossexuais sugerem que a divisão ficou mais igualitária em casa, mas em muitas outras famílias os lockdowns apenas exacerbaram as disparidades de gênero.

A psicóloga clínica Galena Rhoades, professora pesquisadora da Universidade de Denver, acha que todos os casais deveriam passar algum tempo discutindo como estão dividindo os cuidados dos filhos e as tarefas domésticas e se isso está funcionando logística e emocionalmente.

“Reservem um tempo específico para falar de quem faz o quê e quais papéis vocês querem desempenhar de agora em diante”, ela recomendou. Planeje a discussão como se fosse uma reunião de trabalho. Saiba o que você quer discutir. Reduza as distrações ao mínimo. Seja o mais explícito possível sobre quem vai fazer o quê. Aguardem algumas semanas com a nova rotina até fazer uma reavaliação.

3. Qual é uma coisa que gostamos na nossa vida sexual?

Se os casais estão vivendo um marasmo sexual, eles tendem a enfocar os aspectos negativos, disse a terapeuta sexual Tammy Nelson, autora de “Open Monogamy: A Guide to Co-Creating Your Ideal Relationship Agreement” (Monogamia aberta: um guia para co-criar seu acordo de relacionamento ideal, em português).

Para ela, o que funciona muito melhor é enfocar o que está dando certo. “Você não vai mudar sua vida sexual dizendo ‘odeio quando você parte para a esquerda’”, ela explicou. “Precisa dizer: ‘adoro quando você vai para a direita.’”

Nelson incentiva as pessoas que fazem parte de um casal a identificar uma coisa que apreciam em sua vida sexual. Pode ser alguma coisa que as duas pessoas fizeram juntas 20 atrás; pode ser um gesto sutil, por exemplo o jeito como uma das pessoas toca o rosto da outra. Voltar sua atenção para esses momentos e falar abertamente deles, juntos, pode ajudar a reacender a energia erótica do casal, disse a terapeuta.

4. Como temos ajudado um ao outro a passar por momentos difíceis?

Segundo Silverstein, sempre que o casal passa por uma fase difícil juntos, é importante reservar um tempo depois para refletir sobre o que aconteceu. O que funcionou? O que não funcionou? Mesmo que os últimos anos tenham sido traumáticos para você e sua cara-metade por inúmeros motivos, a maioria dos casais consegue identificar o que Silverstein chama de “micromomentos” em que cada um esteve presente para ajudar o outro.

Outra maneira de encarar isso é pensar: “Como dependemos um do outro? Como isso foi sentido por cada um de nós?”. Essa é a sugestão de Jesse Kahn, terapeuta social clínica e diretora do Centro de Terapia de Gênero e Sexualidade, em Nova York.

5. Ainda estamos na mesma página em relação à monogamia?

De acordo com Tammy Nelson, a monogamia tem significados diferentes para diferentes pessoas, e isso não se aplica apenas às pessoas que vivem relacionamentos abertos. Ela incentiva seus clientes a atualizar regularmente seus “acordos de monogamia”, discutindo os detalhes das formas de relação que consideram aceitável fora de seu relacionamento principal e perguntando se algo mudou nessa área.

Seja específico. Talvez você e sua cara-metade tenham combinado, muito tempo atrás, que a fidelidade sexual seria imprescindível. Mas o que dizer de conversas online? “E coisas como pornografia?”, perguntou Nelson. “E flertar com um amigo ou amiga? E almoçar com um ex?”

6. O que está te preocupando e você ainda não me contou?

Rafaella Smith-Fiallo, terapeuta social clínica e terapeuta sexual e de casais, acha que essa é uma boa pergunta para as pessoas fazerem regularmente à sua cara-metade (por exemplo, diariamente ou semanalmente), mas que também pode ser apropriada para momentos maiores de transição. Com isso, ela explicou, você abre a porta para seu companheiro lhe mostrar sua vulnerabilidade e lembra a ele ou ela que vocês dois são um time.

Resista à vontade de tentar resolver os problemas imediatamente. Em lugar disso, recomendou Smith-Fiallo, pratique a escuta ativa. “Pode parecer uma coisa incômoda, desajeitada”, ela disse. “Mas crie tempo e espaço para isso, ciente de que você estão nessa juntos.”

7. Como posso te ajudar a se sentir mais amado?

“Acho essa uma pergunta linda”, disse Silverstein, dizendo que o responsável por ela é o conhecido pesquisador John Gottman, estudioso das relações conjugais. As pessoas que querem fortalecer seu relacionamento romântico muitas vezes perguntam o que elas querem e precisam, ela explicou. Mas fazer essa pergunta é uma maneira muito clara de mostrar a importância que sua cara-metade tem para você.

“Em nossas conversas com nossos parceiros, queremos indagar o que precisamos, mas queremos igualmente ser generosos e oferecer-nos a satisfazer as necessidades do parceiro”, disse Silverstein.

COMO ENCARAR AS AVALIAÇÕES DE RELACIONAMENTO

Essas perguntas podem ser espinhosas. Por isso, segundo os especialistas, os casais devem planejar com antecedência e realmente usar suas melhores habilidades comunicativas. Não faça essas perguntas enquanto está dando o café da manhã a seus filhos ou quando seu parceiro ainda não está plenamente acordado. Aja com gentileza e consideração, procurando encontrar um momento que funcionem bem para vocês dois.

Segundo Smith-Fiallo, ao falar do relacionamento, pode ser útil usar frases contendo “eu”. Então, digamos, em vez de dizer algo como “você me faz sentir …”, experimente dizer “quando tal coisa aconteceu, eu senti x, y ou z”, ela recomendou.

Todos os especialistas citados mencionaram que alguns casais podem achar essas discussões mais fáceis e construtivas se forem feitas com a ajuda de um terapeuta.

E depois, pratiquem, pratiquem muito! O objetivo é ter essas discussões sobre o estado do relacionamento não apenas após fases de grandes mudanças e transições, mas também criar um hábito de comunicação em seu relacionamento, de modo que vocês tenham essa conversa de modo habitual, diariamente, semanalmente, mensalmente e anualmente, disse Smith-Fiallo.

“Pode ser realmente útil lembrar um ao outro que vocês são um time”, ela disse. “Vocês estão nessa juntos.”

Tradução de Clara Allain

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