‘Demissões em startups foram erro dos fundos’, diz João Kepler, CEO da Bossanova, um dos principais investidores do País

Maior investidor em startups em estágio inicial em 2022, João Kepler, da Bossanova Investimentos, defende crescimento equilibrado entre despesas e receitas
Por Guilherme Guerra

João Kepler é CEO da Bossanova, gestora de investimentos em startups em estágio inicial no Brasil 

Tradicionalmente, a estratégia das startups é levantar rodadas de investimento e queimar o caixa em expansão agressiva – até receber o cheque seguinte, geralmente maior. Nos últimos meses, porém, o cenário mudou.

Com a escassez de capital causada pela alta global dos juros, investidores fugiram do risco e deixaram os fundadores de startups sem os aportes necessários para crescer. Isso resultou em cortes nos negócios para equilibrar despesas e garantir caixa durante o período.

“O erro não é do empreendedor, e sim dos fundos, que prometeram novas rodadas, mas que agora não estão mais investindo”, diz João Kepler, fundador da Bossanova Investimentos, uma das principais fontes de cheques para startups no País. No primeiro semestre de 2022, foram 85 aportes (acima dos 78 dos primeiros seis meses do ano passado), segundo a plataforma de inovação Distrito.

Além disso, a firma conseguiu ampliar o número de cheques dados a essas companhias, navegando na contramão do mercado: foram R$ 26,8 milhões investidos até o fim de junho de 2022, ante R$ 13 milhões do mesmo período de 2021.

Ao Estadão, Kepler falou sobre o momento para startups em termos de investimento e os planos da Bossanova para continuar crescendo. Leia, a seguir, os principais trechos:

O que explica o aumento de aportes em startups da Bossanova em um ano marcado por retração?
Decidimos acelerar os investimentos porque tínhamos caixa. Mais do que isso, temos muitos investidores nos procurando. Então, por que não acelerar? O segredo é a oportunidade. A gente devolve para sociedade aquilo que, lá atrás, como empreendedor, eu não tinha. A Bossanova quer distribuir melhor o dinheiro para que mais empresas consigam captar e deem certo. Para que, lá na frente, a gente multiplique o valor investido.

Com o atual cenário, houve queda no valor unitário desses cheques?
Das startups ‘série A’ para trás, onde a Bossanova atua, estamos aumentando os cheques, e não diminuindo. Existe mais oportunidade de investimento. Sempre fomos muito pé no chão. Nunca fizemos um valuation esticado baseado na moda de fintech, por exemplo. O investidor que investe depois da Bossanova sabe que a rodada anterior foi muito ajustada, baseada no que o empreendedor vai precisar de grana em 15 meses. Por isso, não tivemos nenhuma startup que teve de reduzir a avaliação. Ganhamos muito com esse cenário e, por isso, nós aumentamos os cheques.

Segundo a Distrito, a Bossanova foi quem mais investiu em startups em estágio inicial. A gestora pretende continuar essa estratégia?
Pretendemos continuar no que é a nossa tese principal, que é cheques-anjo ou pré-semente. Semente é algo novo. E temos uma saída muito boa: são 75 exits. Nossa estratégia significa sair antes de todo mundo. E é importante ser conhecido como líder em cheques. Porque os melhores negócios vêm para a gente. Lá fora, existe muito mais capital do que projetos para se investir. No Brasil, é o contrário. Então, eu preciso ter acesso aos melhores projetos antes de qualquer outro.

A Bossanova pretende criar mais comitês voltados a segmentos específicos?
Estamos em muitos setores, mas faltam outros. Temos comitês em esportes e segurança, e vamos abrir o de games. Queremos ter todas as verticais mapeadas e atendidas pela Bossa Nova. A vantagem desses comitês é que existem até quatro especialistas em cada uma dessas áreas que nos ajudam a tomar a decisão de investimento. É como um aval. Só não pretendemos entrar no segmento de governos (govtechs) e hardware, como impressão de casas 3D.

Esse leque abrangente não tira o foco?
Temos os especialistas, que não tiram nosso foco. E temos uma esteira de investimento que é a mesma para tudo. Só muda o segmento. Nós não somos um pato, animal que nada mal e voa mal. Nem um canivete suíço, que faz tudo pela metade. Fazemos tudo muito bem.

Nesse cenário mais complexo de 2022, a moda é ser “racional” nos investimentos. Então, qual é a startup ideal hoje em dia?
Eu acredito em break even, que é o ponto de equilíbrio entre receita e despesas de uma empresa. Quanto de capacidade uma startup tem para voltar ao break even se deixar de receber investimento? Se parar de receber investimento, a startup morre? Não? Então, é uma empresa para se investir.

As demissões são uma solução nessa crise?
O que aconteceu é que os fundos prometiam dinheiro caso os empreendedores acelerassem o crescimento da startup. O erro não foi do empreendedor, e sim dos fundos que garantiram e continuaram fazendo rodadas, mas agora não estão mais investindo, forçando os fundadores com a gestão do caixa. Agora é a hora de encontrar os bons empreendedores, porque essa crise é um freio de arrumação muito importante. Nunca tivemos um momento tão bom para voltar aos princípios de se empreender ou de se investir.

Então, o problema da crise nas demissões não é da gestão dos empreendedores?
Não. Os fundos pediram para acelerar. Colocaram lenha na fogueira…

Como isso afeta nosso ecossistema de inovação, de modo geral?
Agora, muita startup vai virar empresa tradicional para continuar sobrevivendo. Uma startup não distribui dividendos, não paga pró-labore alto e reinveste tudo o que ganha. Elas vão ter que dar lucro e incluir o sócio-investidor no contrato social.

O que você tem aconselhado aos seus empresários?
Nós mapeamos nosso portfólio. Desde o início da pandemia, implantamos um sistema de controle que monitora mensalmente, de 20% para cima ou para baixo, a projeção de receita e despesa das nossas startups investidas. Qualquer variação fora dessa margem permite que nosso time entre em ação e ajude o empreendedor. Nossa taxa de mortalidade de startups é de 6%, número baixíssimo. Ou seja, cerca de 1.600 empresas investidas e só perdemos 82.

A Bossanova se importa em buscar ‘unicórnios’?
É um “American dream”, sabe? Hoje, não me importo com unicórnio. Ter uma empresa bilionária é consequência de um trabalho bem feito. Do jeito que está hoje, vai ficar mais difícil ter unicórnios sem as grandes rodadas de investimento de 2021.

O que tem dito no mercado é que, nos últimos anos, tivemos muitas startups que não deveriam ter se tornado unicórnio. Você concorda?
Espero que não. Daqui para frente, espero que os valuations sejam todos muito bem ajustados com o racional. Mas realmente não sei se isso importa. Não é relevante. Não é porque a Bossanova não tem um (unicórnio no portfólio). Não é a nossa tese.

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