Na carona dos novos trabalhos de Drake e Beyoncé, house music ‘soulful’ está de volta

Presente nos novos álbuns dos artistas americanos, estilo que marcou época na cultura club dos anos 1990 retorna às pistas de dança e às listas de streaming
Por Ronald Villardo – O GLOBO — Rio de Janeiro

Capa do disco “Renaissance”, de Beyoncé, cujo single “Break my soul” ressalta o potencial do estilo – Foto: Divulgação

A retomada das atividades nas pistas de dança este ano trouxe uma novidade que tem entusiasmado produtores, DJs e fãs de música eletrônica “das antigas”. O retorno da house music “soulful” (cheia de alma, em tradução livre), que reinou nas boates nos anos 1990, o auge da chamada cultura “club”. Entre as características principais do estilo estão vocais majoritariamente femininos que carregam letras libertárias e otimistas. Quem pensou em “Break my soul”, de Beyoncé, acertou em cheio.

O single, que chegou às plataformas digitais no dia 21 de junho, é a primeira faixa do álbum “Renaissance”, cujo lançamento a cantora anuncia para o próximo dia 29. Minutos após a disponibilização da música nos streamings, a hashtag #breakmysoul tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Entre os elogios ao trabalho da diva estava um post de Anitta: “Minha alma está quebrada. Que música f*”, disse a garota de Honório Gurgel.

O sucesso de “Break my soul” ressalta o potencial do “soulful” entre as novas gerações. Um movimento que parece já ter sido percebido há algum tempo por quem acompanha de perto as pegadas musicais da eletrônica.

— Acho que este renascimento começou pouco antes da pandemia, em 2019. Notei que jovens DJs começaram a procurar faixas de “soulful” nas lojas que frequento, no Brooklyn — conta o DJ americano Joe Claussell, que toca hoje, na festa RaRa, no Alto da Boa Vista.

Ícone do estilo

Claussell tem conhecimento de causa. Há 25 anos, ele fundou o clube Body & Soul, em Nova York, ao lado dos colegas de picapes François K. e Danny Krivit. A marca tornou-se rapidamente uma das maiores referências mundiais da “soulful” house. Os três DJs foram elevados ao status de ícones do estilo, influenciando artistas e produtores de todo o planeta. Entre eles, o DJ carioca Felipe Venancio, devoto praticante da “soulful” house em terras paulistanas na sua noite semanal “Toilette”, no clube Jerôme.

— O soulful nunca morreu. A novidade é que as faixas estão voltando a aparecer nas listas principais das plataformas e não exclusivamente nos playlists dedicados ao gênero — conta o DJ, citando o sucesso nas pistas da recém-lançada faixa “Rise up”, do DJ Harry Romero, como um dos exemplos do momento favorável para a house.

Trendsetter

O produtor João Marcelo Bôscoli, que esteve à frente de lançamentos de “soulful” house quando presidiu a gravadora Trama, aposta que o novo trabalho de Beyoncé deverá preparar o território para uma onda de “soulful” na música pop como um todo.

— Um artista trendsetter, como é o caso de Beyoncé, certamente influenciará muita gente. Mas ela não está sozinha nessa. O novo álbum do Drake, “Honestly, nevermind”, também traz as marcas sonoras daquela época, ainda que um pouco mais soturno — avalia o produtor.

Drake. Novo álbum, “Honestly, nevermind” tem marcas sonoras daquela época — Foto: Divulgação
Drake. Novo álbum, “Honestly, nevermind” tem marcas sonoras daquela época — Foto: Divulgação

O caldo engrossa com a volta às paradas (ou, como dizem os produtores, aos “charts”) de artistas que tiveram seu auge na década de 1990. Entre eles está a cantora americana Ultra Naté, então onipresente tanto em pistas underground quanto mainstream nas diversas versões do hino LGBTQIA+ “Free”. Em junho, a cantora lançou o irresistível single “Miracle”, que definiu em entrevista à revista britânica DJ Mag como “um manifesto ao amor-próprio feminino e para as mulheres pretas, que têm que trabalhar duas vezes mais duro do que todas as outras para conquistar seu espaço”.

— Eu acho muito bom esse movimento todo. Só espero que não seja ruim para os próprios fãs de house. Se todo o pop resolver seguir os passos da Beyoncé e do Drake e começar a lançar faixas parecidas, daqui a dois, três anos, corre-se o risco de tudo ficar muito chato — pondera João Marcelo Bôscoli.

Dois dos 11 álbuns de Ultra, “Blue notes in the basement” (1991) e “One woman’s insanity” (1993) estão sendo remasterizados para um relançamento logo após a estreia de “Ultra”, disco de inéditas previsto para chegar às plataformas ainda este ano.

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